Mulheres na Idade Média: a princesa santa

Publicado em 9 de fevereiro de 2017 por - artigos

            As mulheres viviam enclausuradas, trancadas em casa ou presas em castelos nos tempos medievais? Sim e não. É certo que os costumes, as leis e a religião não eram favoráveis às “filhas de Eva”, vistas na época como seres fracos, volúveis e dados à luxúria mas, muitas quebraram essas regras e se destacaram. E devemos ter cuidado sempre com as generalizações, há inúmeras diferenças regionais, sociais, culturais e temporais, portanto, devemos abandonar a ideia monolítica da “mulher medieval”.

           Jacques Le Goff lembra que o poder estava nas mãos dos homens, porém algumas mulheres, em especial na nobreza, puderam desempenhar papéis de destaque na sociedade da época. “Se a Idade Média não elevou o estatuto das mulheres em relação à Antiguidade, é porque o cristianismo, mesmo lhes concedendo um lugar importante, lhes fez sofrer as consequências de dois elementos: um é a responsabilidade de Eva no acontecimento do pecado original; o segundo é o fato de que as mulheres não foram promovidas, no clericato, à função sacerdotal”.

           Le Goff diz que, apesar disso, algumas mulheres puderam desfrutar de um grande prestígio no período medieval, sendo elevadas a um outro estado, superior ao da maioria das pessoas: a santidade. O grande desenvolvimento do culto à Virgem Maria, a partir do século XII, foi um aspecto que mostra, segundo o autor, a promoção da mulher na sociedade medieval. Em termos de valores, lembremos também da literatura cortês, em que a dama tem no homem um tipo de vassalo.

           Vamos conhecer algumas dessas mulheres notáveis da Idade Média.  A primeira delas, Santa Elizabeth da Hungria, é uma princesa que renunciou a uma vida de luxo e riqueza para se dedicar aos pobres. Uma mulher que, após sua conversão, viveu de forma intensa a religião, mas que nunca negou seu amor pelo casamento e pela família. “Jamais se viu a filha de um rei tecer a lã!”, maravilhou-se um contemporâneo. ”Uma mulher extraordinária”, resume Le Goff.

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           A princesa Elizabeth era filha do rei André II da Hungria e de Gertrude de Meran.  Casou-se aos 14 anos com o conde Luís da Turíngia, vivendo no ambiente frívolo da corte. Converteu-se por intermédio dos primeiros missionários franciscanos que chegaram à Alemanha. A religião trouxe grandes mudanças na vida da princesa, que começou a seguir os preceitos da ordem religiosa de maneira ostensiva: misturava-se aos pobres nas procissões, vestia-se como uma mendiga, recusava alimentos vindos de fontes “injustas” (dinheiro dos pobres ou da Igreja).

          Elizabeth se tornou uma grande crítica dos hábitos da corte, condenando o luxo e a lascívia. Exerceu a caridade de maneira surpreendente, doando os estoques de alimento do conde aos pobres, em tempos de fome, e transformando o palácio em uma espécie de hospital. Com a morte do marido nas cruzadas, ela abandonou a corte e fundou um hospital para leprosos, dedicado a São Francisco de Assis, em 1227. Ela seria canonizada em 1235, em um período de grande prestígio das ordens mendicantes. Morreu aos 24 anos, em condições humildes.

          Diferentemente das viúvas ascéticas e virgens que a precederam, Elizabeth sempre deixou claro o amor que dedicava ao marido e aos três filhos, destacando a santidade do casamento. Conta-nos Le Goff: “Sua revolta é doce, mas perspicaz; é só por meio da radicalidade de seus atos que ela humilha seus adversários. (…) É assim que ela pôde tornar-se o símbolo medieval de outro poder, aquele da assistência social, a patrona dos hospitais e da caridade”. Elizabeth soube negociar habilmente com o marido e com a nobreza, conseguindo concretizar seus projetos caridosos. Representou a santa virginal, como viúva de moral inatacável, mas também a esposa amorosa e mãe; foi exemplo de vida para a nobreza e para os pobres; uma mártir que morreu jovem sempre cuidando de leprosos e miseráveis. O culto a santa Elizabeth reuniu uma série de modelos femininos de santidade. Uma das grandes figuras da Idade Média, sem dúvida.

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  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.
  • Referência bibliográfica: “Homens e Mulheres da Idade Média”, sob a direção de Jacques Le Goff (Estação Liberdade, 2013).
  • Imagens: “exame de urina de Santa Elizabeth a fim de saber se está grávida”, miniatura século XV (Bíblia de João XXII, Montpellier, Museu Atger). Acima: St. Elizabeth washing a sick man, século XV,.

 

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