O book rosa e a glamourização da prostituição

Publicado em 5 de julho de 2015 por - temas atuais

Uma nova novela de TV está causando alvoroço, principalmente no mundo da moda, por retratar a chamada “prostituição de luxo”. Na história, uma bela jovem, que sonha ser modelo, é atraída por uma aliciadora e se torna uma garota de programa – ou melhor, uma das meninas do “book ou ficha rosa”, destinado a modelos que prestam tais serviços. O enredo não tem nada original, é verdade. As prostitutas sempre estiveram presentes na ficção. Desejadas e desprezadas, ao mesmo tempo, atualmente, têm sido retratadas de forma um tanto glamourosa, como mulheres sexualmente livres e que ganham muito dinheiro. Sabemos que a realidade da maioria das pessoas que trabalha no mercado do sexo não é tão maravilhosa assim: falta de segurança, violência, preconceito, exploração…

As novelas bebem na fonte do Romantismo, em que a heroína é sempre a mulher idealizada, que se manifesta na figura da prostituta sofrida, de “bom coração”, amargurada e que tenta ser “salva” por um grande amor. Em “Lucíola”, José de Alencar narra a história trágica de Lúcia (ou Maria da Glória), que desperta o amor de Paulo, mas que tem um final infeliz. Ela paga um alto preços pelos seus pecados. Quando o rapaz a vê, pela primeira vez, fica encantado pela sua beleza e pergunta a um amigo quem seria aquela senhora. Maliciosamente, o outro explica que não se tratava de uma senhora, mas de uma mulher bonita.

O machismo e a hipocrisia da sociedade são bem descritos na obra de Alencar. Mary del Priore, em “Histórias Íntimas”, destaca que a prostituição se tornou um elemento importante para manter a família e o casamento, no passado. “Neste quadro, onde se misturavam casamentos por interesse e concubinatos com ou mucamas, a prostituta tornou-se necessária. O adultério masculino era, nesta lógica, necessário ao bom funcionamento do sistema. As mulheres ocupavam-se da casa e iam à igreja; os homens, bebiam, fumavam charutos e se divertiam com as prostitutas”.

Nos tempos da Colônia, as índias, negras e mestiças eram as “mulheres públicas”, desqualificadas por sua condição feminina, racial e servil no imaginário da época. Elas estavam abaixo, na escala social, das “solteiras do Reino”, nome que se dava às meretrizes portuguesas, pois aquelas mulheres, além de “putas”, eram “de cor”. Com o aburguesamento e a urbanização da sociedade brasileira, as estrangeiras começaram a ser atraídas para concorrer com as meretrizes locais. A prostituição, antes praticada nos núcleos patriarcais – e alimentada pela escravidão – começou a se profissionalizar.

As francesas se tornaram sinônimo de luxo e beleza – eram as jovens de maior valor no mundo da prostituição, sendo reservadas aos mais abastados. Segundo Mary del Priore, “ser francesa” não significava necessariamente ter nascido na França, mas frequentar espaços e clientes ricos. Ser polaca, em contrapartida, significava ser pobre, um produto de exportação do tráfico internacional do sexo que abastecia os prostíbulos das capitais importantes. Havia ainda as mulheres de casebres ou mucambos, as chamadas “casas de passe” e os zungus, que viviam na mais absoluta miséria.

O modelo de sociedade baseado no casamento casto, na pureza e ignorância sexual feminina, e na infidelidade masculina – e na prostituição – permaneceu, com algumas alterações, até a revolução sexual.  Nos anos 60 e 70, os costumes passaram por grandes mudanças sociais, comportamentais, sexuais, culturais e familiares. A pílula anticoncepcional e a conquista do mercado de trabalho abriram caminho para a sonhada liberdade sexual feminina.

