Nudez, casamento e as publicações “maliciosas” do século XIX

Publicado em 12 de novembro de 2014 por - História do Brasil

por Cristiana Schettini.

O comendador Eusébio, “negociante, importador, capitalista e respeitado”, casara-se unicamente para ter mulher em casa. A escolhida, dona Adelaide, sofria com os hábitos metódicos do marido e, principalmente, com seu desinteresse pelos “deveres conjugais”. Após várias tentativas frustradas de provocá-lo, ela resolveu apelar para outro recurso que não seus próprios encantos: a “leitura sugestiva”. Mandou comprar o Rio Nu e o largou sobre a mesa, como se tivesse servido de papel de embrulho. Deparando com o jornal, o bem-sucedido comerciante resolveu tomar satisfações com a mulher:

– Que é isso? Um jornal desses em minha casa! Então a senhora lê essas coisas?

 – Eu não – exclamou Adelaide –, isso naturalmente veio embrulhando alguma coisa.

 – A senhora é que quer embrulhar a mim! – rosnou o negociante, abrindo o jornal, desconfiado. – A senhora é que o mandou comprar. Resta saber para quê. Quem sabe se não vem aqui alguma coisa que a interesse… alguma poesia ou novela dedicada à senhora…

E o Eusébio pôs-se a procurar, nas colunas d’O Rio Nu, alguma coisa suspeita. Começou de pé, mas as gravuras prenderam-lhe a atenção.

Das imagens, o comendador passou ao texto. Entre contos e crônicas, “que tinham todos por único fim a glorificação da mulher, a descrição minuciosa de suas belezas e o poder mágico de sua carne”, Eusébio finalmente começou a ter ideias sobre “a utilidade da mulher em geral e especialmente daquela que ele tinha ali”. Para encurtar a história, o plano de dona Adelaide funcionou e mais um casamento terminava salvo graças à leitura de um periódico “alegre”.

Histórias como essa, publicada em 1909, que tem como centro a propaganda de certas publicações entre leitores e leitoras em busca de excitação sexual pura e simples, ou de salvar um casamento, eram recorrentes nas páginas de uma ampla gama de jornais que se especializaram em um tipo de humor malicioso e de duplo sentido, como o Rio Nu e seus congêneres no Rio de Janeiro do começo do século XX. Surgido em 1898 como um despretensioso jornal de humor “cáustico”, com um programa de “passear com seus sapatos trocistas por sobre as conveniências sociais”, O Rio Nu foi se afirmando com o peculiar estilo. Nos seus primeiros anos, parecia mais uma das muitas efêmeras publicações de jovens boêmios com pretensões literárias que começaram a aparecer no fim do século XIX. Mas, em pouco tempo, tornou-se um humorístico de consolidada existência comercial, sendo na maior parte bissemanal, vendido tanto nas ruas como por subscrição para o interior do Brasil. Em suas oito páginas, as ilustrações se alternavam entre textos de comentários de notícias cotidianas e histórias ficcionais, como a do rico Eusébio e sua insatisfeita esposa. Ao contrário de outros tantos representantes do chamado “gênero alegre” carioca, durou até 1916, sem sofrer interrupções significativas, passando a ser conhecido como um dos principais jornais do tipo.

Sua continuidade no panorama daquela imprensa especializada, e mais especificamente “para homens”, ao longo de quase vinte anos, constitui uma oportunidade interessante de indagar sobre os sentidos desse humor peculiar que circulava pelas ruas do Rio de Janeiro e também por cidades pequenas do interior do país. À parte a intenção explícita de divertir e excitar sexualmente seus leitores com gravuras e textos caracterizados por seus autores como “sugestivos” e “maliciosos”, porém nunca “pornográficos”, jornais como O Rio Nu permitiam uma leitura que abordava a linguagem particular no contexto das relações sociais do período. Trata-se de se perguntar sobre a dimensão social das fantasias sexuais veiculadas em suas páginas.

Para isso, vale seguir as sugestões de historiadores culturais que se dedicaram a um panorama muito diferente do encontrado no Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX, em que circulou O Rio Nu. Robert Darnton, por exemplo, tomou a literatura libertina francesa no período anterior à Revolução Francesa para desvendar um “sistema cultural” que não existe mais. Os escritos pornográficos estudados por ele estavam profundamente vinculados ao pensamento iluminista. Sendo primordialmente expressões de crítica social, veiculavam ataques à Igreja, à coroa e a outros abusos do antigo regime por meio de histórias de tórridos encontros sexuais protagonizados por padres e freiras. Para os franceses dos anos pré-revolucionários, as narrativas permitiram pensar “a igualdade numa sociedade profundamente desigual”. Em um sentido similar, a historiadora Lynn Hunt associa o surgimento da pornografia como um gênero diferenciado à modernidade, relacionando-a ao desenvolvimento da cultura impressa e às relações de consumo derivadas desse contexto.

Para seus próprios redatores, O Rio Nu não podia ser definido como uma publicação desse gênero. No entanto, sua obsessão com a representação de nus femininos e com histórias de encontros sexuais permite contextualizá-lo em relação a outro momento particular de expansão da cultura impressa e de consumo de publicações pornográficas, descrito pela historiadora Lisa Sigel como um processo marcado por transformações técnicas que permitiram uma circulação de dimensões inéditas de gravuras, fotografias e imagens, por meio de postais, revistas, filmes ou folhetos, que passaram a alcançar públicos amplos e socialmente diversificados a partir do fim do século XIX em diferentes partes do mundo. Além disso, Sigel destaca que a própria representação de corpos femininos desnudos, que erotiza alguns aspectos de suas formas, como seios e glúteos, longe de ser a única possível, também é relativamente recente, remetendo-se ao século XIX.

Extraído de “O que não se vê: corpos femininos nas páginas de um jornal malicioso”, por Cristiana Schettini. In: “História do Corpo no Brasil”, organizado por Mary del Priore e Marcia Antino, Ed. Unesp.

706736(1)nu perante a câmera Julien Vallou de Villeneuve (French, 1795–1866)

O Rio Nú; e um exemplo das fotografias “maliciosas” que circulavam no século XIX.

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