Nos porões da ditadura

Publicado em 9 de fevereiro de 2018 por - artigos

          Após tomarem o poder em 1964, os militares se preocuparam em criar um órgão de informação moderno e eficiente. Já em 1964, nascia o SNI, o Serviço Nacional de Informações. Além da Agência Central ele dispunha de Divisões de Segurança Interna – DSIs em cada ministério e das Assessorias de Segurança e Informações – as ASIs – em outros órgãos públicos. O gigantismo e a ação diversificada, e até mesmo descontrolada desse órgão levaram seu mentor, General Golbery do Couto e Silva a declarar, seis anos mais tarde, que havia criado um monstro. Já o Centro de Informações do Exército – CIE era um órgão do gabinete do ministro e o fluxo de informações passou a ser feito por outros canais que não os da convencional cadeia de comando. O CIE agindo com autonomia frente a outros órgãos, propiciaria uma informação rápida ao ministro e permitiria rapidez na execução de ordens. Na Aeronáutica, a iniciativa de criar um órgão do tipo nasceu em 1968. A Marinha já possuía seu centro de informações institucionalizado: o CENIMAR. Ao lado desses órgãos de atuação nacional, surgiram outros. Um deles foi a Operação Bandeirantes ou OBAN criada em São Paulo, que teve a frente o delegado Sérgio Paranhos Fleury. O órgão foi amparado por recursos oficiais e doações de empresários entre os quais, destacou-se Henning Boilesen, assassinado, em 1971, por organizações de esquerda:

            “TERROR METRALHA INDUSTRIAL PELAS COSTAS EM SÃO PAULO”, lia-se em letras garrafais, no O Globo de 16 de abril de 1971. Acusado de patrocinar e assistir a tortura dos presos políticos, o empresário dinamarquês, foi “justiciado”, pelos guerrilheiros ou “vítima de um ato selvagem que um punhado de fanáticos planejou e calculadamente executou”, segundo o Jornal do Brasil. Perseguido por dois militantes, quando se encontrava próximo à Alameda Casa Branca, ele abandonou seu Galaxie no trânsito, saiu correndo e foi abatido por um terceiro militante. Folhetos da ANL e MRT foram distribuídos à população para explicar o ato. O jornalista Percival de Souza assim arrematou o episódio: “Boilensen entusiasmou-se com seu grau de colaboração e passou a frequentar o Doi-Codi, onde foi visto muitas vezes, por muitos presos. A informação da cooperação e intimidade com os porões foi levada para fora. Expondo-se, assim, orgulhoso de suas relações com os militares, acabou se condenando à morte”.

A OBAN tinha por objetivo empreender ações de captura e desmonte de grupos armados usando métodos marcadamente violentos. Em 1970, foram criados os Centros de Operações de Defesa Interna, CODIs e os Destacamentos de Operações de Informações: os DOIs. Todos congregavam membros das três forças, bem como policiais civis e militares. DOI-CODIs eram ligados diretamente ao comandante de cada Exército, e foram eles a força principal para comandar as ações internas. A montagem desse sistema, que ainda tinha desdobramentos nas Zonas de Segurança Interna, não foi consensual dentro da corporação militar. Resultou basicamente da ação da “linha dura” e dos anticomunistas mais exaltados, civis e militares. O livro de Celina d´Araújo explica a complexíssima cadeia operacional em que circulavam informações, prisões, violências. E cadeia cheia de brechas para que faltasse controle e para que, em nome da segurança nacional, houvesse derrapagens de todo o tipo. Não à toa, muitos comandantes afirmaram não aprovar os métodos violentos usados dentro de suas unidades. E a autora alerta: entender as forças armadas é compreender sua dinâmica sem confundir todos os membros da corporação com os que praticaram abusos e atrocidades dentro de suas unidades e em nome da corporação.

