Música, cinema e a vida das celebridades

Publicado em 23 de julho de 2014 por - História do Brasil

Entre os anos 30 e 60, famílias inteiras se postavam na frente do rádio para ouvir músicas com letras sobre o amor e dor de cotovelo ou as esperadas novelas. Junto com as músicas, havia uma curiosidade enorme sobre as estrelas do rádio, pois os fãs só conheciam sua voz. Para saciar tal curiosidade, surgiu a Revista do Rádio com a cobertura, sobretudo, da vida amorosa dos ídolos “em cartaz”. A separação de Erivelto e Dalva de Oliveira, por exemplo, prodigalizou um fogo cruzado entre dois gigantes da cultura popular, que tinham desfeito uma união, antes, apaixonada. Foi um vai e vem de músicas e de acusações.

Os “Mexericos da Candinha”, coluna da Revista do Rádio, se encarregava de lavar a roupa suja dos casais. Na sessão de entrevistas não faltavam elogios à vida familiar, à casa dos artistas, aos seus planos de casamento, valorizando o padrão moral mais burguês possível. Por exemplo, a revista perguntou aos artistas qual a melhor profissão para mulher. Joana D’Arc, da rádio Tupi, respondeu, “A de esposa, porque é o mais belo cargo e o que a mulher pode exercer com facilidade e segurança”. Saint Clair Lopes (que fazia a voz do personagem Sombra), respondeu: “Qualquer profissão serve para a mulher, desde que ela não abdique de seus direitos de dona do lar, a dona da casa”. Em toda a parte, o recado aos amantes, esposos e namorados era sempre o mesmo: mulheres, em casa. Homens, na rua.

Mas este fenômeno não se faz só graças ao gramophone, ao rádio, aos discos Philipps e aos programas de auditório. Sentimentos ligados à traição e ao amor saltam daí para o cinema. Depois da Primeira Guerra Mundial, com o colapso da indústria cinematográfica europeia, Hollywood passa à frente da cena. Os grandes estúdios e o star system exportavam-se mundialmente. Nos filmes que destacavam o relacionamento afetivo como eixo principal, a maioria das personagens femininas era apresentada em situação de triângulo. Casais secundários personificavam, por vezes, a normalidade. As tramas ficcionais eram semelhantes: duas personagens se batem pelo amor de uma terceira. Depois do triângulo esclarecido, os maus eram punidos e os bons pares, felizes para sempre. Outro traço comum? O casamento como solução para qualquer problema. É através dele, que personagens de grupos sociais diferentes se encontram.

Grande sucesso nestes anos, a influenciar o imaginário amoroso, mundo afora, foram os musicais. Centrado no par amoroso, bebendo nos mitos do amor cortês – do qual já falamos ao leitor – e na lenda da distante princesa, ele vai ser habilmente transformado pelo cinema americano. Nesta versão, o casal amoroso se torna uma entidade autônoma, que existe num contexto autorreferido, em que tudo o que acontece ao seu redor só tem sentido em virtude de sua relação – cômico-dramática – amorosa. É como se eles existissem à parte da sociedade, tendo como único nexo explicativo seu comportamento e das outras pessoas que orbitam à volta de sua ligação apaixonada. Nesse sentido, é como se eles existissem à parte da sociedade. Assim eles se indispõem sucessivamente contra seus pais e familiares, contra seus amigos e circunstantes, contra hierarquias e convenções sociais, enfim, eles se batem contra tudo que possa interferir na sua relação amorosa. O par amoroso só se realiza voltado para si mesmo e contra a sociedade que o cerca. Paradoxalmente, lembra o historiador, o amor se torna um fermento antissocial, sugerindo a emancipação das cadeias tradicionais de autoridade.

Assim, a “máquina de difusão do amor” que é o cinema, proporciona uma espécie de valorização do casal solidário, num mundo em transformação. Eles dançam, cantam, sapateiam, se abraçam, pulam, flutuam no ar e os problemas se desvanecem. Quanto ao público, ele chora, canta junta, sai do cinema, compra o disco e se tem a sorte de um braço para afagar, tanto melhor. – Mary del Priore.

dalva de oliveira-olhos verdes

A vida pessoal de Dalva de Oliveira atraía a curiosidade dos ouvintes.

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