Namoros no século XIX

Publicado em 6 de junho de 2014 por - História do Brasil

No século XIX, casamentos se baseavam, então, nos arranjos bem terrenos, fossem eles familiares ou políticos, de pais ambiciosos. Sem dinheiro, “Amostras de balcão,” – como se chamava à exposição da moça à janela – não davam em nada. Considerado um negócio tão sério que não envolvia gostos pessoais, o matrimônio por interesse se consolida, entre as elites. As esposas eram escolhidas na mesma paróquia, família ou vizinhança. Ritos sociais passavam a organizar, então, o encontro de jovens casais que passavam, sem intermediários, ao casamento. Namoro: pouco ou nenhum. Noivado, rápido.

Com ritos amorosos tão curtos e alheios à vontade dos envolvidos, amantes recorriam a outros códigos. O olhar, por exemplo, era importantíssimo. Exclusivamente masculino, ele escolhia, identificava e definia a presa. Era um lugar de relações de dominação, de poder e força, inclusive sexual. A mulher podia, quando muito, cruzar o seu olhar, com o do homem. Um olhar feminino livre, seria percebido como um olhar obsceno, lúbrico. Olhar, portanto, era coisa de macho.

O mais ambicionado objeto de prazer? Os pés. Pequenos, eram o signo de beleza mais apreciado. O lugar mais sensual do desejo. Não só tal interesse pelos pés pode parecer bizarro, mas, este foi, também, um tempo em que as paixões se apresentavam na forma de modificações corporais: as lágrimas, os suores frios, o tremor, o rubor das faces, os gemidos e suspiros. Estes eram signos gerados na alma e no coração. A tristeza? Ela fazia o sangue correr mais espesso e lento, acentuando a palidez do rosto. A alegria? Rubor na certa, pois o sangue mais fluido e rápido, coloria as bochechas. Graças às influências vindas do exterior, tinha início, muito lentamente, um novo código amoroso onde sonhos de pureza angelical, se misturavam às práticas tradicionais rudes e autoritárias.

Homens e mulheres não tinham a mesma vocação e esta diferença é que fazia a felicidade de cada um. O homem nascera para mandar, conquistar, realizar. O despotismo, que antes era privilégio de monarcas, passa a ser do marido, dentro de casa. A mulher, por sua vez, nascera para agradar, ser mãe e desenvolver certo pudor natural. O discurso amoroso que circulava entre uma pequena elite, inspirado no Romantismo francês, era recheado de metáforas religiosas: a amada era um ser celestial. A jovem casadoira, um anjo de pureza e virgindade. O amor, uma experiência mística. Liam-se muitos livros sobre sofrimento redentor, sobre estar perdidamente apaixonado, sobre corações sangrando. Mas falar sobre tais assuntos era tão escandaloso que as palavras eram substituídas por silêncios, toques, troca de olhares e muita bochecha vermelha. Enrubescer era obrigatório para demonstrar o desejado nível de pudor, pudor que elevava as mulheres à categoria de deusas, de santas, de anjos.

A realidade da maior parte das mulheres estava bem distante das representações literárias. Inúmeros viajantes de passagem pelo Brasil fazem  alusão ao modo de vida, no qual elas passavam o dia. Bem diferentes das heroínas de romances, viviam displicentemente vestidas, ocupadas com afazeres domésticos e dando pouca atenção à instrução. Ao ócio e ao trabalho escravo, que em tudo substituía seus movimentos, os mesmos estrangeiros debitavam suas transformações físicas: belas aos treze anos, eram matronas aos dezoito. E pesadas senhoras, cercadas de filhos, um pouco depois. As varandas nos fundos das casas serviam para abrigar a família, isolando-a dos rumores da rua, separando moças e rapazes. A janela, era mediadora de olhares, de recados murmurados, de rápidas declarações de amor, do som das serenatas.  Ela era o meio de comunicação entre a casa e a rua. Recepções a estrangeiros ou desconhecidos eram raríssimas. Um momento em que se quebrava tal pasmaceira, era o do “entrudo”, ou carnaval: “as raparigas brasileiras são naturalmente melancólicas e vivem retiradas. Porém quando chega o entrudo parece haver completamente mudado de caráter e por espaço de três dias, esquecem sua gravidade e natural acanhamento para ao folguedo se darem”, anotava, em 1816,  o explorador Jean Ferdinand Denis. O francês não entendia porquê…

E um nosso literário a explicar que os limões de cheiro tinham um outro ofício, além das batalhas de água. Serviam para molhar o peito das moças; era nele esmigalhado pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente. E que não faltaram pedidos de casamento que tiveram como motivo um limão de cheiro comprimido contra um braço bem feito.