Segundo dados do Brasil nunca mais, a categoria social mais atingida por tais “derrapagens”, ocupando o primeiro lugar nos casos de morte, tortura e denúncias, foram os estudantes. Diz Celina d´Araújo que num período em que a população de nível superior correspondia a 1,4 da população, esse pequeno contingente contribuiu com 39% dos casos de morte por razões políticas, 26% dos casos de tortura e 21% dos denunciados. A maior parte dos que aderiram à guerrilha provinha de setores sócio educacionais de níveis mais elevados, o que aumentava a reação dos militares que julgavam o inimigo melhor intelectualmente preparado do que muitos de seus quadros. Passou a fazer parte das técnicas de combate aos grupos rebeldes a infiltração de agentes de espionagem e contra-espionagem.

Como se sabe, a repressão aumentou no final da década de 60, quando começaram os sequestros e assaltos a bancos. Mas muitos brasileiros não entendiam nem o que se passava. Não à toa, Lizir Arcanjo conta: “O medo voltaria a nos rondar, alguns anos depois, na Escola Normal, quando soubemos que três professores haviam sido levados de suas casas, no meio da noite. Formou-se um burburinho apreensivo, em meio aos estudantes, mas jamais ouvimos alguém falar a palavra “comunismo” ou qualquer referência ao golpe militar. A partir de 1972, quando me transferi para Salvador, para cursar a Faculdade, foi que passei a tomar conhecimento da realidade política do país. Dos anos anteriores restaram-me duas sensações: a do silêncio misterioso e do medo de não sei o quê”.

Distantes da realidade da maioria da população, os próprios guerrilheiros ironizavam sobre como conseguiam ludibriar os órgãos policiais e livrar-se de operações repressivas. Até os militares reconhecem o despreparo, o que os levou a tomar as rédeas em situação que consideravam de excepcional perigo. O General Carlos Alberto da Fontoura confirmou: “As Forças Armadas como a Polícia, não tinham preparo para combater a guerra de guerrilha. Nenhum. […] Tanto que levou muito tempo para acabar. Começou em 65, 66, 67, mas a guerrilha do Araguaia só foi acabar no governo Geisel”.

Nos anos imediatos após 64, início da luta armada e da consequente criação de órgãos de informação e repressão, os relatos sobre violências nas prisões e presídios já chamavam atenção. Desde abril, depois de uma viagem a Recife, a serviço do Correio da Manhã, o jornalista e político Márcio Moreira Alves começou a denunciar a tortura executada nos quartéis: “É com grande tristeza que começo esse resumo final dos crimes que foram cometidos contra presos em Pernambuco, nos meses de abril, maio e junho. Tristeza não apenas por ter comprovado a que ponto vai a baixeza e a covardia de agentes policiais e de um punhado de oficiais indignos do exército brasileiro como pelas falsas interpretações e confusão que alguns elementos subservientes aos poderosos procuram criar em torno das investigações sobre torturas. Após cuidadosas averiguações, após conversar com dezenas de torturados e suas famílias, após ouvir a confirmação dos maus-tratos infligidos a um preso da boca do próprio coronel Antônio Bandeira, chefe da sessão do IV Exército, tenho firmes elementos de convicção para assegurar que algumas dezenas de presos políticos foram submetidos a torturas nos quartéis e delegacias do Recife”.

E listava o caso de um membro do sindicato dos ferroviários que preferiu se atirar do terceiro andar da Polícia Central, a continuar a sofrer interrogatórios. De um preso com tímpanos furados devido aos “telefones”, entre outros. Reação dos leitores? Pouca ou nenhuma. Chocado, ele registrou, o pouco eco que o assunto tinha na sociedade: “Em agosto de 1964 estávamos alcançando um terrível ponto de insensibilidade. Tratávamos as denúncias com certo automatismo”. Sobre a tortura sofrida por um estudante angolano virar matéria, numa reunião de pauta “alguém observou que os leitores estavam cansados dos relatos de tortura, talvez fosse melhor outro assunto”.

  • Texto de Mary del Priore.

 

Vliadimir Herzog AN

Acervo Arquivo Nacional – Foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, após a autópsia, em 25 de outubro de 1975. O jornalista morreu após sofrer torturas no DOI-Codi de São Paulo

 

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1 Comentário

  1. Paulo neves disse:

    Parabéns grande texto, sou professor de história do Brasil, Ha 50 anos. Trabalhando em cursinho, este ano 70 anos.

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