Mulheres, mães e operárias

Publicado em 14 de julho de 2014 por - Feminismo

A preocupação com o papel das mulheres percorrera de alto a baixo a sociedade. Nas cidades industrializadas, crescia o número de mulheres operárias. Como cuidariam dos filhos? Patrícia Galvão, a conhecida Pagu, feminista e comunista, foi a primeira a denunciar, em seu romance Parque industrial, a situação perversa em que essas viviam. Na voz de uma personagem “revolucionária”, fomentadora de greves, ela escreve: “Nós, à noite, nem força temos para acalentar nossas crianças que ficam sozinhas e largadas o dia inteiro ou fechadas em quartos imundos, sem ter quem olhe por elas”!

Os poderes públicos se preocupavam então com o movimento operário e a participação feminina. Quando se tratava de pedir aumento de salários ou protestar contra a elevação dos impostos e do custo de vida, mulheres iam para as ruas. Em outubro de 1902, para ficar em um exemplo, paralisaram fábricas de tecido no Bom Retiro, em um movimento grevista contra os maus-tratos de mestres de teares. As paralisações se sucediam, e o movimento por melhores condições de vida se alastrou entre elas.

Uma das soluções foi criar um discurso normativo que as tirasse das ruas e as fizesse voltar para a vida doméstica. Os médicos colaboravam. Um Concurso de Robustez, que premiava a mãe operária e pobre que amamentasse até o sexto mês, encheu as capas dos jornais. Boletins de “Conselhos às mães” eram gratuitamente distribuídos. A preocupação era convencer a mulher de que o amor materno era inato, puro e sagrado, e que apenas por meio da maternidade e da educação dos filhos ela realizava sua “vocação natural”. Sanear a sociedade por intermédio das mulheres era a meta. Mas qual mulher? Somente a esposa e mãe.

“A mulher que contrai casamento deve ser convencida das leis naturais e morais que obrigam-na a exercer o círculo completo das funções de mãe. Se a isto se recusar é que há uma falsificação de sentimentos contrariando as manifestações naturais e sacrificando o dever que é sacrificar a si, a prole e a humanidade”, acusava o doutor Moncorvo Filho.

Mas não foi só a medicina que tentou, cientificamente, “moralizar” a mulher. Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas concedeu uma série de favores à Igreja, e um “pacto moral” selou novo acordo entre Estado e Igreja. Esta se tornaria uma grande aliada na consolidação de uma ética cristã baseada na valorização da família, do bom comportamento, do trabalho e da obediência ao Estado. Nova aliança se deu graças ao apoio do cardeal dom Sebastião Leme às preocupações varguistas com as classes trabalhadoras. E o operoso cardeal aproveitou para valorizar o sacramento do matrimônio entre a gente que vivia em ligações consensuais.

Desse esforço, havia que se multiplicar “mães e esposas”. Aquela que não preenchesse os requisitos estipulados pela “natureza” era identificada como “anormal”, pecadora e criminosa. Não amamentar, não ser esposa nem mãe significava desobedecer à ordem natural das coisas. E, como se não bastasse, ainda punha em risco o futuro da nação, por não formar bons cidadãos.

Na representação santificada da mãe-esposa-dona de casa ordeira e higiênica, a sexualidade só aparecia associada à procriação, explica uma historiadora. A ascensão da figura da mãe inibia a sexualidade conjugal. A mulher destinada à maternidade não podia procurar prazer, e a ideia do orgasmo materno se torna escandalosa, mesmo impensável. E mais: o amor aos filhos deveria ser o principal fator de união dos casais. Dentro do casamento, prevalecia o caráter assimétrico: a mulher, reduzida ao papel de mãe e esposa. O pai, dedicado ao trabalho, à posse da mulher e à fiscalização dos filhos.

– Mary del Priore.

Patricia_Galvao

Pagu: a primeira a discutir as dificuldades das mães que trabalhavam como operárias.

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