“Não somos anjos”, por Mary del Priore

Publicado em 5 de julho de 2014 por - entrevista

 A historiadora e escritora Mary del Priore fala, nesta entrevista, sobre a sua escolha de estudar a história das mulheres no Brasil e das personagens femininas que mais lhe foram marcantes. As conclusões podem ser surpreendentes. Confira:

– Para você, o que é ser mulher?

Para além da bagagem cromossômica, penso como Simone de Beauvoir: não nascemos mulher. Temos que nos construir como mulheres. E essa construção passa por ser “a gente mesmo”, sem querer caber em modelos pré-concebidos. Caminhamos para um pós-feminismo no qual a idéia de cuidar, de combinar, de associar, de mixagem tornou-se um valor fundamental, ético e universal, pois homens e mulheres não podem viver uns sem os outros. Ora, cuidar implica em aplicar atenções, tratar, ter cuidados, afeiçoar-se, dedicar-se, enfim, em amar. Podemos imaginar um mundo melhor, para o século XXI, do que esse em que melhor “nos cuidasses-mos uns aos outros”? Ser mulher hoje, seria, para mim, ter essa agenda.

– Quando você tomou consciência do seu papel de mulher na sociedade?

Houve dois momentos; a maternidade e o trabalho. No primeiro caso, vale lembrar que tanto mais a ciência e a técnica explicam o desenvolvimento da vida, mais elas sublinham a complexidade desta mesma vida. Há, de fato, um sentido misterioso e sagrado em dar à vida a alguém. Muito jovem, tive três filhos e posso dizer que crescemos juntos. Foi uma bela e gratificante vivência. Hoje, avó de duas netas, revivo a experiência da maternidade, mas, agora, com mais experiência e tranquilidade. No trabalho de educadora – sou professora há décadas – me dei conta de que o compromisso com o país, com as pessoas e, sobretudo com as escolhas que fiz, passavam por realizar tudo com amor, com prazer, com devotamento. E as mulheres que têm com a docência uma longa história, podem ai dar o seu melhor ao ouvir, compartilhar e aprender também com os seus alunos e colegas.

– Você escreveu vários livros relacionados às mulheres e à sexualidade, como “Histórias Íntimas”. Quando essas temáticas começaram a lhe despertar interesse de pesquisa? Por quê?

Nos anos 80 e 90 era comum nas universidades brasileiras adotar temas estrangeiros. O do “gênero” foi um deles. Com a contribuição de vários autores e o suporte de documentos históricos, pude me lançar na pesquisa e mergulhar fundo na vida de nossas antepassadas. Não por acaso, essa foi a década em que os movimentos feministas prosperaram, em que as mulheres começaram a entrar massivamente para o mercado de trabalho e o uso da pílula democratizou-se. Nessa conjuntura, o estudo do passado para entender o papel das mulheres no presente, foi fundamental. Só comparando o nível de submissão de nossas avós, ás conquistas do presente, podemos nos dar conta do que ainda temos pela frente e das lacunas a preencher. E não é pouco. Romper com o machismo das próprias mulheres seria um destes desafios.

 – O seu trabalho lida com várias personagens importantes, como Domitila de Castro. Para você, qual o legado que essas mulheres deixaram para a História?

Nossas avós do passado nos legaram uma imagem de muita coragem e trabalho. Sobreviventes num país pobre tiveram que combater por suas vidas e daqueles a quem amavam. Desde sempre as brasileiras foram lutadoras e criativas e personagens do passado demonstram que, independentemente de sua situação social, elas sempre estiveram conectadas com suas famílias e companheiros na luta por uma vida melhor.

 – E qual legado está sendo deixado pelas mulheres de hoje?

