O amor como doença

Publicado em 21 de dezembro de 2013 por - História

O sentimento amoroso teve um poderoso inimigo nesta época de opressão: a Igreja. Mas ela não está sozinha na luta para impor a moral cristã. O amor passa a ser perseguido, também, por uma antiga ciência: a medicina. Pois a medicina começa a oferecer uma porção de argumentos físicos contra o amor. Ela não o considera um pecado, como faz a Igreja, mas uma doença. O amor excessivo é ruim para a saúde. A “luxúria”, considerada um desarranjo fisiológico e, como expressão direta deste amor, tinha que ser medicalizada.Tudo começa com a crença, corrente na Idade Moderna, de que o comportamento dos indivíduos é determinado pela qualidade e quantidade do calor de seu corpo. Tal calor não provém do fígado ou do cérebro, mas, do coração. Subjetividade e coração – o órgão – são uma coisa só. Desta perspectiva, os indivíduos derivam sua identidade das paixões do seu coração. Um coração em mau estado, não podia dar em boa coisa.

Acreditava-se que o desequilíbrio ou a corrupção dos humores, graças à secreção da bile negra, explicasse uma desatinada erotização. Dela provinham os piores crimes, os mais violentos envolvimentos afetivos e os mais desumanos dos atos. Apesar da educação, da fé religiosa, do medo de castigos, a razão não conseguia, muitas vezes, controlar o calor vindo do coração. E as pessoas, carentes da necessária racionalidade, sofriam por não colocar as decisões do tal coração dentro de limites adequados. Todos os excessos, portanto, deviam ser evitados, contornados, amestrados. Sem o controle de suas paixões, homens e mulheres estariam perdidos. É, pois, o sentimento fora de controle, resultando em erotismo desenfreado, que consolida a idéia do amor como enfermidade.

Aos finais do Renascimento longos tratados médicos são escritos sobre o sentimento: O antídoto do amor, de 1599 ou A genealogia do amor, de 1609, são bons exemplos deste tipo de literatura. Seus autores tanto se interessam pelas definições filosóficas do amor, quanto pelas técnicas, diagnósticos e tratamentos envolvidos na sua cura. Todos também recorrem a observações misturadas a alusões literárias, históricas e científicas para concluir que o amor erótico, amor-hereos ou melancolia erótica, era o resultado dos humores queimados pela paixão. E mais… que todos os sintomas observados nos amantes e cantados em prosa e verso, poderiam ser explicados em termos de patologia.

O famoso livro de Robert Burton, Anatomia da melancolia, publicado em 1639, diz exatamente isto, e não faltava quem afirmasse que o amor podia invadir o corpo como um feitiço ou encantamento – o quê, cá para nós, não deixa de ser verdade! Tal crença é interpretada pelos médicos, como uma  estranha infecção do sangue. Mas uma infecção  causada pela transferência dos “espíritos do objeto contemplado, através do olho do contemplador”. Em outras palavras, a fascinação, na forma de um vapor indesejável, penetrava, através dos olhos, e  envenenava todo o corpo. Lembra-se, leitor, da importância dos olhos, como “a janela da alma”? Não faltava quem quisesse demonstrar que o corpo era lugar de uma série de eventos patológicos, cujos elementos explicariam a doentia transição do desejo à doença.

Entre as causas do amor erótico estariam as externas como o ar e os alimentos. E entre as internas, o repouso, a vigília e o sono. Na tradição de ensaios morais tão correntes em Portugal, João de Barros, em 1540,  dizia que o sentimento apaixonado “abreviava a vida do homem”. Incapazes de conter nutrientes, os membros se enfraqueciam, minguando ou secando. Muitos males decorreriam daí, entre eles a ciática, as dores de cabeça, os problemas de estômago ou dos olhos. A relação sexual, por sua vez, emburreceria, além de abreviar a vida. E ele concluía: só os “castos vivem muito”.

Descrita como um instrumento de envenenamento do corpo social, a luxúria ou “amor demasiado”, como era, por vezes, chamada, além de ser vista como uma doença se constituiu num recurso para a valorização do casamento. Ela opunha o adultério ou a relação ilícita ao sagrado matrimônio; o prazer físico ao dever ou débito conjugal. Os lascivos eram punidos, segundo a tradição literária inspirada em Dante, ardendo atrás de um muro de fogo.

