O Brasil no período Joanino

Publicado em 16 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

De acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire, Tollenare, Debret, Rugendas, Koster, Luccock, Maria Graham) a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro e de alguns centros onde a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís ou Ouro Preto, a maior parte das vilas e cidades não passavam de pequenos burgos isolados como casario baixo e discreto como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.  Mesmo na chamada Corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma do que de fundo. A requintada presença da missão francesa deixaria marcas na pintura, ornamentação e arquitetura. Mas as notícias do jornal Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822) e Idade de ouro do Brasil ((1811-1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do Real Teatro de São João, onde se exibiam companhias estrangeiras e onde soltavam seus trinados artistas como a graciosa Baratinha ou as madames Sabini e Toussaint, não eram suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo e dos saraus familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.

Contra esse pano de fundo encontraremos mulheres de elite urbana, casadas com comerciantes de grosso-trato cujos salões foram descritos por Maria Graham, em sua segunda viagem ao Brasil, em 1823, como decorados com gosto francês o que incluía papéis de parede e molduras douradas, além de móveis de origem inglesa e francesa. As filhas da boa filha da elite local, assim como as aristocratas ibéricas, já falavam bem francês e faziam progressos em inglês. Mas eram pouquíssimas, queixava-se em 1813, John Luccock, afirmando que, bem pelo contrário, o pouco contato com a maioria das mulheres costumava desnudar sua falta de educação e instrução. Saber ler, – comentava, amargo – só o livro de reza, uma vez que pais e maridos temiam o mau uso da escrita para comunicar-se com amantes. Debret, por seu turno, confirmava o despreparo intelectual das mulheres de elite. Até 1815, e malgrado passagem família real, a educação se restringia a recitar preces de cor e calcular de memória, sem saber escrever nem fazer as operações. A “ignorância”, segundo ele, era incentivada por pais e maridos receosos da temida correspondência amorosa. Apesar dos cuidados com esposas e namoradas, não era exatamente o seu pudor que impressionava os estrangeiros. Um visitante inglês tinha sobre a moral das brasileiras um juízo bem diferente daquele que se podia esperar de mulheres que teoricamente viviam escondidas dos homens: “tanto as casadas quanto as solteiras era a mesma coisa, ou seja, imorais e ligeiras”.

Preconceitos à parte, em 1816, encontramos no Rio de Janeiro apenas dois colégios particulares para moças. Um pouco mais tarde, senhoras francesas e portuguesas comprometiam-se a receber em suas casas, a titulo de pensionistas, moças desejosas de familiarizar-se com a língua nacional, aritmética, religião, bem como bordados e costuras. Entre as jovens de elite, o costume era de aprender, graças à visita de professores particulares, piano, inglês e francês, canto e tudo o mais que permitisse “brilhar” nas reuniões sociais. É no Rio de Janeiro que vamos encontrar os “primeiros salões frequentados por damas”. Elas aí se entretinham em serões e partidas noturnas de jogos (o whist), simples entretenimentos ou bailes e recepções. Alguns dos concertos em torno dos quais se reuniam eram animados pelo famoso músico mineiro, padre José Maurício. As danças se aperfeiçoavam com mestres entendidos, responsáveis pela capacidade das alunas em exibir passos e passes, além de coreografias estudadas. Além do professor de dança, um outro modismo da época eram os cabeleireiros, franceses de preferência, e responsáveis por penteados ousados e cabeleiras ou perucas mantidas no lugar graças ao uso de serragem ou pó de ossos. É interessante observar que nesse ambiente, as crianças eram comumente levadas aos bailes com seus pais, engrossando um espaço de sociabilidade no qual, criadas antigas e escravas conversavam com convidadas conhecidas. O viajante Lindley observou entre horrorizado e divertido, as mulheres de elite executando “danças de negros”: os sensuais e malemolentes  lundus e fandangos.

As mulheres de elite eram “aparentemente” muito bem vigiadas, explicam os viajantes. Namoros se faziam na igreja, entre beliscões e pisadelas, ou às janelas, sob as quais os aspirantes a namorado colocavam-se rentes – era o chamado “namoro de espeque” -, murmurando palavras de amor pelas rótulas. Observador, o viajante Carl Seidler dizia que “a igreja é o teatro habitual de todas as aventuras amorosas na fase inicial…só aí é possível ver as damas, sem embaraços, aproximar-se discretamente e até cochichar algumas palavras. A religião encobre tudo; enquanto se faz devotamente o sinal da cruz pronuncia-se com igual fervor uma declaração de amor”. Escravas encarregavam-se de levar e trazer  recados dos amantes depois da missa. – Mary del Priore

rjtaunay

Vista do Rio de Janeiro, de Nicolas-Antoine Taunay.

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