O casamento de negros e pobres

Publicado em 22 de novembro de 2013 por - História do Brasil

Casamento da mulher pobre e da escrava, não envolvia dote, nem acerto de família, mas, ele representava um valor: “O casá é bom/ Coisa mio não há/ Uma casa, dois fiinho/ Boa terra pra prantá”, reza o dito popular. Pagodes, festanças do gado, festividades religiosas eram espaços anuais quase únicos de encontros e casamentos. Segundo a tradição, matuto só casava quando tinha uma roupa domingueira, um cavalo para o começo da vida e uma modesta casa de palha. Pedir a mão da moça antes de ter estas coisas seria receber um não, na certa. Mesmo porque matuto não gosta de morar com outra família do cunhado ou da sogra.

A mulher muito bonita despertava desconfiança, pois podia incentivar desejo de outros homens e consequente traição. A quadrinha sertaneja aconselhava: Bezerro de vaca preta/ onça pintada não come/ quem casa com mulher feia/ não tem medo de outro home. A tradição oral, por sua vez serve para observar as representações sobre casamento nestes grupos. Casar filhas era sinônimo de dar “carga para os burros”. Casar filho, “dar burro para carga”.

            O outro risco, nestes grupos, era o de “cair no mundo”: Umas casaram, foram morar longe, outras caíram no mundo”, conta Sinhá-Moça sobre as escravas forras e trabalhadoras livres de seu engenho do Oiteiro. E não faltavam Iaiás que castigavam as jovens, admoestando “_ Apanha, negrinha , para teres “tremenha de gente” e mais tarde não caíres no mundo”!

            Existia um alto nível de violência nas relações conjugais no sertão. Não só violência física, na forma de surras e açoites, mas a violência do abandono, do desprezo, do malquerer. Os fatores econômicos e políticos que estavam envolvidos na escolha matrimonial deixavam pouco espaço para que a afinidade sexual ou o afeto tivessem grande peso nessa decisão. Além disso, mulher casada passava a se vestir de preto, não se perfumava mais, não mais amarrava seus cabelos com laços ou fitas, não comprava vestidos novos. Sua função era ser “mulher casada” para ser vista só por seu marido. Como esposa, seu valor perante a sociedade estava diretamente ligado à “honestidade” expressa no seu recato, pelo exercício de suas funções no lar e pelos inúmeros filhos que daria ao marido. Muitas mulheres de 30 anos, presas no ambiente doméstico, sem mais poderem “passear” – “porque lugar de mulher honesta é no lar” – perdiam rapidamente os traços da beleza, deixando-se ficar obesas e descuidadas, como vários viajantes assinalaram.

Mulheres abandonadas por maridos que buscaram companheiras mais jovens sempre houve em todo o mundo, mas fatores específicos do Nordeste como o desequilíbrio demográfico nas regiões interioranas, ocasionaram um mercado matrimonial desvantajoso para um número muito grande de mulheres cujos maridos deixavam o sertão para ir trabalhar nas cidades litorâneas. Homens de prestígio e de boa situação social sempre tiveram a chance de constituir mais de uma família.

As mulheres jovens, sem bens e que não haviam conseguido casamento numa terra de estreito mercado matrimonial, encontravam no homem mais velho, mesmo casado, o amparo financeiro ou social de que precisavam. Mesmo sendo “a segunda ou terceira esposa do senhor juiz”, o poder e o prestígio dele, a ajudavam a sobreviver. Ser amásia ou cunhã de um homem importante implicava em galgar degraus, ganhar status econômico que não existiria de outra maneira. É certo que se exigia dela ser conhecedora “do seu lugar”, com comportamentos adequados e comedidos, mas ainda, assim, a pipira gozava de respeito.

Gardner acredita que a causa principal destas relações estivesse na “moralidade baixa” dos moradores do sertão; mas estes eram ideais morais europeus. A escravidão e as relações sociais nos grupos patriarcais moldaram outra realidade. Formou-se assim uma ética que legitimava os sentimentos e a sexualidade vividos em famílias não oficiais.  

Apesar da variada vida social que vamos encontrar do Nordeste ao Sul, a fase em que o par devia estabelece os primeiros laços afetivos foi dada como inexistente no Brasil. Acreditava-se – o que não estava longe da verdade -, que familiares ou tutores conservavam em suas mãos as resoluções cruciais sobre a vida de qualquer jovem mulher. Sob esse regime, era difícil compreender, como declara um norte-americano, “como os cavalheiros adquirem suficiente intimidade com as moças para formar as bases do casamento”. Não havendo liberdade de eleição do futuro esposo também o namoro parecia dispensável. Uns percebiam esta lacuna como produto de restrições a que estavam sujeitas às mulheres em geral, e as solteiras, mais do que as casadas.

Há por outro lado evidências de um conjunto de práticas cujas raízes já se encontravam na sociedade portuguesa do século XVIII e que aponta para formas de namoro feito de jogos furtivos com lenços, leques e chapéus. Namoro calado, mas, cheio de sinais. Foi no uso desta linguagem amorosa que jovens pernambucanos foram comparados a hábeis “amantes turcos”, levando a viajante inglesa Maria Graham a observar: “frequentemente um namoro é mantido dessa maneira e termina em casamento sem que as partes tenham ouvido as respectivas vozes. Contudo, o hábito comum é combinarem os pais as bodas dos filhos sem levarem em conta senão a conveniência financeira”.

Mary del Priore

 casamentong

Casamento de negros de uma casa rica, de Debret.

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4 Comentários

  1. Gleisson disse:

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  2. kay jewelers disse:

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    Mary e otima e adorei esta curiosidade,ainda.nao havia lido

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