Nas sombras do golpe republicano, um jovem que queria ser rei…

Publicado em 4 de novembro de 2013 por - História do Brasil

            Um dos personagens menos conhecidos de nossa história foi, também, um dos mais ativos no período que antecedeu o golpe militar que depôs o Imperador. Seu nome: Pedro de Alcântara Augusto Luis Maria Miguel Rafael Gonzaga de Bragança Saxe e Coburgo. Era o filho primogênito da princesa Leopoldina e de seu marido, Luis Augusto Maria Eudes de Saxe e Coburgo. Neto mais velho de D. Pedro II, Pedro Augusto que nasceu no Brasil, mas morava na Áustria, para cá retornou quando da morte de sua mãe. Tinha cinco anos.

            E por que veio? Para suceder ao avô. Sua tia, a princesa Isabel até então não conseguira engravidar e D. Pedro II temia que ela não desse um herdeiro ao trono do Brasil. Louro, de olhos azuis, Pedro Augusto parecia-se muito com o avô a quem se ligou por laços de afeto e interesses comuns. Até os 11 anos, Pedro Augusto foi tratado na Corte, no colégio Pedro II onde estudava, e por toda parte, como futuro herdeiro. Seria Pedro III. Mas em 1875, nasceu o príncipe do Grão Pará. Depois de dez anos e muitas tentativas, a princesa Isabel dava à luz a um outro Pedro. A sucessão estava garantida.

            Teve início um duplo processo. O do afastamento do menino do centro do poder, mas, também, o de uma conspiração lenta e discreta que tinha por objetivo colocá-lo no trono do avô. Na adolescência, Pedro Augusto já tinha um grupo de acólitos que lutavam em seu favor. Eram os “pedristas”: políticos insatisfeitos com a emergência das ideias liberais; republicanos convencidos de que a passagem para um novo regime deveria ser feita por meio de um imperador presidente à maneira de Napoleão III; proprietários de terra aflitos com o movimento abolicionista; monarquistas que não admitiam a ideia de serem governados por uma mulher; gente de toda a sorte que desaprovava o casal Isabel e Gastão D´Eu. 

            Quando o avô caiu doente, em janeiro de 1887 e se receou por sua vida, a pequena corte do príncipe Pedro Augusto se animou. Discutia-se muito a exclusão da tia. Com a piora do Estado de saúde do imperador, decidiram partir para a Europa em busca de tratamento. Pedro Augusto que já era alcunhado pela imprensa como “o favorito”, seguiu junto. Tanto os jornalistas quanto os diplomatas, através de sua correspondência, comentavam abertamente as divergências em torno da sucessão. No Parlamento, deputados conservadores e liberais debatiam as pretensões do chamado “príncipe conspirador”.

            Na Europa, o príncipe Pedro Augusto foi cercado por Eduardo Prado, monarquista convicto e o barão de Estrela, Joaquim Manoel de Maia Monteiro, seu mentor na agenda sucessória. Estrela colhia adeptos para a causa do príncipe e delineava uma plataforma para o Terceiro Reinado. Quando interpelado sobre a inconstitucionalidade da causa, tinha uma resposta na ponta da língua: e a maioridade do imperador, não fora inconstitucional? Por que a coroa não fora passada para a primogênita de D. Pedro I, Dona Maria da Glória?            O novelo de intrigas dos “pedristas” ainda ficou mais enrolado depois da volta do imperador ao Brasil e da Abolição. Quebrado o pacto que existia entre os senhores de escravos e a família imperial, um novo jogo de forças se estabelecia.

            Os republicanos se assanhavam, com suas fileiras engrossadas pelos barões de café ressentidos. O grupo “legitimista” de Isabel cerrava fileiras, pois, passada a euforia das festas de maio de 1888, os ataques choviam. Já o príncipe Pedro Augusto continuava circulando em busca de apoios e reconhecimento popular. Bonito e jovem, era sempre aplaudido por grupinhos à porta do palácio Leopoldina, sua residência. Tinha o apoio de uma parte da imprensa, da opinião pública e de alguns republicanos.

            Ao final daquele ano, os fatos se aceleraram. Os distintos grupos tomavam suas posições. Dentro dos monarquistas, havia os que apoiavam um III Reinado com Isabel e o Conde d´Eu. Eram os legitimistas. Havia outra coligação, que lutava pela candidatura do príncipe: os pedristas. Ambos os grupos sabiam que o Imperador oscilava na escolha de um dos sucessores. Embalados pela consagração da Abolição e pelas festas feitas quando do retorno da família ao Brasil, os dois grupos achavam que tinham condições de se impor. Eles pareciam alheios às manifestações republicanas. A vantagem do grupo que apoiava o jovem príncipe era de que esse oferecia uma solução para a transição de regime monárquico, ao outro, republicano. D. Pedro Augusto não se importava de começar imperador e acabar presidente da República do Brasil, fazendo a tão desejada transição.

