Mulheres: sexo, corpo e liberdade

Publicado em 7 de março de 2015 por - temas atuais

Amanhã é comemorado o Dia da Mulher: receberemos flores, homenagens e outros mimos. Malgrado o aspecto comercial da data, acho que é uma ocasião propícia para refletirmos um pouco sobre a situação da mulher nos dias de hoje. Acredito que conquistamos muita coisa, principalmente se fizermos uma análise de longo prazo: há um século não podíamos votar e vivíamos sob a tutela legal de pais e maridos. Conquistamos o mercado de trabalho, colhemos os frutos da revolução sexual e da pílula anticoncepcional. Não é pouco.

Mesmo assim, ainda sofremos com velhos e novos problemas, como a violência doméstica, estupro e abuso sexual, salários inferiores aos dos homens, acúmulo de tarefas (trabalhar, cuidar da casa e da educação dos filhos). O mundo da internet trouxe muitas coisas boas, mas também os ataques virtuais, em que a intimidade feminina é exposta por vingança. Em contrapartida, aprendemos a reagir: não nos calamos mais frente a ofensas e agressões. A luta, porém, continua desigual. A História é feita de permanências e mudanças. Sei que a frase está longe de ser original, mas é correta. Ainda há um longo caminho até acabarmos com a mentalidade machista.

Segmentos conservadores da sociedade se empenham em querer dominar nossos corpos e mentes. O Congresso e o poder público se recusam a discutir o aborto como um problema de saúde pública, insistindo em impor uma moral hipócrita a todas nós. Somos julgadas pelas nossas roupas, pela nossa profissão, pelo nosso modo de agir e falar. Somos cobradas por não ter filhos, ou por tê-los e não sermos mães perfeitas. Somos pressionadas a seguir um padrão de beleza inatingível. Continuamos a ser tratadas como objetos sexuais pela mídia e por parte dos homens.

Frente a tudo isso, vemos um movimento feminista fragmentado, em que vários grupos se colocam frente a problemas mais específicos – o que a meu ver está longe de ser negativo. Mulheres negras, homossexuais, trabalhadoras, intelectuais, pobres e ricas, todas têm colocado suas demandas de uma forma ou de outra. Queremos ser respeitadas e, principalmente, queremos ter liberdade de escolha.

Parece meio ultrapassado falar em busca da liberdade em pleno século XXI, mas sinto que caímos em novas armadilhas que nos limitam. Mary del Priore fala sobre o assunto. “A liberação significou a busca de realização no plano pessoal e a consciência de que ‘problemas sexuais’ não teriam lugar num mundo ‘normal’. Ao defender a ideia do ‘direito ao prazer’, nossos pais fabricaram um tipo de sofrimento: o que nascia da ausência do prazer”, destaca a historiadora.

Concordo plenamente: se ontem éramos cobradas para sermos santas, para não gostar de sexo e ter vergonha dos nossos corpos; hoje temos que ser “máquinas sexuais”, e ainda temos que exibir corpos sarados e atraentes. Envelhecer é quase uma doença. A professora Rachel Soihet, da UFF, especialista em história do feminismo, lembra que “O corpo da mulher não precisa ser associado à sexualidade ou à invasão. Os homens andam sem camisa sem problemas. Mas, claro, há a religião e uma série de tabus que associaram o corpo da mulher apenas á sexualidade”. (em entrevista à Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 113).

O Brasil parece, à primeira vista, um país muito bem resolvido em relação à nudez e ao sexo. Carnaval, gente em trajes minúsculos nas praias e nas piscinas, roupas ousadas e alegres, revistas que estampam famosas e anônimas em poses sensuais, músicas com letras maliciosas. Liberais? Nem tanto.  Fazer top less, por exemplo, ainda é tabu. Já estive em outros países em que mulheres de todas as idades mostram os seios sem nenhum problema. Jovens ou mais velhas, em forma ou não. Aqui, mostrar o peito é “sensualizar” sempre. Até amamentar em público causa desconforto. Não é à toa que muitos movimentos de mulheres têm focado na questão do corpo e da nudez (o Dia da Minissaia é um caso). Em pleno século XXI, há homens e mulheres (e são muitos) que acham que quem usa roupa provocante está “pedindo” para ser assediada ou coisa pior.

O nosso corpo ainda é visto como objeto e, digo mais, como mercadoria. Veja bem: ser objeto é, por definição, não ter vontade própria, é ser “coisa”, algo inanimado, que pode ser usado em determinadas circunstâncias. O sujeito é quem faz uso do objeto. Almejamos ser protagonistas, escolher, queremos dizer sim ou não, de acordo com a nossa vontade. E mais: queremos também fazer as perguntas, tomar as iniciativas. Temos direito de ir ao bar ou à festa da faculdade, e beijar quem quisermos, ou não beijar ninguém. Podemos nos vestir como nos agrada, sem ter que ficar justificando nossas preferências. Se estivermos interessadas em sexo, deixaremos isso claro, se não estivermos, também o faremos.

Será que é pedir muito?

– Márcia Pinna Raspanti.

banhoturcoingres

“O Banho Turco” (1862), Jean-Auguste Dominique Ingres. 

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