A prostituição continuava a prosperar. “Nos finais dos anos 70, todo o mês de julho, a vida noturna das grandes cidades animava-se. Em época de férias, com mulher e filhos distantes para descansar melhor, exauriam-se os maridos com as cigarras, como eram chamadas. Sua presença em boates, night clubs e casas noturnas azeitava o faturamento da indústria da prostituição, um negócio com muitos interesses. No meio do ano, eles batiam recordes. Não só o preço das prostitutas subia, mas, acrescia a venda de bebidas alcoólicas e drogas, a frequência de hotéis e motéis e até porteiros de boates eram beneficiados.  Em 1973, apenas em São Paulo, a polícia calculava haver 10.000 prostitutas, sendo 4.000 cadastradas”, conta a historiadora.

A chegada da Aids abalou temporariamente o mercado do sexo e aumentou o preconceito contra as prostitutas. Com o fortalecimento do debate em torno da violência contra a mulher nos anos 80, elas também começaram a ser lembradas, felizmente. ”Vítimas de cafténs, policiais e clientes, mas, também da doença, elas começaram a se organizar. Surgiram movimentos sociais para protegê-las. E a preocupações morais e sanitárias evoluíram para questões como cidadania e direitos”, completa Mary. Em 1987, era realizado o I Encontro Nacional de Prostitutas, no Rio de Janeiro. Hoje, conhecemos muitas entidades que lutam para a regulamentação da profissão e a defesa de seus direitos.

Com a internet, o mercado do sexo se ampliou e diversificou. Personagens conectadas como Bruna Surfistinha passam a dominar a mídia. Com isso, surgiu um novo discurso que tem se popularizado bastante: garotas de programa aparecem nos meios de comunicação e falam sobre as vantagens da profissão, destacando que o trabalho é uma questão de escolha. Universitárias e meninas de classe média passaram a reivindicar um status diferenciado das meretrizes comuns. A prostituição seria, nessa visão, uma ocupação como outra qualquer, mais rentável, e até um ato de rebeldia contra o “sistema”.

Outro dia, li uma reportagem muito interessante com uma profissional da área que se diz feminista.  Nos comentários dos leitores, um grande debate se formou em torno da polêmica: prostituição combina com feminismo? A mulher que trabalha com sexo é mais livre que as outras? Ou é a mais submissa de todas por se tornar objeto dos desejos alheios? A prostituição não seria uma forma de perpetuar o machismo?

Na minha opinião, apesar dos discursos moderninhos e do marketing, não houve grandes mudanças no papel da prostituição como forma de manter as aparências nessa sociedade hipócrita. E você, concorda?

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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Henri de Toulouse-Lautrec retratou as prostitutas de Paris. 

 

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2 Comentários

  1. Evandro Oliveira disse:

    A prostituição é sem dúvida uma profissão de um alto grau de insalubridade. As profissionais do sexo precisam ter mais direitos e já tramitam no Congresso projetos que visam à melhoria das condições trabalhistas delas. Isso é bom e necessário.

    Ah, acho que você se preocupa demais com “machismo”. Já vi em alguns textos você começar com uma análise boa, mas no final engessar com a palavra “machismo”.

    • marcia disse:

      Oi, Evandro. Concordo com você, a rotina desses profissionais é difícil e bastante distante do que se apresenta na ficção. E, sim, me preocupo muito com o machismo, você tem razão. Na minha visão, somos herdeiros da sociedade patriarcal que foi implantada nos tempos de Colônia. A desvalorização da mulher era uma característica marcante daquela sociedade e, infelizmente, é um traço que permanece entre nós até os dias de hoje. Acredito que a violência doméstica, o estupro, o abuso sexual, psicológico e físico, a divulgação de imagens íntimas na internet e o assassinato “em defesa da honra” estão intimamente ligados a essa cultura de desqualificação das mulheres. Por isso, costumo insistir que precisamos mudar nossa mentalidade se quisermos diminuir esses índices assustadores que existem hoje. É nesse sentido que costumo usar o termo machismo, e não creio que isso “engesse” a discussão, pelo contrário, a intenção é exatamente nos fazer questionar até que ponto estamos (homens e mulheres) contribuindo – ainda que inconscientemente – com velhas práticas.

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