No dia dos historiadores, minha homenagem a Ronaldo Vainfas

Publicado em 19 de agosto de 2016 por - artigos

           Diz-se que boa saúde e má memória são a fórmula da felicidade. Estou quase lá, e, das poucas lembranças que guardo da universidade, você tem a melhor parte.  Recordo nosso primeiro encontro: o curso de pós-graduação da Professora Anita Novinski. Você já autoridade reconhecida, eu, dona de casa e mãe de família, na espera febril de ser reconhecida no olhar de seus colegas. Você, mestre e com livros publicados, eu, acreditando que a vida acadêmica não seria mais do que uma sala de espera. Ambos na idade de todos os possíveis: a juventude.

            Lembro-me de uma memorável estadia em Portugal: a velha Lisboa, seus comboios, o Tejo, grande lençol de cetim cinzento. O encontro era sempre, cedo pela manhã, na sessão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, onde, nós, de fraldas, éramos respeitosamente tratados de Doutor e Doutora. Misteriosa alegria ressudava desses encontros. Pois, o que dizer da sedução das gavetas de dentro das quais, os mortos nos acenavam com suas histórias. E o que contar do sentimento de estar imantado pelas fichas cheias de surpresas, os documentos que nos atraiam e traziam descobertas incessantes. E o silêncio de chumbo dentro da sala, inversamente proporcional a alegria de que estávamos tomados. O tempo imóvel da velha instituição, a lassidão das bibliotecárias, contrastando com nossa juventude, nossa avidez em conhecer. Diante da riqueza dos arquivos portugueses, nos intoxicávamos com as mais deliciosas histórias. Aquelas que como dizia a própria Anita Novinski, gesticulando com as mãos finas de unhas vermelhas, davam carne e sangue para a grande História. E ali descortinávamos a matéria mesma que depois de muitas alquimias, iríamos transformar em nosso ouro. O ouro de nossas teses, escritas com o desejo de encontrar novos territórios e dar vida a novos personagens históricos. Nessas cenas lisboetas, me vem à memória duas musas: Daniela Calainho e Lana Gama Lima, beleza e a competência iluminando o grupo. Um guia e mestre: Caio Boschi e a busca do cálice sagrado de vinho do Porto. E a noite, à volta da mesa, a doçura das conversas e dos doces portugueses. Penso que, para todos nós, o início, não foi o Verbo, mas os arquivos…

           Houve o momento “Trio Iraquitã”. O terceiro membro era Laura de Mello e Souza. Por trás do apelido musical, nos batíamos contra grupos que consideravam o que fazíamos, deletério. Uma bizarrice. Embora Foucault estivesse na moda, estudos sobre sexualidade não acrescentavam às velhas fórmulas sobre “a luta de classes” aplicadas como uma injeção dolorosa. Era proibido ser original. A ordem era manter interpretações coletivas e que atendessem aos projetos coletivos, obedecendo às leis metafísicas. Em nome da liberdade, queriam suprimir a nossa. A tendência era manter uma história racional, feita de esquemas sufocantes. Esqueciam-se de que, como diz Pierre Bourdieu, em sua crítica sobre o marxismo escolástico, “o dominante também é dominado por….Paixões”.

          Nosso combate foi suave. Ele veio do ofício. Nasceu dos arquivos sobre os quais nos debruçávamos incessantemente. Dos textos, aos quais buscamos insuflar um sopro diverso. Um ritmo e conteúdos diferentes. Sem sabê-lo, vejo hoje que éramos guiados por uma máxima de Hanna Arendt: buscávamos a inteligência desinteressada feita de amor à disciplina e liberdade interior. Devo a esse momento que não recordo como penoso, apenas tenso, o objetivo que então me dei: a liberdade não seria para mim um ideal a conquistar, mas uma prática, uma atitude em relação a mim mesma e aos outros.  E tive a sorte de, como membro do Trio Iraquitã, participar de muitos encontros, palestras, congressos num coro onde, cada qual com sua voz, dava voz aos documentos. Voz que apreciava arquivos, a pesquisa, valorizando, enfim, a volta à cozinha da História. Tudo regado à rivalidade que Jacques Derrida diz ser parte da verdadeira amizade, pois ela nos convida a nos ultrapassarmos. A sermos melhores do que acreditamos que somos. Nela, nenhuma fusão ou excesso de familiaridade, mas a reserva feita de respeito e de reconhecimento do talento do Outro. Devo, portanto, Ronaldo, a você e Laura, a gratidão por esse bom combate, e a transformação da estudante que eu era, na profissional que ainda desejo ainda ser.

         Depois houve essa coisa fabulosa chamada vida. Vida: a grande onda que, ao abater-se, separa o que estava junto. Nada de transladações lineares. Nada como antes…O tempo embaralhou as constelações, as estruturas, as perspectivas e as relações. Casamentos, viagens, mudanças de espaço geográfico e profissional e cada qual seguiu seu caminho. O caleidoscópio se organizou com novas combinações. Mas, eu levando sempre no coração essa foto de família. Foto que, longe de estar apagada ou mumificada, revive, graças ao carinho e saudades que tenho de todos.

         Esses foram tempos em que pude compartilhar com você inteligência, conhecimentos, leituras, humor, simpatia e seu largo sorriso por trás da barba cerrada e, então, escura. Desde então, só tive o exemplo do melhor intelectual: o que está a escuta do Outro. Pois, para ser um grande historiador, não basta dar aulas, ter centenas de artigos publicados, dezenas de orientandos, ser dono de um texto ondulante de qualidade ou de análises pertinentes. É preciso saber ouvir. Ouvir ouvindo, olhando no olho, dividindo as dúvidas, esclarecendo os problemas, mostrando-se disponível. E desde então, para mim, Ronaldo, esse grande historiador é você.

De sua admiradora e amiga, Mary del Priore.

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Ronaldo Vainfas (divulgação).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sa conception de l’amitié / L’inimitié

L’ami n’est ni mon alter ego (conception grecque) ni mon prochain (chrétienne). Il est plutôt cet être « lointain » qui me pousse à me dépasser, à surmonter ma condition humaine, trop humaine – l’amitié est une communauté tendue vers l’éclosion du « Surhumain ». D’où des rapports d’émulation, de rivalité et même d’inimitié entre les amis véritables : « Il faut honorer dans son ami l’ennemi même » (Ainsi parlait Zarathoustra).

 

Derrida

1930-2004

Sa conception de l’amitié / Le secret

Dans les pas de Nietzsche, il démantèle les pensées de l’amitié comme fusion, familiarité de tous les instants. Pour lui, c’est la reconnaissance de l’altérité radicale de l’autre, de son irréductible secret, qui est à la base de la relation amicale. « L’amitié ne garde pas le silence, elle est gardée par le silence » (Politiques de l’amitié) : elle implique de ne pas tout se dire, un art de la distance et un devoir de réserve.

Diccionaire de l´histoire amitié. Benedicte Sére

 

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