O comércio do café na Freguesia de Santa Rita no Centro do Rio

Publicado em 30 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Por Aloysio Clemente Breves Beiler.

No número 26 da Rua Beneditinos funcionou durante muitos anos a firma Souza Breves & Josué Comissários de Café. Eram sócios da firma: o barão de Guararema, Luiz de Souza Breves; Josué Senador Corrêa de Mello, Carlos de Vassimon e Alberto Moritzohn. Próximo dali, no número 10, funcionava a Roxo, Lemos & Cia, de Frederico Gustavo de Oliveira Roxo, Raymundo José Nunes e José Joaquim Gonçalves Roxo.

Corria o ano de 1888. A safra brasileira passava de 5 milhões de sacas e a princesa Isabel, em 13 de maio sancionara a Lei libertadora do trabalho escravo. Os Breves, representados pelo “rei do café”, comendador Joaquim José de Souza Breves, que colhera em 1860 uma safra recorde de 360 mil arrobas, via escorrer pelo ralo sua enorme fortuna em escravos, terras e títulos.

Os comissários da Souza Breves & Josué, representados por Luis de Souza Breves, barão de Guararema, um dos fundadores da cidade de Além Paraíba, MG, estavam apreensivos com o mercado cafeeiro no pós-abolição. As fazendas sendo penhoradas por bancos que financiaram a produção e compra da mão de obra, e rebeliões ocorrendo em inúmeras propriedades. Na Roxo, Lemos & Cia, capitaneada por Frederico, filho do barão da Vargem Alegre, casado com uma das filhas da baronesa do Piraí, também passavam por situação semelhante. As vultosas safras, como as do “Tio Joaca”, apelido do “rei do café”, conseguidas com desmatamento de enormes latifúndios de matas e estourando escravos no eito, eram coisa do passado.

A fervilhante região da antiga freguesia de Santa Rita no centro do Rio, composta entre outras, pela Rua Larga de São Joaquim, Rua Beneditinos e Rua da Prainha, e que concentravam o comércio de “carne humana” e víveres até o ano de 1840, principalmente no entorno do Valongo, vivia os estertores de uma economia que se baseava exclusivamente no braço escravo. Novos tempos para o café e seus barões!

Enquanto isso, no Oeste Paulista, imigrantes expandiam a produção da coffea rubiácea nas terras roxas e férteis do planalto. Na Província do Rio de Janeiro, maior produtora de café durante muitos anos, assistia ao bater de cabeças dos fazendeiros, libertos e políticos.

Em 30 de setembro de 1889, pouco mais de um ano após a Abolição, morria na sua Fazenda de São Joaquim da Grama, em Rio Claro, RJ, o comendador Joaquim Breves, que chegou a possuir mais de 6 mil escravos, deixando um inventário de 72 fazendas, imóveis na Corte, ilhas, e o café caindo dos pés sem ter quem o colhesse. Um de seus netos residiu bons anos num sobrado da Rua Larga, hoje Marechal Floriano. Torrou sua fortuna e de alguns parentes na boa vida carioca com jogos e mulheres. Retornou pobre para o interior, mas dizia com satisfação: “Gozei a vida!”

A boa vida de muitos acabara. Foram-se os barões, o café, os latifúndios e os palacetes. Hoje, os descendentes de escravos dos Breves em Pinheiral, Arrozal e Bracuí, ainda entoam na roda de jongo, sua crítica aos velhos coronéis, donos da terra:

“Com tanto pau no mato

embaúba é coroné”.

E comemoram alegremente:

 Eu não bebo mais cachaça

Nem o cheiro eu quero ver

Mas depois que tá no copo

Não posso deixar perder

Ô li lê lê Ô lê lê

Ô li lê lê lêêêê.”

Em 1890, a Província de São Paulo assumiu a posição de maior produtor e exportador do grão que foi considerado como ouro verde para muitos.

 

Aloysio Clemente Breves Beiler

Baú da Rua Larga

Folha da Rua Larga, no. 36 – Instituto Cultural Cidade Viva

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