            Passado o baile da Ilha Fiscal, em homenagem à marinha chilena e às vésperas do golpe, corria o rumor insistente de que no dia do aniversário de D. Pedro II, 2 de dezembro, este abdicaria. Sabedor dos movimentos de reação republicana e ciente de que sua filha não teria apoio para sucedê-lo, só lhe cabia pedir ao neto que assumisse. Havia mesmo quem dissesse que, sentindo a situação do Império fragilizada, ele abdicaria em favor de Isabel e esta abdicaria em favor de Pedro Augusto. No dia 14 de novembro, esta era a manchete do jornal “A Cidade do Rio”: “O imperador vai abdicar no dia 2 de dezembro, dizem todos”. Veio o dia 15, seguido do exílio para a Europa e em Portugal, da morte da imperatriz Dona Teresa Cristina. No velório da avó, Pedro Augusto era apontado como “aquele que vai ser imperador”. Contudo, o afastamento do Brasil, o afastou da razão: o jovem príncipe, dado a acessos de melancolia, “enlouqueceu”.

            Durante anos, exilados na Europa, mas apoiados em partidários, os Bragança pensaram em voltar ao Brasil. Tanto mais quanto na pátria havia gente que se batia nas ruas pela família imperial. Motins, empastelamento de jornais, prisões na Ilha Grande, enfim, os adeptos do regime não eram poucos e reagiram à proclamação da República.Vários motivos, contudo, explicam o insucesso da Restauração. Não tendo uma sólida doutrina monarquista sobre a qual se apoiar, os restauradores se definiam exclusivamente por oposição aos republicanos. Também não era aceito, sem conflitos, o princípio da monarquia de direito divino. A princesa Isabel, “redentora dos escravos”, era vista como causadora da ruína das fortunas que sustentavam o regime. Os grupos monarquistas estavam dispersos e jamais se interessaram por movimentos de caráter popular que viessem apoiá-los. O silêncio em que mergulhou a família imperial no exílio, o fato de nunca terem ajudado financeiramente a causa da Restauração, ajudou a solapar  o entusiasmo dos monarquistas no país. Quanto ao grupo “pedrista”, ele não teve sucesso. E Pedro Augusto, o belo príncipe que conspirou, foi internado numa casa de saúde, onde, enrolado numa camisa de força, se proclamava “imperador do Brasil”. De lá só saiu quarenta e um anos depois. Morto.- Mary Del Priore

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“O Príncipe Maldito” saindo em nova edição. 

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3 Comentários

  1. Dino Monteiro Miachon disse:

    Olá, Mary, por diversas vezes a cumprimentei por seus livros. Dessa vez quero me manifestar não só a você, mas a todos os seus leitores e admiradores. O Príncipe Maldito, em minha modesta opinião, é seu melhor livro em uma constelação de outros livros de sua autoria, todos excelentes ao enfocar a história do Brasil. Neles o leitor encontra textos fluentes, precisos, de fácil compreensão, além de muito esclarecedores. Eleger “O Príncipe” como seu melhor trabalho em nada diminui os demais. O diferencial está no personagem muito bem escolhido e pesquisado, uma figura de nossa história realmente obscura e misteriosa aos brasileiros. Em outras palavras, você pegou “na veia”. Embora soubesse da existência de D. Pedro Augusto e de alguns aspectos da vida dele, nunca obtive tantas informações acerca deste neto de D. Pedro II condensadas em um único livro! Sua narrativa nos coloca de forma muito clara no caldeirão em que a monarquia se encontrava mergulhada. As disputas pelo trono são absurdas ante o golpe de estado iminente. Deixa-nos revoltados a alienação da família imperial, e até com a pretensão de seus membros! Pensando bem, o exílio na Europa lhes foi um prêmio. Exílio de verdade seria a África. As matérias transcritas de jornais da época, especialmente aquela que se situa nas páginas 186/187, sobre a tortura praticada contra os oficiais do cruzador chileno são hilariantes! Mary, dar-lhe os parabéns mais uma vez é redundância. Não consigo encontrar um termo que lhe faça justiça. Todos eles ficam aquém, ficam devendo. Dessa forma, apenas peço para prosseguir nos brindando com seus excelentes trabalhos. Um grande abraço.

  2. Que história de vida e que triste fim!!

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