Fora disto, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical. Sim…a missa que tinha, então, uma importância, hoje, inimaginável numa história do amor. Ela era o melhor lugar para o namoro. Em 1817, não escapou a Louis de Freycinet, que o acanhamento e timidez, resultado da pouca vida social, sumiam na hora de ir para a igreja. Nela, se conversava com as jovens na frente de seus pais e os olhares trocados estabeleciam verdadeiros códigos secretos. Por sua vez, Carl Seidler, mercenário e autor de um livro sobre nosso país, observara que a igreja era o teatro de todas as aventuras amorosas na fase mais ardente: a inicial. Só aí, as mulheres se aproximavam e até cochichavam algumas palavras com seus interlocutores. A religião encobria tudo. O mínimo sinal bastava para ser compreendido e enquanto se fazia devotamente o sinal da cruz pronunciava-se, no tom da mais fervorosa prece, a declaração de amor. Se a dama resolvesse dar ouvidos ao suspiro enamorado, acabada a missa, ela mandava uma mensagem por meio de sua escrava, determinando data e lugar para um encontro. “Tudo sem afetação ou disfarce”. E os riscos? “Os homens, apesar de sua ciumenta atenção, podiam a cada momento ser enganados – ponderava o viajante -. Assim um estrangeiro nunca deixará de lograr seus desejos, mesmo que não tenha pretensões a bonito, contanto que apareça sempre bem vestido”, gabava-se.

A baronesa de Langsdorff, em 1843, acrescentava ter hesitado em achar que estava numa igreja de tanto que homens e mulheres falavam entre si. Nas áreas rurais – conta-nos o diário da sinhá-moça Madalena Antunes – os cavaleiros iam enluvados, trazendo rebenques de prata presos aos punhos e botinas com esporim. Os cavalos também faziam bonito, presos na árvore mais próxima à porta da igreja e os que tinham cães de raça, aguardavam debaixo do alpendre o início da missa. As moças iam atraentes nas suas  toilettes, cada qual fazendo o possível para impressionar. Em 1853, a escritora e feminista, Nísia Floresta, confirmava que um dos aspectos originais da população, eram os namoros em adros e capelas. “É possível observar as mulheres a trocar olhares compridos e doces com os jovens que passam de um lado para o outro ou se detêm, mesmo para continuar melhor esse jogo, durante o transcurso da cerimônia”.

Também eram conhecidas, certas figuras que nas portas iluminadas ou capelas, esvoaçavam à espera de suas eleitas. Chamados de “gaviões” do amor, moviam-se em bandos numerosos, irrequietos, zombando da severidade dos pais e desobedecendo até as pastorais do Bispado, que proibiam tais namoros de  “água benta”.

As famílias vinham para as cerimônias do culto guiadas pelas lanternas dos negros escravos. No lusco-fusco, era a “pomba” que escolhia o “gavião” e nunca o “gavião” que escolhia a “pomba”. Isso na hora do namoro, que na hora do casamento quem escolhia era o pai. Escolher? E como escolhia ela? Lançando o seu olho mole e açucarado sobre o olho açucarado e mole do gavião de seu agrado. Era o curto-circuito. Naquele dia, só viviam daquele instante magnífico.“Que podia ele fazer no segundo encontro? Naqueles dez ou quinze segundos de proximidade com a criatura de seus sonhos – pergunta-se o cronista Luís Edmundo? Coisas enormes, coisas extraordinárias. Emparelhado com a pomba, o gavião, por exemplo, podia fulminá-la com tremendíssimas piscações de olho; embriagá-la e confundi-la com frases que ele arrancava do fundo do coração…Dando por findo o estágio do olho, da frase melosa, do suspiro, abria dois dedos em forma de pinça, dois dedos desaforados e terríveis e zás, atuava na polpa do braço, do colo ou da anca da rapariga, de tal sorte provando-lhe o amor. Ficava uma nódoa escura  na carne da sina moça, porém, outra cor de rosa, ficava-lhe na alma. Os beliscões eram chamados de mimos de Portugal”. – Mary del Priore.

francesasXIX

 

Modas francesas: influência nos salões do Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 Comentários

  1. Nana Leal disse:

    Muuito interessante!
    Sou apaixonada pelo século XIX. S2

  2. Alessandra sá disse:

    Muito bom. interessantíssimo.

  3. Gabriela Estevão disse:

    Muito bom! Obrigada por compartilhar!

  4. Hilton disse:

    Muito bom mesmo!! Parabéns pela iniciativa destas memórias históricas que o povo nem dá bola..Gostei Muito.

Deixe o seu comentário!