Namoros e flertes: da pisadela ao “escarrinho”…

Publicado em 10 de junho de 2014 por - História do Brasil

Com tantas regras e proibições, como homens e mulheres conseguiam conversar, flertar e namorar no passado? Sempre havia uma brecha para tais encontros, principalmente nas missas e festas. A aproximação entre os casais era realizada por meio de técnicas de sedução bastante surpreendentes. Confira:

Pequenos, os pés tinham que ser finos, terminando em ponta; a ponta, era a linha de mais alta tensão sensual. “Faire petit pied”, era uma exigência nos salões franceses; as carnes e os ossos dobrados e amoldados às dimensões do sapato, deviam revelar a pertença a um determinado grupo social, grupo no interior do qual, as mulheres pouco saiam, pouco caminhavam e portanto, pouco tinham em comum com escravas ou trabalhadoras do campo ou da cidade, donas de pés grandes e largos. Os pés pequenos, finos e de boa curvatura eram modelados pela vida de ócio, era emblema de “uma raça”, expressão anatômica do sangue puro, sem mancha de raça infecta como se dizia no século XVIII. Circunscrita, cuidadosamente embrulhada no tecido do sapato, essa região significou, muitas vezes, o primeiro passo na conquista amorosa. Enquanto o príncipe do conto de fadas europeu curvava-se ao sapatinho de cristal da Borralheira, entre nós, os namoros começavam, como já vimos, por uma “pisadela”, forma de pressionar ou de deixar marcas em lugar tão ambicionado pelos homens. Tirar gentilmente o chinelo ou  descalçar a “mule” era o início de um ritual no qual o sedutor podia ter uma vista do longo percurso a conquistar. Conquista que tinha seu ponto alto na “bolina dos pés”, afagos que se trocavam nesta zona altamente sensível.

Paixões originais, excêntricas e conturbadas nasceram em torno dessa extremidade, inspirando até a crônica da época. Nas suas Memórias da Rua do Ouvidor, Joaquim Manuel de Macedo relembra a do ruivo comerciante inglês, Mister Williams, pela provocante costureira francesa, Mademoiselle Lucy, no início do século XIX. O herói da história é, contudo, o pé. Depois de alguns arrufos capazes de apimentar o romance, Alencar nos informa: “O inglês estava furioso; mas apesar da fúria, na lembrança lhe ficara o pé de Mlle. Lucy. Não era pé verdadeiramente francês, era-o antes de espanhola, ou melhor de brasileira: pé delgado, pequenino e de suaves proporções. Realmente Williams não tinha sapatinhos para aquele pé mimoso na sua loja de calçado inglês. E a convicção de que não havia  miss, nem lady, que não havia, enfim, inglesa que tivesse pé como aquele de Mlle. Lucy mostrara, exarcebava a cólera de Williams. Mas o lindo pé da costureira  francesa ficara  na memória,  e encantadora e infelizmente representado nu, branco, delgado, pequenino e delicado na imaginação do pudico e severo inglês…”

Havia, ainda, registros de estratégias de sedução que soariam pouco familiares e mesmo pueris aos olhos de hoje. É o caso do “namoro de bufarinheiro”, descrito por Júlio Dantas, corrente em Portugal e talvez no Brasil, ao menos nas cidades. Consistia em passarem os homens a distribuir piscadelas de olhos e a fazerem gestos sutis com as mãos e as bocas para as mulheres que se postavam a janela, em dias de procissão religiosa, como se fossem eles bufarinheiros a anunciar seus produtos. É também o caso do namoro de escarrinho, costume luso-brasileiro dos séculos XVII e XVIII, no qual o enamorado punha-se embaixo da janela da moça e não dizia nada, limitando-se a fungar a maneira de gente resfriada. Se a declaração fosse correspondida, seguia-se uma cadeia de tosses, assoar de narizes e cuspidelas. Escapa-nos, totalmente, o apelo sedutor que os tais “escarrinhos” poderiam ter naquele tempo, mas sabe-se que, até hoje, no interior do país, o namoro à janela das moças não desapareceu de todo. – Mary del Priore.

cavalo

Cavaleiro admira dama à distância: imagem romântica (Nicolas-Antoine Taunay).

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