Mulheres Medievais: ela aconselhou papas e príncipes

Publicado em 10 de fevereiro de 2017 por - artigos

         Sem saber ler nem escrever, Catarina Benincasa, nascida em 1347 em uma família de artesãos de Siena, se tornou uma mulher influente em sua época, se fazendo ouvir por autoridades religiosas e políticas. Inteligente e perspicaz, ela colocou para si a missão ambiciosa de reformar a Igreja e colocar fim aos conflitos que dividiam a instituição. Como destaca Jacques Le Goff, ela foi uma das mulheres que conseguiu alcançar prestígio graças ao estado de santidade. Ao contrário do que muitos pensam, as mulheres medievais não viviam apagadas da vida pública, apesar de sofrerem inúmeras restrições, mas muitas conseguiram se destacar no campo religioso, intelectual, das ciências e até nas batalhas. E como disse Georges Duby, todos os relatos que nos chegam foram escritos por homens “convencidos da superioridade de seu sexo”, portanto, podemos desconfiar dessa imagem já cristalizada da “mulher medieval”.

        Mas, voltemos a Catarina de Siena. Sua vocação religiosa manifestou-se cedo, causando sérios conflitos com a família, que achava que seu destino deveria ser o casamento. Rebelde, ela entrou para uma comunidade de devotas laicas, ligada aos dominicanos, mas que não implicava uma vida isolada em monastérios ou conventos. Dona de personalidade forte, de grande sensibilidade, de religiosidade e misticismo marcantes, a jovem atraiu um grupo de “amigos espirituais”, que ela chamava de brigata. Homens e mulheres de famílias tradicionais a seguiam, bem como religiosos e teólogos, que a consultavam em questões espirituais e morais. Apesar de influente, Catarina praticava a caridade, estando sempre junto dos pobres e doentes.

       Logo, começaram a lhe atribuir milagres. Uma curiosidade: Catarina só iria aprender a ler e escrever tardiamente, ditando grande parte da sua correspondência e escritos. Em 1367, ela se lançou à vida pública, sendo submetida a exames realizados por teólogos dominicanos, o que só reforçou seu prestígio e santidade. Entretanto, ela iria mais longe. Na época, a Itália estava dividida entre os partidários do papado (guelfos) e aqueles que apoiavam o Santo Império Germânico (gibelinos). Isso havia levado o papa Clemente V a fugir de Roma e exilar-se em Avignon, em 1309, local onde se instalaram sete de seus sucessores. Catarina resolveu agir para trazer o papado de volta à Roma e ainda defendeu uma profunda mudança na Igreja.

      A jovem manteve correspondência com o papa Gregório XI, e ele a recebeu para uma entrevista, ficando notadamente impressionado com sua fé e poder de argumentação. O papado voltou à Roma em 1.377, mas isso não significou a paz tão sonhada por Catarina. Com a morte de Gregório XI, foi escolhido como seu sucessor o italiano Urbano VI, porém, após um desentendimento com os cardeais, estes escolhem outro papa, Clemente VII. Era o início do grande cisma. Catarina apoiou Urbano com todas as suas forças: escreveu a príncipes, reis e lideranças religiosas pedindo que fossem fiéis ao papa. Tentou de todas formas promover a reunificação da Igreja e sua reforma. Não obteve sucesso.

       Catarina morreu em 1.380, aos 33 anos, como Cristo. Ela seria canonizada em 1462 pelo papa sienense Pio II, o que favoreceu a circulação de seus escritos e imagens que retratam passagens de sua vida.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.
  • Referências bibliográficas: “Homens e Mulheres da Idade Média”, sob a direção de Jacques Le Goff (Estação Liberdade, 2013); “Idade Média, Idade dos Homens”, de Georges Duby (Companhia das Letras, 2011); “Catarina de Siena: frágil, analfabeta e ouvida por papas e príncipes”, de Christiane Rancé (Revista História Viva, nº 129).

 

 

Giovanni-Di-Paolo-St-Catherine-before-the-Pope-at-Avignon-S

Santa Catarina de Siena diante do papa Gregório XI,

por Giovanni de Paolo, 1447.

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