O Baile da Ilha Fiscal: glamour e conspiração

Publicado em 9 de novembro de 2016 por - artigos

      No dia 9 de novembro, a ilha Fiscal foi transformada em ilha de fadas, uma verdadeira maravilha, um paraíso perdido em pleno oceano. “Ao baile! Ao baile!” Era a senha da cidade. Os convidados embarcavam no cais Pharoux, brilhantemente iluminado e ornamentado, onde tocava a banda de música do corpo militar de polícia. Sob uma chuva miúda, a primeira barca largaria às vinte horas e faria a travessia até levar todos os portadores de convite. De meia-noite em diante, a barca começaria a viagem de regresso, de meia em meia hora. O encouraçado chileno Lord Cochrane, fincou âncora em frente à ilha. Os navios de guerra brasileiros, saídos do porto, foram lhe fazer guarda de honra. Funcionaram em todos eles poderosos projetores de luz elétrica, para transformar aquele pedaço da baía num verdadeiro lago de prata. Desde o cais até a ilha estendia-se uma linha de batelões iluminados em arco com lanternas venezianas e copos de cores. O desembarque era feito numa ponte levadiça, guardada por doze marinheiros armados. Na entrada, sobre dois postes, quatro lâmpadas de “força iluminativa” de oitocentas velas, rompiam o breu, enquanto “demoiselles”, vestidas de fadas e sereias, encaminhavam os convidados para seus lugares. Havia outros quatro focos de luz, no saguão, onde foram armados dois quadros transparentes, um dos quais a alegoria O Brasil recebendo o Chile. A linha de frente da ilha estava ocupada por um enorme pavilhão. Assentado em vinte e quatro colunas laterais, ele era iluminado por noventa e seis lâmpadas com a força de mil novecentas e vinte velas. À esquerda, levantara-se outro pavilhão, com duas salas onde se encontrava o buffet. Na primeira, e em todo o comprimento, estendiam-se duas mesas em forma de ferradura, sobre tapetes verdes. Entre as espaçosas janelas, pendiam panos com as cores chilena e nacional. Em cada uma das colunas um escudo, um brasileiro e outro chileno, com nome do Presidente da República, das províncias e dos mais ilustres nomes da marinha.

            A sala destinada à família imperial era isolada por amplas cortinas que a separavam inteiramente das outras. Nela brilhavam cinqüenta lâmpadas além de 40 candelabros. Ali, todos os convidados ficavam sentados. À direita e à esquerda estavam os salões de danças, três de cada lado. Quanto aos toilettes, o das damas ficava à esquerda e da família imperial, à direita. O masculino, tudo indica, era o mar. Duas orquestras tocavam nos terraços laterais e uma na sala do bufett. A decoração das salas era a mesma: festões de flores ocultavam lâmpadas; o espaço entre as janelas, era preenchido por espelhos em fundo veludo grená; o tapete, de um vermelho rubro fora escolhido para quebrar o efeito de palidez da luz elétrica sobre as roupas. Coroas de flores, sobre os espelhos, sustentavam âncoras de ouro e prata. Folhagens davam o toque tropical. O milagre da noite foi que todas, mas, todas as dependências, sem exceção, foram iluminadas por luz elétrica.

A festa não foi só para os convidados. Desde às dezoito horas, a população da Corte, sedenta do espetáculo, se apinhara entre o cais Pharoux, o cais dos Mineiros e a praia de D. Manuel. Todos queriam acompanhar o vai-e-vem das lanchas e barcos que levavam curiosos para ver de perto a decoração. As barcas ferry estavam apinhadas de passageiros que pagavam contínuas passagens para assistir ao esplendor da iluminação. Não havia uma casa perto do local do baile que estivesse desocupada. Hotéis, residências, árvores do Paço, chafariz, escadas que davam para o mar, tudo tinha sido invadido por famílias; os encouraçados divertiam o público com a projeção da luz dos seus holofotes movediços: verdadeiros relâmpagos no céu da cidade. A água trazia o som das orquestras, mas, também a de dezenas de embarcações de todo o gênero, decoradas e iluminadas, algumas delas tendo à bordo excelentes bandas que executavam lânguidas habaneras

Às 21 horas, chegaram Suas Majestades e Altezas Imperiais ao cais Pharoux, onde eram esperados  por uma comissão. No mesmo instante, troaram os canhões das fortalezas e o céu da baía se cobriu de foguetes. Recebidos na ilha por uma multidão de convidados, – eram cerca de quatro mil e quinhentos – Suas Majestades e Altezas foram saudadas calorosamente. Uma verdadeira ovação. Pouco depois começou o baile. E contava o jornalista: “O que ele foi, é difícil de dizer. A riqueza oriental das toilettes, o brilho e o ruge-ruge das sedas que mal cobriam as espáduas marmóreas das senhoras, o veludo, a pelúcia de seda que guardavam como as portas de um sacrário os colos alvos e palpitantes das brasileiras, salpicados de brilhantes, de safiras, de esmeraldas; os diademas rutilantes nos penteados artísticos das moças; o burburinho argentino do contentamento aflorando de lábios coralinos das avezinhas implumes que contam apenas 15 ou 18 primaveras; a galanteria fidalga dos cavalheiros, uns trazendo suas vistosas grã-cruzes, outros ostentando na lapela os miosótis, as violetas, as raríssimas camélias; o dourado sedutor das fardas, cobrindo peitos patrióticos – como descrever tudo isto?”.