No século do Iluminismo, segue em Portugal a ideia do amor doença. O doutor Bernardo Pereira afirmava que o pensamento cristão era a única arma contra “o feitiço voluptuoso da lascívia”. Para que não se deixar enfeitiçar pelo amor, o remédio eram orações, penitências e a lembrança do inferno. Médicos falavam como padres pregadores: A paixão, segundo um deles, Bento Morganti, “exalta a imaginação, encanta e fascina os sentidos. A imaginação pervertida orna de falsas cores os atrativos do mal, faz nascer ilusões enganadoras e impele os sentidos para o gozo e voluptuosidade desordenadas. É preciso aprender a governar esta “louca da casa”. A imaginação é o maior excitante das paixões, através dela se corrompe a vontade. Além dos sentidos abertos para os riscos do mundo é dela que vem as tentações interiores, muito mais insidiosas e perigosas de se domar”. Essa imaginação, como “louca da casa”, – como a chamava Santa Teresa d’Ávila -é a grande inimiga do entendimento e do controle. E conclui taxativo: “O homem prudente e de um espírito bem concertado não deve admitir outra paixão se não aquela de não ter nenhuma”.

A aliança do conservadorismo contra-reformista com a medicina das cortes ibéricas produziu um moralismo católico que tornava o sexo, fonte de torpeza. E seu maior risco era o já mencionado descontrole da imaginação. E como combater tal problema? Os remédios poderiam ser dietéticos, cirúrgicos ou farmacêuticos. Ao “regime de viver”, que se esperava, fosse tranqüilo, se somavam sangrias nas veias de braços e pernas. E, ainda, remédios frios e úmidos como águas de alface, grãos de cânfora, e cicuta, que deviam ser regularmente ingeridos. Contra o calor das paixões, se tomavam sopas e infusões frias, recomendando-se, também, massagear os rins, pênis e períneo com um “ungüento refrigerador feito de ervas, pedra bezoar ou de alface”. Comer muito, era sinal de perigo. Os chamados “manjares suculentos” eram coisa a evitar. “Dormir, só de lado, nunca de costas, porque a concentração de calor na região lombar desenvolve excitabilidade aos órgãos sexuais”.

A patologia do amor se refinará no século XIX quando uma longa série de doenças lhe é atribuída. “Há poucos médicos – explicava o doutor Mello Moraes –que não tenham tido a ocasião de patentear um amor oculto que roa o coração de um de seus doentes”. E após louvar o “amor feliz” do matrimônio que não é movido pelo desejo carnal, passa a relacionar o conjunto de males provocado pelo sexo, relatando o que chama de “febre ardente dos esfalfados”: “uma doença que sobrevém de repente aqueles que cometem excessos venéreos; a pele fica seca e ardente, o pulso, umas vezes cheia outros pequeno, urinas vermelhas, há congestão e palidez na face, náusea, vômito e delírio. Esta doença pode causar morte rápida”.

Entre a juventude, ela ceifava vidas sem dó, nem piedade. E pior. O amor provoca a nostalgia ou saudade que é outra doença. Mas a maior enfermidade é a erotomania ou loucura amorosa. Tal doença, de natureza inflamatória, possuía sinais bem evidentes manifestando-se por furores que, como o estro animal, acumulam muitos sucos nos mais jovens e nos celibatários. Afinal, estes são tempos em que se luta para casar as gentes.

Efeitos tão devastadores nasciam do que consideraríamos hoje, causas prosaicas: “amizades frequentes com conversações ternas, a vivenda na mesma casa, a sociedade nos mesmos exercícios, a ociosidade, as comidas especializadas em pimenta, canela e gengibre, a bebida do vinho e mais licores inebriantes, a lição de livros amatórios, a vista de painéis lascivos e outras curiosidades perigosas como as óperas, comédias e etc…”. Pois são elas que, perigosamente, podiam trazer o perigo do contagio amoroso.

Definidas por um médico brasileiro como uma necessidade desregrada que acabava por tiranizar o doente, as paixões d’alma ainda eram responsáveis pela aparição de hemorróidas. Não as simples, mas, as mais “violentas, anômalas e irregulares”. Os apaixonados passavam a se encolerizar ou entristecer mais facilmente e até mesmo a tísica, como era chamada a tuberculose, “esse mal terrível”,  resultava de ciúmes concentrados. Os tumores, de amor desregrado ou desgosto prolongado. E daí por diante. A medicina, passa, nesta época, a se tornar cada vez mais, uma instituição de policiamento de costumes e de repressão moral.

