Mulheres guerreiras: as sedutoras amazonas

Publicado em 16 de julho de 2016 por - artigos

          As Amazonas revisitadas pelas histórias em torno de Alexandre o Grande, e embelezadas pelas crônicas de cavalaria, conhecidas de todos os conquistadores e viajantes, desenvolveram não apenas um tema, mas um sistema que, por sua vez, permitia associar vários elementos da Antiguidade. Assim elas se integravam à mitologia dos guardiões de ouro dos confins. Eis porque ao chegar à Califórnia, em 1539, Cortez acreditou ter tocado uma ilha ao lado das Índias Orientais, ilha muito próxima ao paraíso e habitada por mulheres negras que viviam longe de qualquer presença masculina. Não foi à toa que o mito do ouro na Califórnia perdurou até o final do século XIX.

          Mais: o lago que cercava as terras das Amazonas remetia ao paraíso terrestre, pois Hespéria, segundo o mesmo Diodoro de Sicília, estava coberta de árvores frutíferas, e em seus campos abundavam animais que viviam em eterna primavera. Esta associação com as águas vai se repetir no momento da fundação dos mitos que acompanharam o descobrimento do maior curso fluvial do Novo Mundo. Avistado por Vicente Yañez Pinzon em 1500, aquele mesmo rio que os cronistas de antanho denominaram “o monarca das águas”, “a fênix dos rios”, e que ele confundiu com o Ganges, deu, precisamente, nome às Amazonas.

           As mais célebres delas foram observadas e descritas no coração da América do Sul, quando da expedição de Francisco de Orellana, espanhol que saiu em busca de ouro e outras riquezas. Os conquistadores partiram, em fins de 1541, de Quito – atual Equador –, região marcada pela beleza da sua branca cordilheira de vulcões. O objetivo era encontrar o mítico País da Canela, especiaria então muito rara e valorizada e que, se acreditava, crescia nas proximidades do Eldorado. Não se tratava da espécie cinnamonum, originária do Ceilão, mas de uma planta perfumada conhecida como ishpingo, que entrava na composição de oferendas religiosas e servia a fins terapêuticos. As crônicas sobre tantas riquezas teriam incendiado a imaginação dos espanhóis. Na confluência entre os rios Coca e Napo, Orellana abandonou Gonçalo Pizarro – líder da expedição – e prosseguiu sua navegação em direção ao Maranhão. Como ele mesmo registrou em suas memórias, se deixou levar “donde la ventura lo guiase, enquanto a floresta úmida, os insetos e os pântanos engoliam, lentamente, a sua saúde, seus homens e seus barcos.

           Coube ao dominicano Gaspar de Carjaval, depois de entrevistar um indígena, a descrição das peripécias da viagem e da aparição das coniapuyara, ou “grandes senhoras”, que confirmavam a tradição do mito grego: “São muito brancas e altas, têm cabelos compridos e trançados ou revoltos na cabeça, e são muito membrudas e andam nuas envoltas apenas em couros tapando suas vergonhas, com seus arcos e flechas nas mãos, fazendo guerra como dez índios.” Elas os afrontaram num violento combate “tão feroz”, queixou-se o dominicano, que “estivemos a ponto de nos perder todos”. Os viajantes estavam fascinados por esta estranha combinação: mulheres guerreiras, cruéis e… ricas. Um sonho de conquista. A mitologia antiga deformava o olhar dos europeus, e se transformava em critério de verdade para a descrição da natureza, terras e gente americana. Mas o dominicano também traduzia, à sua maneira, as narrativas indígenas conhecidas em toda a bacia amazônica. Segundo elas, Jurupari, herói dos povos da floresta, tinha, na sua infância, arrancado o poder da mão das mulheres para devolvê-lo aos homens. E matara sua mãe, pois ela ousara encarar as flautas sagradas. Também nas culturas indígenas se encontravam mitos que punham o mundo de cabeça para baixo.

            Mais adiante, e graças a um léxico por ele confeccionado, Orellana conseguiu se comunicar com os ribeirinhos que confirmaram a existência das Amazonas. E, sob os raios fabulosos da distância, surgiam mais e mais informações sobre tais mulheres. Moravam a sete dias de viagem do rio e viviam separadas dos homens, com quem só se juntavam para procriar. Como no mito grego, matavam os filhos homens e criavam, com presentes, as meninas. Uma grande senhora, cujo nome era Coñori, reinava entre elas, que, espalhadas em mais de setenta cidades lavradas em pedra, moravam em casas cobertas por plumas de papagaio. O piso e os móveis eram feitos de prata. Possuíam ainda muitos “carneiros do Peru” – lamas e alpacas – que lhes forneciam lã para o vestuário. Na capital, havia cinco oratórios dedicados ao sol, chamados caranain, adornados com ídolos de ouro. Vestiam-se de roupas muito finas, e seus cabelos caíam até o chão. As cabeças iam coroadas do metal amarelo, e havia tanta riqueza em ouro e prata que, para o serviço da nobreza, não se usava outro. Suas terras eram, igualmente, hidratadas por lagoas de água salgada.