Nos últimos vinte anos, um nó de contradições marcou o papel das mulheres na sociedade brasileira. Assim como as desigualdades sociais, as disparidades entre os sexos se acumulam, multiplicando os benefícios deles, em detrimento das carências delas. Em casa, as tarefas continuam desigualmente compartilhadas, embora já surjam algumas zonas de negociação como o fogão ou as compras. Se o casamento se desfaz, elas sofrem imediata desvalorização no mercado matrimonial. Em tempos de crise, será mais fácil ver as mulheres ameaçadas pelo desemprego ou aceitando ocupação em tempo parcial. A superioridade feminina é apenas numérica: mais mulheres chefiam famílias monoparentais, aceitam situações de subordinação e correm atrás do modelo de perfeição estética imposto pela mídia. E porque será? Tudo indica que o problema não é na rua. Mas em casa. É lá que elas escondem seus sentimentos masculinizados. Muitas protegem filhos que agridem outras mulheres. Não os deixam arrumar o quarto: “Homem não nasceu para isso”! A ideia é tornar marido e filhos dependentes delas em assuntos domésticos, pois muitas são dependentes financeiras, deles. Outras calam sobre comentários machistas de seus companheiros, incentivam piadas e estereótipos sobre a “burrice” feminina, cultivam cuidadosamente o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que eles assim se sentem mais potentes. E de ser chamadas de xuxuzinho e tudo o mais que seja convite a comer. O título de cachorra é um elogio. Acreditam que a feminilidade é um estado natural, a ser conservado e que todas as despesas aí investidas, até cirurgias que acabem por desfigurá-las, são um bom negócio.  São coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. Na TV, aceitam temas apelativos e não se incomodam que os mesmos encham a cabeça de suas filhas. Conclusão: há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres, por elas mesmas. Este comportamento ajuda, certamente, a que se continue cavar um grande fosso entre homens e mulheres, perceptível na questão salarial. É compreensível. Afinal, o chefe teve uma mãe machista! Ora, estamos vivendo um tempo de transformações: na família, no trabalho, nas instituições. Nele, importa eliminar as pendências entre homens e mulheres. Mas, sobretudo, aquelas enraizadas dentro de nós.

 – Quais mulheres foram fundamentais na sua vida? Por quê?

Na juventude, minhas professoras. Tive ótimas e eram pessoas assertivas, que mostravam prazer em transmitir conhecimentos. Nas últimas décadas, mulheres como Ruth Cardoso ou Zilda Arns foram sensacionais em sair do individualismo e atuar em prol da coletividade. Tenho-lhes a maior admiração. Atualmente, vejo Regina Casé como uma líder nata. Ela usa a televisão – que é uma coisa tão burra em nosso país – para fazer as pessoas refletirem sobre a desigualdade, a intolerância a homofobia e o racismo. Acho o seu trabalho genial!

– O que as mulheres têm lhe ensinado?

Que não somos anjos. Os movimentos feministas sempre nos fizeram acreditar que éramos todas vítimas dos homens. E não é bem assim. Mulheres podem ser terríveis algozes de outras mulheres. Quem não se queixa de ser perseguida pela chefe, pela sócia ou pela vizinha?! Aceitar as diferenças, discutir de forma limpa, apostar na ética são formas de nos aceitar mais e melhor como somos verdadeiramente.

 – Quais trabalhos lhe deram mais prazer de fazer?

Minha paixão é escrever. Estou sempre envolvida com pesquisas que me levam a novos personagens e a buscar uma narrativa que seja ao mesmo tempo informação e prazer para o leitor. E, desde ponto de vista, o próximo livro será sempre o melhor…

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3 Comentários

  1. dayane gomes pumar disse:

    Parabens Mary!
    Sou sua leitora assídua e grande admiradora! tenho verdadeira paixao pelo período imperial, e pelas histórias “íntimas” da família real! Tenho um tio professor e historia e uma tia que, tendo conhecidos influentes, nos anos 60 teve o prazer de atravessar o corredor que levava Pedro I à casa de “titila”! Tenho curiosidade de saber se você chegou a conhecer o lugar?!
    Muito obrigada pelas maravilhosas pesquisas e leitura que nos proporciona!
    Ah! Minha filha chama-se Mary também!

  2. Boa tarde
    Já li diversos artigos seus em revistas brasileiras. Como sou historiadora principalmente de mulheres pois editei dois livros sobre D. Maria I e D. Maaria II, neste onde falo de mulheres de quem já li artigos seus, Gostarei de trocar algumas impressões consigo.
    Obrigada

  3. Jussara Odete Corrêa disse:

    Amei a entrevista. Já li alguns livros, inclusive o histórias íntimas. E talvez pelo fato de também ter pesquisado sobre o cotidiano das mulheres italianas de Caxambu do Sul, nas décadas de 1930/1960, sempre que posso leio sobre a vida das mulheres em diferentes tempos. Essas leituras nos ajudam a refletir nosso papel nos mais diversos espaços sociais. Um abraço.

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