Alguns remédios menos complicados eram sugeridos por padres. Para Ângelo Sequeira, por exemplo, os estímulos da carne podiam ser facilmente reprimidos quando se repetisse por várias vezes a seguinte invocação: “Ó morte! Ó juízo! Ó inferno! Ó paraíso!”. Fácil, portanto. O importante a reter é que o discurso contra a luxúria permitia manifestar toda a hostilidade em relação aos solteiros ou aos descasados, além de alimentar o pudor no interior do casamento. Ao criticar as condutas consideradas desonestas e habituais entre os solteiros, a instituição acabava por valorizar as condutas honestas, exigidas aos cônjuges. Mãe da anarquia e da desordem, a luxúria invertia as regras estabelecidas pela Igreja e pela Ciência para o uso do corpo e dos sentimentos. Para a maior parte dos médicos, ela não se contentava em perturbar o espírito e condenar o corpo a uma doença incurável; ela interfere numa concepção de universo sócio-religioso, obrigando a elaboração de um discurso radical, no qual a peste, a insanidade e a morte se tornam sinônimos, sobretudo para quem vive alheio às prescrições do casamento. O casamento seria, sim, a última instância e santo remédio para evitar a devassidão, leia-se, a paixão.

No abrigo deste sacramento, as mulheres não sofreriam com o acúmulo de “sucos e líquidos prolíficos”. Os calores e apetites regulados pelo débito conjugal e pela procriação as livrariam “da pestilência do amor lascivo”. As santas e honestas viam-se livres das torturas morais e espirituais provocadas pela luxúria, assim como seus devotados companheiros.

Nasce, neste período, uma nova ética a bordo de uma nova sensibilidade, enquanto a sociedade ocidental reabsorve os excessos de sua sexualidade num discurso interminável, que parece enterrar as práticas e os sentimentos amorosos sob uma montanha de comentários religiosos, jurídicos e médicos. As conexões estreitas entre as estruturas sociais e aquelas sexuais e emocionais mostram que os comportamentos amorosos não podem estar dissociados de uma estrutura global, montada sobre uma rede de tabus, interditos e autoconstrangimentos sem comparação com o que se vivera na Idade Média. Levado de roldão nesta vaga de normas, o amor lutava para manter-se com a cabeça fora d’água.

É também em Portugal que a Contrarreforma católica mais age no sentido de reprimir o erotismo. Essa ação normalizadora dos costumes da Contrarreforma, que incluí a Inquisição, se apóia sobre iniciativas conservadoras dos portugueses cujos costumes austeros eram notados pelos cronistas estrangeiros entre os séculos XVI e XVII. Alguns historiadores atribuem à religião, uma das razões para as atitudes, sensibilidades e comportamentos: “Durante os dois séculos que correram entre o tempo do rei D. João III e de Pombal, Portugal era, provavelmente, o país mais dominado pelo clero em toda a cristandade e só foi ultrapassado nas demais regiões, a esse respeito, pelo Tibet”, esclarece o historiador Charles Boxer.

A questão do amor foi tratada em Portugal de forma muito diferente da França ou da Itália. A maior parte dos livros então publicados em português ignora ou condena o amor. Há um aumento do tom das censuras morais após o concílio de Trento, mas as teorias medicalizadoras da luxúria como doença moral já estão em vários textos médicos do começo do século XVI. Na França, a diferença do ambiente cultural pode ser medida pela natureza das publicações exaltadoras da sexualidade e de uma erótica praticamente inexistente em Portugal. A corrupção dos costumes foi o tema chave, a viga mestra do discurso moralizante na época moderna e teve no discurso científico um novo arsenal argumentativo.

A eficácia destes modelos em Portugal, e por conseguinte, na sua Colônia, deve-se à situação das letras e da cultura, durante o século XVIII. O atraso do sistema português de ensino, das primeiras letras à universidade, era uma evidência para todos aqueles que saíam do país. Na faculdade de Medicina, para ficar num exemplo, a observação dos cadáveres nas aulas de anatomia era proibido e todo o aprendizado era feito sobre dois carneiros que se abriam, anualmente. Na segunda metade do século, se ensaiam algumas modificações, sem muito sucesso. Elas esbarram na censura, em professores que ainda não tinham se afastado dos dogmas da Igreja, em preconceitos raciais. Apesar da difusão de toda a literatura estrangeira “iluminista”, a estrutura mental lusa não apagava a religião. Mesmo os mais avançados amantes do espírito racional não se libertavam do ambiente profundamente religioso do período. Há poucos ataques à Igreja ou a seus membros. Isto significa que a aliança entre medicina e Igreja, na tentativa de manter o amor como algo perigoso e inconveniente, tende a prevalecer. As observações puramente empíricas e práticas que se faziam, até na Academia de Ciências, colaboravam para que sua condição de doença se auto-alimentasse.

– Mary del Priore

cirurgia século XIX

A medicina no combate aos excessos do amor. (Imagem de uma cirurgia realizada na Pensilvânia no século XIX).

 

 

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