Novo currículo, velhos problemas?

Publicado em 11 de janeiro de 2016 por - Educação

Reflexões sobre a Base Nacional Comum Curricular.

Grandes historiadores, como Ronaldo Vainfas, têm se manifestado contra o “corta e cola” nos currículos dos ensinos fundamental e médio  que ganhou, como todas as ruidosas etiquetas desse governo, a de “Base Nacional Comum Curricular”. Literalmente deletados: a História Antiga, Medieval, o Renascimento. Em alta, os mundos ameríndio, africanos e afro-brasileiros.

Originalidade na mudança? Nenhuma. A França, esta sim. uma “pátria educadora”, da qual o mérito e a Escola Pública são estruturas fundamentais, também tem discutido novos currículos. Elaborados durante décadas por historiadores do porte de Fernand Braudel, Pierre Goubert e Jacques Le Goff, tais programas buscaram soluções para integrar novos temas. Para atualizar-se.

Como são feitos? De forma bem diferente da nossa. O Ministério da Educação reúne um grupo de trabalho com representantes da Academia, inspetores de ensino, pedagogos e professores do ensino médio. Uma vez o projeto elaborado, ele é apresentado a professores do ensino superior, associações de especialistas, sindicatos e ainda submetido a uma consulta geral aos professores do Ensino Médio.

Lá também o novo programa olha em novas direções: o Egito dos faraós caiu em benefício da Índia e da China. E no lugar da Guerra de Cem Anos e de Joana d´Arc, o nascimento do Islã como religião e como civilização. Outro novo tema, as civilizações africanas da Idade Média ao século XVI. A evocação da África pré-colonial abre horizontes e valoriza os alunos egressos das antigas colônias. E não falta quem grite em favor de mais aulas sobre a Shoa, a libertação da Córsega, a colonização positiva ou negativa, o colaboracionismo, enfim… “Deus e sua história”, como dizia meu querido colega na USP, Antonio Penalvez.

A verdade é que aqui, não houve nada disso. E é sempre bom esclarecer, Renato Janine Ribeiro, então ministro da Educação, jamais aprovou ou assinou tal documento!

O maior problema desta carta de intenções não é a diversidade de temas, os novos campos e abordagens historiográficas. Toda a abertura é positiva. O problema é QUEM vai ensiná-los. Quantos africanólogos do porte de Alberto da Costa e Silva temos no Brasil? Os estudos universitários sobre a África são extremamente recentes, e lembro-me que, quando, com Renato Venâncio escrevi “Ancestrais – uma história da África Atlântica” tive que me valer quase que exclusivamente de bibliotecas estrangeiras. Onde a bibliografia acessível sobre maias, incas e, por que não, os povos da Ilha de Páscoa? Falamos, por acaso, espanhol para ler os autores latino-americanos especialistas de tais culturas? E na história dos afro-descendentes, vão se lembrar da “ascensão dos mulatos”, de sua mobilidade social tema tão visível nos séculos XVIII e XIX, ou vão continuar insistindo na dobradinha senhores carrascos e escravos vítimas?

O problema, insisto, não é O QUÊ. Mas POR QUEM e COMO é dada a nossa história: com desamor crescente. Com desconhecimento crescente. Com desinteresse agudo por parte de quem leciona e, infelizmente, de quem aprende! Uma tristeza. E nunca é demais lembrar, o panfletarismo barato encontra um terreno fértil entre os professores que não querem nem ensinar, nem se aperfeiçoar. A esses eu imploro: escolham outra profissão.

Texto de Mary Del Priore.

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8 Comentários

  1. Rodrigo Horta de Sousa disse:

    Só acho que quando você coloca o exemplo da França com objetivo correto no texto, você estabelece corretamente a distância de um governo dentro de noções de republicanismo que acaba inserindo positivamente os vários segmentos sociais e classes dentro de um espaço de participação política. É preciso pensar que aqui no Brasil existe uma lógica onde a educação e o seu financiamento é usado pela gestão pública para se manter no poder e precarizar a educação e fragilizar cada vez mais o professor. Acredito que o último parágrafo na tendência de responsabilizar o professor, quase que exclusivamente, não é positiva, em qual estrutura esse professor encontra-se inserido? FICA UMA DICA… LEIA O DOCUMENTO PÁTRIA EDUCADORA E VEJA QUE SE OS PILARES DAQUILO FOR IMPLANTADO, A LÓGICA É RETIRAR DAS FACULDADES TODO O PAPEL DE FORMAÇÃO DOS PROFESSORES. O DOCUMENTO PÁTRIA EDUCADORA É CLARAMENTE DE TENDÊNCIA EDUCACIONAL EMPRESARIAL E TEM POR OBJETIVO JOGAR O DINHEIRO DO PNE NAS MÃOS DOS INTELECTUAIS ORGÂNICOS DAS INDÚSTRIAS. Qual a contribuição pedagógica a universidade tem dado para resgatar uma tradição pedagógica libertária que seria fundamental para mudar esse processo? É PRECISO REPENSAR O PAPEL DE TODOS NESSE PROCESSO E NÃO SIMPLESMENTE APONTAR DEDOS…