            A imagem da água no mito das Amazonas era recorrente, pois estas mulheres guerreiras viviam ora em uma ilha, ora em região próxima a um grande lago, ou seja, ao mar. Vizinha, se encontrava a tão procurada canela, e elas possuíam, ainda, enorme quantidade de ouro. Tudo indica que Orellana, como os demais conquistadores de seu tempo, conhecia outras lendas ligando ouro, mulheres guerreiras e rios, pois a conexão das Amazonas com um grande rio, que parecia não ter princípio nem fim, era uma constante na geografia medieval. A autoridade da Bíblia era invocada para afirmar, por exemplo, que o melhor ouro do mundo se encontrava nas terras onde corriam as águas do rio Ganges.

            A lenda da cidade dourada perdida na floresta, ou Manoa, foi recolhida em fins do século XVI pelo favorito da rainha Elizabeth I, Sir Walter Raleigh. A curiosidade dos ingleses fora atiçada pelos rumores sobre as mulheres guerreiras, bem como sobre suas reuniões anuais com reis de terras vizinhas para a procriação. Os festejos e bebedeiras, segundo o cronista protestante, duravam um mês. As Amazonas possuíam placas de ouro que trocavam por pedras verdes – jades ou uma variedade de feldspato também chamada amazonita – usadas, na época, para tratar dos males da vesícula. Segundo Raleigh, elas continuavam habitando as regiões de Tobago e “suas terras mais importantes se situavam nas ilhas da parte meridional do estuário”.

         Mas aqui já se observavam pequenas mudanças na história: os filhos não eram mais mortos, mas enviados para a casa de seus genitores. E, definitivamente, não havia provas de que tais guerreiras cortavam um dos seios. Elas foram, também, encontradas nas matas do Paraguai, segundo a declaração do capitão Hernando de Rivera, em 1545, que insistia sobre a existência de grandes cidades habitadas por mulheres guerreiras. Ele chegou a descrever seu encontro anual com os homens vizinhos e as riquezas que possuíam. E quanto à localização, não tinha dúvidas: em meio a um lago chamado Eldorado. A seguir, foram vistas no estreito de Magalhães.

      Não se tinham passado nem 15 anos desde o relato de Carjaval e era a vez do francês André Thevet, que passou três meses no Brasil em companhia do militar Nicolas Durand de Villegaignon, confirmar sua existência. Só que, agora, com outra inovação. Estavam mais pobres: “Elas frequentavam raramente os homens; e o faziam em segredo, à noite, ou em hora determinada. Este povo habita pequenas casinhas ou cavernas nos rochedos, se alimenta de peixe e caça pequena e alguns frutos que crescem na terra”. Se tinham, todavia, perdido as casas de plumas e prata, sua crueldade continuava a mesma. Ao guerrear, elas faziam prisioneiros que maltratavam da seguinte maneira: penduravam-nos pelas pernas, nos galhos das árvores, e em seguida os crivavam de flechas. Em vez de comê-los, como faziam os antropófagos brasileiros, preferiam cozinhá-los até virar cinzas. Seus gritos de guerra eram terríveis e serviam para afugentar os inimigos. Não contente em descrevê-las, o cosmógrafo André Thevet ilustrou com suas imagens o seu História de uma viagem à terra do Brasil, um verdadeiro best-seller dos finais do século XVI.

       Outro francês, Jean Mocquet, retomou o mito em 1617, precisando alguns detalhes que os predecessores tinham deixado de fora. O seio faltante? Este não era queimado como rezava a lenda. Grande mentira! Elas tinham os dois. Os encontros para a reprodução tinham data certa: o mês de abril. Com tantas variações sobre um mesmo tema, de pouco adiantava o ceticismo de alguns contemporâneos, como Juan de Castellanos, que admoestava os crédulos: “No dito rio do Maranhão disseram que havia Amazonas e terra rica; não se dê crédito a isto pelas grandes mentiras que se contaram sobre os ditos índios”.

  •  Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira”, Editora LeYa, 2016.

 

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Amazonas, gravura de Jean Cousin, para o relato de André Thevet.

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