O casamento nos dias de hoje

Publicado em 14 de agosto de 2014 por - temas atuais

Recentemente, uma pesquisa perguntou a vinte casais da classe média carioca: “o que é casamento”. A resposta de 95% das entrevistadas foi: uma relação de amor. A de 100% dos homens: a constituição de uma família. São visões diferentes e frustrações idem. Mulheres encaram a separação como uma consequência do fim do amor. Já para grande parte dos homens, o fato da relação não ser um mar de rosas não justifica um rompimento. Bem ou mal, eles têm uma família. A questão que ela suscita e mola mestra da imensa maioria das separações é velha como a humanidade e, no entanto, atualíssima: a constatação de que o sexo oposto é exatamente isso – oposto.

Hoje, a baixa dos índices de natalidade e fecundidade, o aumento de casais e de nascimentos fora do casamento, o aumento do número de divórcios apontam modificações na sociedade. A maior delas, contudo, é a simbólica. Está havendo uma brutal individualização da família. Nela, assistimos à passagem do coletivo ao singular. Do grupo, ao indivíduo. E ela gera duas correntes: a dos que dizem que a família está recuando como instituição, resultado de uma cultura fundada na defesa dos interesses pessoais e do egoísmo ambiente. E outra que defende a capacidade do individualismo em valorizar as escolhas eletivas, escolhas capazes de fazer do Outro, uma fonte de realização de si.

Esta nova ordem sentimental repousa menos sobre valores coletivos e mais na aspiração de construir uma identidade. A “fidelidade incondicional” de outrora foi trocada pela “fidelidade enquanto se ama”. De juramento solene, ela passou a consciência do provisório

Transformações econômicas, demográficas, culturais e sociais agiram para modificar tais relações. Álbuns e os retratos ganharam novos atores: madrastas, padrastos, meios-irmãos e produções independentes. Segundo cálculos do IBGE, nesta década, 47% dos domicílios têm pais ausentes. Muitos deles se caracterizam por ligações consensuais temporárias. Os avós têm novo papel: criar e educar os netos, repartindo com pais biológicos responsabilidades, inclusive, financeiras. Uma mudança importante se dá para as minorias: os homossexuais começam a sair do armário e a ocupar acena pública. “Pai, mãe: sou gay”. A confissão é melhor aceita. É o começo do fim de uma sociedade que produzia sofrimento graças ao jogo da repressão, do interdito, da miséria sexual.

Na intimidade, a sexualidade liberou-se, por completo, das exigências de reprodução, graças à difusão dos meios modernos de contracepção. Tornou-se mais livre, fluída e aberta à emergência de estilos de vida os mais variados. Ela tornou-se algo que se cultiva, que tem a ver com a identidade de cada um.  E não mais uma norma coletiva pré-determinada. O que era considerado “perversão”, pretensamente “anormal” aos olhos do público, foi descrito, analisado e virou “ciência” alimentada por textos e debates: a sexologia. Findou o limite ou as lições sobre de como usar o corpo. O prazer, ou sua promessa, revelou-se infinitamente eficaz para a comercialização de bens, no seio da sociedade de massas. O imaginário sexual tornou-se uma gigantesca estratégia de vendas. O sexo, antes reprimido e disciplinado, depois instrumento de emancipação e igualdade nos anos 70 e 80, passou a um poderoso aliado do consumo e do hedonismo. Sua banalização seria uma maneira de distrair a sociedade de seus verdadeiros problemas?

Antes encerrada em espaços estritos e secretos, onde se exercia o controle disciplinar e repressivo sobre a sociedade, a sexualidade tornou-se pública. Hoje, o sexo se ostenta. Em toda a parte, a maior dose de superexposição é possível por meio de redes e da mídia e o exibicionismo é uma das motivações para seu uso. Divulga-se o ego, sem meios termos. Vivemos numa sociedade narcisista e confessional. Sociólogos explicam que a relação sexual e amorosa democratizou-se. Cada qual busca no encontro com o outro – por vezes, encontros em série – a realização de um projeto de vida e de uma invenção de si. Nada disso é fácil de viver. Mas, asseguram os especialistas, é um mundo de liberdade e invenção.

Se a ideia de interioridade dava consistência à vida dos indivíduos no passado, hoje, vivemos, apenas, o instantâneo, o espetáculo. Se a privacidade se opõe ao público, a intimidade é uma palavra carregada de afeto e de vida que se opõe ao universo publicitário – dizem os filósofos,. Nos últimos séculos, tanto a privacidade quanto a intimidade sofreram transformações. No início, as pessoas não estavam jamais sós. Membros de comunidades, elas viviam em espaços sem divisões. Buscar o isolamento era luxo dos que podiam. Estar longe do olhar dos outros definia o privado. Homens e mulheres dobraram-se às boas maneiras: vestiram-se, deixaram de urinar publicamente e de comer com as mãos. Por caminhos diversos, a educação do corpo adquiriu fórmulas de contenção, contrariando o desejo e os apelos da “natureza”. Se antes, éramos malcheirosos e sujos; hoje, perfumados. Ontem, marcados por cicatrizes. Atualmente, cauterizados. No passado, castos e cobertos. Agora, desnudos e exibidos.

Hoje, espaços privados estão ligados à noção de conforto e convivialidade. “Estar bem”, significa ter seu “canto”, reconhecer-se em objetos familiares, sentir seu próprio cheiro. Nesses espaços, cuida-se de si. Avalia-se o trabalho permanente para definir as fronteiras entre o íntimo e o social. E ali, no coração da vida privada, a intimidade: a fronteira fluída entre o indivíduo e o mundo, o espaço preservado contra as agressões. Ali, o corpo, o sexo, o amor, a imaginação, a memória e tudo o mais o que seja cumplicidade consigo mesmo. Na intimidade podemos levantar todos os véus e nos perguntar quem somos.

E quem somos? Indivíduos de muitas caras. Em público, civilizados. No privado, sacanas. Na rua liberados, em casa, machistas. Ora permissivos, ora autoritários. Severos com os transgressores que não conhecemos, porém indulgentes com os nossos, os da família. Ferozes com os erros dos outros, condescendentes, com os próprios. Em grupo, politicamente corretos, porém, racistas, em segredo. Entusiastas dos “direitos Humanos” lá fora, mas a favor da pena de morte, cá dentro. Amigos de gays, mas homofóbicos. Finos para “uso externo”, e grossos, para o interno. Exigentes da cobrança de Direitos, mas esquivos, no cumprimento de Deveres. Somos velhos e moços, nacionalistas e internacionalistas, cosmopolitas e provincianos, divididos entre a integração ou a preservação de nossas múltiplas identidades. Na intimidade, miramos nossas contradições. Resta saber se gostamos do que vemos.- Mary del Priore.

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