Novos papéis femininos….

Publicado em 25 de novembro de 2013 por - História do Brasil

 

Ao longo do século XIX, o Império mudou. Com a vinda da família real portuguesa, o processo de independência, o crescimento da economia cafeeira e a ampliação de cidades, as mulheres começaram a ganhar maior visibilidade. Emergia a noção de privacidade, importada da Europa. Não importava se as famílias eram nucleares, extensas ou múltiplas, mas sim um tipo de sentimento que impelia os parentes à coabitação. Difundia-se a mística da vida comum – partilhar espaços, gestos, tradições e sentimentos com os “seus” constituiu-se na tônica da família. A casa humilde ou o sobrado elegante modificaram os espaços. É evidente que os segundos se alteram em maior proporção. O mobiliário da época e os utensílios domésticos refletem essas modificações, e se sofisticam. As fronteiras entre o público e o privado ficam mais nítidas, favorecendo que os papéis exercidos nesses espaços também ganhassem maior visibilidade.

A Igreja e o Estado apostavam no sucesso do papel feminino. Dentro de casa, a mulher poderia comandar alianças, poderes informais e estratégias. Mas apenas dentro de casa. Na rua, era outra coisa. O risco da perda da honra crescia; conversas com homens eram inadmissíveis. Estar fora depois das Ave-Marias era sinônimo de se prostituir. A diferença entre as mulheres de casa, em geral casadas, e as da rua, trabalhadoras concubinadas ou sós, acentuava-se.

A maior parte das meninas não aprendia a ler. Passavam a meninice entre o oratório e a esteira. Ensinavam-lhes a fazer rendas, bordado e costura. Esperava-se que fossem incultas, piedosas, prisioneiras da casa. Amélia Beviláqua, escritora piauiense as retratou: “A menina era um corpo cansado, sempre encurvado na almofada. Não distraía o espírito, nem brincava porque era menina e devia estar sempre quieta”.

 Sair? Só para ir à missa. As procissões eram acompanhadas das janelas para proteção da própria virtude. Namoros sem consequência, baseados em troca de olhares, suspiros e beliscões, eram a distração até o casamento arranjado. Maridos eram escolhidos pelo pai, segundo critérios econômicos e sociais, ou encomendados de Portugal. Para muitas, o matrimônio era um drama penoso: “À medida que o padre falava, sua voz se tornava fúnebre e as palavras ressoavam no salão como se ele abençoasse uma sepultura que ia se fechar […] quando ele uniu as mãos do casal, a noiva parecia quase desfalecer, seu rosto traduzia uma terna submissão diante da fatalidade das coisas”, descreve Amélia Beviláqua.

Se a esposa adoecesse, o marido é que a examinava, supervisionado pelo médico. A obstetrícia, baseada em conselhos de mães, ficava a cargo de parteiras, aparadeiras e comadres, pois preconceitos impediam os homens de exercê-la. O amor era considerado uma doença e havia emulsões de castidade para combatê-lo. As adúlteras estavam sujeitas a surras ou mesmo à morte.

A partir da segunda metade do século XIX, em nome da “civilização e da modernidade”, “pobres e desfavorecidos” passaram a ser alvo do Estado imperial. Queria-se adaptá-los aos padrões culturais europeus. Enquanto as cidades eram reurbanizadas, a população passou a ser disciplinada, reeducada. Daí a preocupação com a conduta moral, a saúde, a vida sexual dos casais e, como veremos mais à frente, dos solteiros.

Tanto a Igreja quanto o Estado reclamavam a necessidade de o “amor” do casal estar vinculado à sexualidade e à procriação. O Estado acreditava que do bom desempenho sexual dos cônjuges “dependia a saúde dos filhos, a moralidade da família e, sobretudo, o progresso populacional da nação”. A Igreja católica, por sua vez, continuava a reafirmar o ideal de família cristã: evitar filhos era considerado desobediência e, portanto, pecado.

Tal família era inteiramente subordinada à figura do pai. Rei em casa, ali ele representava o Estado e a Igreja. Da mulher, além de submissão, esperava-se que exercesse plenamente a função de procriar e transmitir aos filhos valores morais e éticos; dos filhos, que aceitassem todas as regras, tanto afetivas quanto disciplinares, sem procurar questioná-las.

Se por um lado as diversas formas de família iriam conviver ao longo de mais de 350 anos, por outro, o casamento seguiria sendo a chave para distinguir diferenças – as diferenças entre as mulheres. Uma política comum uniu Igreja e Estado no combate às ligações ou “tratos ilícitos”. O concubinato era vivido como algo que se fazia “na rua”. A adoção do modelo imposto pela Igreja ajudou a construir os papéis femininos no imaginário social. Esposas: mulheres corretas. Concubinas, imorais, que viviam “meretrizmente”, cúmplices de “tratos ilícitos”: as erradas. – Mary del Priore

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“O Importuno”, tela de Almeida Júnior, de 1898.

 

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2 Comentários

  1. Muito bom conhecer as nossas raizrs.

  2. Aída Maria da Silva Eleutério disse:

    Cara autora, eu gostei bastante de ler seus livros,mo momento estou acompanhado seu blogger.Abraço.

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