Muitos dos cavalheiros, contrariando as regras do bom tom, preferiam exibir seus recém-adquiridos chapéus da marca Wellicamp ou Place Royal, na própria cabeça e os bigodes cobertos de brilhantina da marca Fritz Markard and Co. O que era considerado o cúmulo do mau-gosto! Isto sem contar os membros da Guarda Imperial que insistiam em dançar com seus chapéus de penacho e espada à cinta. “Rodopiavam, giravam, acotovelando a multidão, amarrotando com as espadas os vestidos das senhoras, arranhando as casacas dos senhores com as dragonas…mais parecia uma batalha naval”! comentava, chocado, um observador. O provincianismo também compareceu ao baile. 

As danças estiveram sempre animadíssimas e é impossível nomear os convidados que nelas tomaram parte, pois que no baile concorreram os mais elevados representantes de todas as classes sociais e as mais distintas senhoras do Rio de Janeiro. A danças continuaram depois da ceia, prolongando-se até o amanhecer”. Nos cartões, as damas marcavam o nome dos cavalheiros com quem tinham compromisso para uma valsa, uma polca ou um minueto. Ouvia-se o tempo todo Verdi e Baccherini. Pedro Augusto se exibiu e dançou. O que o jornalista não contou é que foram recolhidas dezenas de ligas e espartilhos, encontrados pelo chão ou nos toilettes, ao fim da festa. As palpitantes brasileiras e avezinhas implumes não eram tão pudicas quanto se podia imaginar.

Os jornais não pouparam o ministério Ouro Preto, que patrocinara o baile ou a família imperial. Gastara-se uma fortuna enquanto a seca do Nordeste matava de fome. Foram doze mil garrafas de vinho e duzentas caixas de champanhe, mais presuntos, macucos, pavões, perus, camarões, cabritos, galantinas, aspargos, pudins, fios de ovos e sorvetes. Tudo operado por quarenta e oito cozinheiros, sessenta trinchadores e cento e cinqüenta garçons.

As Parcas, musas do destino, enviaram, neste dia, dois sinais à cúpula do império. Ao pisar na ilha, D. Pedro, fardado de almirante, uniforme que raramente usava, tropeçou. E ele mesmo disse: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”. E a seguir, quando Ouro Preto, empunhando a taça saudou em brilhante discurso a Nação amiga, se ergueram estrepitosos vivas, soaram os hinos e troou a artilharia, o oficial general da Armada, vice-almirante Wandenkolk, freqüentador da casa do príncipe, postado a pouca distância, em tom zombeteiro ouvido pelos circunstantes disse: ‘rira bien qui rira le dernier’” – ri melhor quem ri por último. Durante o tempo da festa, o imperador se mostrou aborrecido, desejoso de se livrar logo daquela maçada. Conversou com os amigos de sempre, Taunay entre eles.

Depois da retirada da família imperial, entre os restos do banquete e a música ensurdecedora, começaram a correr os boatos de que o Clube Militar estava reunido para deliberar sobre a prisão do ministério. Enquanto os Bragança e seus ministros dançavam, os militares destilavam ressentimentos. O assunto deixava de ser segredo para muitos. Ao longo da noite, o boato se avolumou, sem, entretanto, perturbar o baile. Começava, nesta noite, lenta e insidiosa, a contagem regressiva.

No dia seguinte, o Imperador e o príncipe levaram os chilenos a novas visitas. O itinerário começava no Hospital São Sebastião e terminava no laboratório pirotécnico de Campinho, onde se fabricava pólvora e espoletas. Tudo acabou com um lunch às 5 horas. Enquanto isto, no campo de Santana, reuniam-se com Deodoro, as maiores figuras da conspiração: Quintino Bocayuva, Aristides Lobo, Rui Barbosa, Francisco Wandenkolk. Benjamim Constant insistia que o momento era agora. Agora ou nunca. Havia concordância entre os presentes.

(Em poucos dias, seria proclamada a República).

  • Mary del Priore, “O Príncipe Maldito”, Editora Objetiva, 2006.

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“Baile da Ilha Fiscal”, de João Figueiredo.

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