O Almirante Negro

Publicado em 23 de novembro de 2013 por - História do Brasil

                    “Há muito tempo nas águas da Guanabara / o dragão do mar reapareceu? Na figura de um bravo marinheiro/ a quem a história não esqueceu”, canta a música. De fato, a história não esqueceu João Cândido Felisberto, nascido a 24 de junho de 1880, em Rio Pardo, hoje Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul. Era filho de ex-escravos e tinha sete irmãos. Menino, entrou como grumete para o Arsenal da guerra da província sendo transferido, aos 14 anos, para a Marinha de Guerra no Rio de Janeiro. Suas qualidades rapidamente o fizeram protegido do almirante Alexandrino de Alencar, além de alimentar um natural espírito de liderança. João Cândido fez viagens ao exterior sempre gozando de prestígio entre oficiais e colegas. Na Inglaterra, teve contato com os marinheiros que participaram de revoltas em favor de melhores condições de trabalho, entre 1903 e 1906.

            Tudo mudou certo 22 de novembro de 1910, em que a capital acordou na mira dos canhões da Marinha. Apavorada, a população carioca cerrou as portas e fugiu. A Armada brasileira tinha se rebelado, assumindo o principal controle de três encouraçados e um cruzador. A razão? Marinheiros majoritariamente mulatos, negros e nordestinos pediam o fim do castigo físico aplicado com a chibata. O terrível instrumento remetia à escravidão. Além disso, lutavam contra os baixos soldos, má alimentação e maus tratos. O estopim foram as 250 chibatadas aplicadas a um marinheiro da nau capitânea da Armada, o Minas Gerais. A Imprensa se colocou ao lado dos marinheiros. O pobre homem havia mesmo desmaiado de dor, durante o castigo, quando todos sabiam que a chibata tinha sido abolida pela República.

            Uma semana depois, João Cândido deu início ao levante sendo designado pela imprensa como Almirante Negro. Num ultimato dirigido ao presidente recém-eleito Hermes da Fonseca, os marinheiros declaravam: “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira“. Hermes da Fonseca preferiu por logo um fim ao movimento. Proibiu a chibata e anistiou os rebeldes, mas não os perdoou. Excluiu muitos, acusando-os de “não desejáveis à disciplina de bordo”.

            A 9 de dezembro, novo levante, desta vez na Ilha das Cobras. Durante o motim, marinheiros mataram companheiros e um comandante. A rebelião foi massacrada em poucas horas. As consequências? Prisões, exílios e fuzilamentos. João Cândido foi expulso da Marinha, acusado de ter incitado o movimento. Em abril de 1911, com o diagnóstico de louco e indigente foi internado no Hospital dos Alienados. Banido da marinha, passou anos trabalhando entre os estivadores e pescadores do Cais do Porto. Perdeu a esposa em 1928 e, dois anos depois, foi novamente preso por subversão. A partir de 1933, integrou a Ação Integralista Brasileira, movimento de inspiração fascista, deixando sobre sua amizade com o líder, Plínio Salgado, depoimento arquivado no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Faleceu em 1969, pobre e esquecido.

            Os historiadores ainda têm muito a pesquisar e descobrir sobre estes episódios. Os documentos referentes aos motins de 1910, agora vem à luz revelando os meandros das forças armadas, o cotidiano dos navios de guerra, o rosto dos marinheiros e o da jovem República. Esta, alheia às necessidades de cidadãos simples e anônimos como João Cândido. – Mary del Priore

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João Cândido e outros marinheiros conversam com um jornalista.

 

 

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1 Comentário

  1. Osvaldo Guarilha disse:

    Você, Mary, e Marcia, enriquecem diariamente nossas mentes com a maravilhosa História do Brasil. Eu não conhecia esse episódio. Obrigado por vocês aumentaremwa minha cultura.

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