O casamento da princesa e o senso de humor dos brasileiros

Publicado em 21 de maio de 2017 por - artigos

          Nos dias que antecederam a cerimônia, os jantares se sucederam em São Cristóvão. Ministros e cortesãos eram apresentados aos dois príncipes.  A etiqueta era uma “bizarreria”, queixou-se Gastão. Houve visitas ao Arsenal e quartéis, com exibições de artilharia e fuzilaria. A partir do dia 12 de outubro de 1864, os jornais começaram a publicar o programa do dia 15: desfile de carruagens saindo de São Cristóvão, seguida do regimento de cavalaria. A partir da Cidade Nova, a guarda de arqueiros faria alas, às carruagens da família imperial. No Paço, um mestre-sala encaminharia os convidados aos seus respectivos lugares na Capela Imperial. Sobre uma almofada bordada, um fidalgo levaria as condecorações que o Imperador daria ao genro. Outro, os anéis nupciais e dois cartões com as palavras que os jovens teriam que repetir diante do arcebispo. E um terceiro, os autos do casamento. Ao fundo, a harmonia de uma das composições de Haendel. Isabel vestiria filó branco, véu de rendas de Bruxelas, grinalda de flores de laranjeiras e ramos das mesmas apanhando o vestido do lado esquerdo. Gastão, o uniforme de marechal, com a comenda da Ordem do Mérito Militar de Espanha, a comenda da Ordem da Casa de Saxe e a medalha da campanha do Marrocos.

        Depois da troca de alianças, ao som de harpas, os “guarda-tapeçarias” estenderiam no estrado do altar mor uma “rica colcha bordada a ouro” e os noivos ajoelhariam sobre almofadas para receber as bênçãos. A seguir, Gastão seria condecorado e receberia “um ósculo paternal” do Imperador, numa demonstração pública de que entrara na “imperial família”. Seguir-se-ia um “Te Deum Laudamus”. Na saída, uma salva de artilharia postada no largo do Paço e correspondida pelas fortalezas e embarcações colocadas em semicírculo na baia, anunciaria aos moradores da cidade que a cerimônia estava concluída. Desfile militar e recepção no Paço, encerrariam uma parte da festa. Ela “graciosa” e sorridente e ele, digno, segundo os jornais.

          Nos jornais, também, começaram a chover os pedidos vindos da “penitenciária desta corte”. Assinados pela “voz de um infeliz” ou pelas “vítimas do infortúnio”, “que gemem no cárcere”, muitos “chefes de numerosa família” pediam perdão por seus crimes: “Graça! Graça!”. Nas freguesias, moradores se organizavam para festejar o “feliz consórcio”. Sociedades ou clubes pediam aos associados que ornassem e iluminassem a frente de suas casas nos dias 15,16 e 17. Aos negociantes e droguistas, a Classe Caixeral pedia que fechassem as portas. Assim, o povo iria para as ruas aclamar os nubentes. Comissões as mais diversas – do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Imperial Sociedade de Beneficência, da Real Sociedade Portuguesa Amante da Monarquia, do Núcleo Literário Fluminense, Veteranos da Independência da Bahia, etc., – se organizavam para ir cumprimentar os noivos.  Publicavam-se as listas de convidados: quem ia e quem não ia. E não faltava quem usasse o Jornal do Comércio para cobrar: “Deixarão de ser convidados para o casamento imperial os Senhores Primeiros Cadetes?!!”.

         A tradição nas festas brasileiras eram as luminárias. De onde vinha? Do tempo em que o Brasil era colônia. Estavam assinaladas nas Cartas Régias, desde o século XVI. De início, eram panelinhas de barro com azeite de mamona. No século XIX, já se beneficiavam da iluminação à gás. No casamento dos jovens príncipes não podiam faltar e foram previstas em toda a parte: no Largo do Paço, na Rua Direita, na Praça da Constituição, no Campo da Aclamação. Na Rua dos Ourives, esquina da Rua da Assembléia, enfeitando a renomada Farmácia do Carmo, a iluminação seria elétrica. Magnífico! Junto com as luminárias, inúmeros coretos com músicos, arcos festivos e representações gratuitas no Teatro do Ginásio. Retratos dos noivos eram vendidos nas livrarias. Na fábrica de gás, fundada pelo barão de Mauá, um coreto para quinhentas pessoas foi montado. Candelabros de “vidros prismáticos” encantavam o ambiente.

        O ponto alto da festa popular seria a ascensão do aeronauta Wells, num balão com 80 pés de altura que levava pintadas as armas brasileiras e em grandes dísticos os nomes da Princesa Isabel e do Conde d´Eu. No momento em que o préstito passasse e ao som do hino nacional, o balão se elevaria aos céus. Girândolas de foguetes encheriam os ares.

       Mas os jornais do dia seguinte mostraram os fiascos do evento. O aeronauta não conseguiu encher o balão, que fez um voo de galinha. E as luminárias, que horror! Não se acenderam! Velas atearam fogo às toilettes femininas. A renomada “Casa das Bichas Monstro”, ou seja, de fogos, protestava “energicamente contra a suposição” de que a iluminação pública era de sua autoria. Anúncios, alguns com títulos irônicos, como “Iluminação vesgueira”, foram publicados. Falava-se em “brilhante escuridão” e em “lanternas de papel pintado, próprias para as folias de São Eldorado”. Choveram cartas sobre a má decoração dos arcos:

“Os artistas nacionais educados em nossas escolas pedem humilde e encarecidamente a SS.AA. os Srs. Conde d´Eu e Duque de Saxe a graça de não formarem juízo a respeito do talento de que dispõem os artistas brasileiros, pelas “obras de arte” que se apresentaram solenizando o consórcio da Sra. D. Isabel. Filhos de uma academia regular e seguindo a escola clássica e acadêmica protestamos em nome da inteligência e do progresso nacional contra as acéfalas concepções e tão vergonhosas provas de inépcia e ignorância”. Assinavam “muitos artistas nacionais”!

          Multiplicavam-se as piadas. A decoração da Praça da Constituição, por exemplo, foi definida no Jornal do Comércio, como “um aleijão disforme e disparatado”, um “insulto e escárnio ao gosto nacional”, “uma injúria atirada na cara dos nossos homens competentes”! Palavras como “miserável, mumificada, vergonhosa, miséria artística, inépcia e ignorância” explicavam o desastre decorativo. Onde “a proporção de anjos e o colorido das carnes”? E o que dizer da expressão das fisionomias torpes e estúpidas, abortos asquerosos”, etc. Mas ao “pequeno Brasil” não faltou uma gafe. Na data em que dois príncipes europeus lançavam raízes no país, de quem era a culpa do desastre da decoração? De dois estrangeiros: um francês e um italiano.

         “Per Dio, che calamitá! Charlatani. Porcherie”! Os jornais fustigavam a situação por meio de anúncios pagos: “Odinet, pintor morador na Rua Sete de Setembro, declara, para não haver engano, que as pinturas decorativas do Largo do paço foram feitas pelo Sr. Emílio Mola pintor da Rua do Ouvidor, n.148”. Na verdade, os “culpados” eram o engenheiro francês Auguste Andreosy e o pintor Giacomo Micheli.

  • Texto de Mary del Priore. “O Castelo de Papel”

Os noivos. Museu Imperial (reprodução).

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