  2. Raimundo Alves de Araújo disse:

    Excelente analise. Ha ainda a ser dito uma questão fundamental: a história do Ocidente (e estamos dentro do Ocidente) é como um rio que flui, de modo que ele começa no Egito Antigo, passa pela Grécia, por Roma Antiga, pelos castelos dos senhores feudais, desemboca nas caravelas, na colonização das Américas, na ocupação do território daquilo que mais tarde será o Brasil e etc. É um fluxo, uma continuidade, que vai das pirâmides do Egito ao Plano Real. Como é que podemos construir o alicerce do conhecimento histórico em nossas crianças e adolescentes sem esse alicerce? Cadê a literatura produzida sobre Maias, Astecas, Tupis etc. que os torne atraentes para uma turma de ensino médio por anos e anos? Eles existem no vazio? É isso?

    • Alexandre Santos disse:

      Discordo na parte de continuidade. Não é necessário a linearidade para se compreender história. Poderia muito bem ser por temas, e esses temas abordarem as civilizações do passado em constante diálogo com a do presente: assim as crianças entendem e veem sentido, necessidade mesmo de ver a história, se sentir parte e repensar como foi criada a sua identidade cultural, numa “viagem” bem maior minha.O problema hoje dessa linearidade é que na maioria dos livros didáticos, ela “foge” para abordar esses assuntos que citou (Maias, Astecas, Tupis e ainda acrescento China, povos africanos, etc) da linearidade eurocêntrica e esses temas parecem “fetiche” ou até conteúdo complementar, não encaixando nessa linearidade engessada de anos. Repensar o currículo, na minha opinião, aborda também o repensar a ideia de “história reta”, da linha, e talvez tentar abordar a história mais como Nicolau Sevchenko aborda em “A corrida para o século XXI”: como uma vertiginosa, excitante e emocionante passeio na montanha russa.

      se interessar, vai o link para download do livro: https://www.passeidireto.com/arquivo/1754255/a-corrida-para-o-sec-xxi-no-loop-da-montanha-russa

  3. Samuel Albuquerque disse:

    Excelente!

  4. A grande contribuição agora ao que se propõe é questionar o método do recorte. Esse que dá claros sinais de cunho ideológico por uns e despreparo por outros.

  5. Pablo Iglesias Magalhães disse:

    Muito bom o texto, prezada professora. Espero que seja ouvida pelas nossas instâncias governamentais. Nessa linha de pensamento, preocupa-me essas leituras rasas de História da América pré-colombiana proposta no documento. Nossas bibliotecas e universidades, com poucas exceções, não tem bibliografia e pesquisa para dar suporte a estudos sobre povos asteca, maia e inca. Ninguém aqui escuta falar de Chilam Balam, Popol Vuh, Garcilaso de Vega, Torozomoc ou qualquer outro crônica colonial da América espanhola. Caso esse monstrengo seja aprovado, na forma que está, a História do Brasil ou a História atlântica será afetada por décadas.

  6. Alexandre Santos disse:

    Essa “reestruturação” poderia bem ser mesmo uma oportunidade de rever os temas e a aplicabilidade no ensino médio e fundamental dos temas de história. Mas, infelizmente, esbarramos nos diversos problemas apresentados pela Mary Del Priore e mais (citando o exemplo da cidade de São Paulo): os cursos de formação que servem APENAS para progressão salarial, a partir do sistema absurdo de pontos que privilegiam mais o número de cursos que o professor faz, do que a qualidade dos mesmos.

  7. Maria da Penha D B de Morais disse:

    Parabéns Mary Del Priore, magnífica análise, belíssimo texto: objetivo, consistente, direto ao ponto. E exatamente pelo conteúdo tão verdadeiro, quase chorei quando concluí a leitura – o que será dessas novas gerações tratadas com tanto descaso e menosprezo pelos políticos, burocratas e muitos intelectuais atualmente no poder? É como se nossas crianças e jovens fossem meros indigentes, massa de manobra de gente sem nenhum caráter!

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