MULHERES E REVOLUCIONÁRIAS DO VELHO MUNDO

Publicado em 2 de janeiro de 2015 por - História

Por Natania Nogueira.

As mulheres estiveram presentes em muitos dos movimentos que ajudaram a moldar a sociedade ocidental, mas nem sempre sua presença e sua participação ativa receberam o devido reconhecimento. Tanto na historiografia quanto nos registros documentais, elas foram, em muitos momentos, ocultadas. Legalmente quase não existiam, uma vez que a elas eram negados os mesmos direitos dos homens.

Durante muito tempo, as vozes das mulheres foram silenciadas pela história, e essa mesma história, na atualidade, procura por essas vozes perdidas, resgatando a memória de mulheres que foram também sujeitos históricos ativos. A França e a Inglaterra nos oferecem bons exemplos de participação feminina em movimentos reivindicatórios de pequena ou grande amplitude. Nesses dois países, mulheres de grupos sociais distintos tiveram papel significativo na vida social e política.

Na França do século XVI, por época da Reforma Protestante, quase todas as mulheres tomavam parte da vida econômica da cidade. Elas trabalham, e muito. Das esposas dos artesãos às mulheres mais pobres, uma grande parte delas ajudava no sustento de seus lares. Elas estavam nas ruas, vendo, ouvindo, absorvendo informações. Elas tinham consciência das mudanças que ocorriam ao seu redor e não passavam por elas sem sentir seu efeito. Mas o fato de serem membros produtivos da sociedade ou mesmo viúvas ricas não lhes conferia participação alguma na vida política.

Se oficialmente sua participação não era permitida, ela acontecia de outras formas. As mulheres de famílias de posses eram, em geral, aquelas que tinham acesso a algum tipo de instrução. Elas eram encorajadas a ler e escrever pelas suas famílias como uma forma de promover uma maior distinção. A mulher educada era apreciada pela sociedade e animava os encontros sociais. Serão elas, também, que irão se destacar na organização de salões literários importantes, tanto em Paris quanto em Lion, citando alguns centros importantes da França naquele período.

Já as esposas e filhas de artesãos não tinham acesso ao ensino e poucas entre elas sabiam ler e escrever. Essas eram qualidades dispensáveis no dia a dia, marcado pelo trabalho duro e exaustivo. Distantes do mundo letrado, elas aprenderam com o que ouviam nas ruas, e se colocavam a par dos acontecimentos da cidade. Elas também foram vítimas dos massacres e perseguições desencadeadas pela reforma. Seriam elas, tanto mulheres de elite quanto do povo, que iriam ajudar na conversão de muitos católicos ao protestantismo.

Aqueles que desejavam enfraquecer o movimento reformista, afirmavam que as mulheres convertidas eram de vontade fraca e intelecto débil. Mas mesmo todo o discurso limitador acerca do papel da mulher na esfera pública e privada não foi suficiente para esconder o fato de que, já no século XVI, e possivelmente bem antes, muitas mulheres se atreviam a participar mais ativamente dos movimentos socais, independente ao grupo a que pertenciam.

Entre as mulheres católicas havia aquelas que sabiam ler e participavam de confrarias. Muitas eram estimuladas pela literatura devocional a promover especulações teológicas, o que costumava ser desqualificado pelos pregadores. As mulheres católicas queriam fugir ao silencio imposto pelos padres. Havia já naquela época as que desejavam o mesmo direto dos homens de pregar para a comunidade. Muitas delas encontraram no protestantismo uma forma de se libertar do controle dos padres, de terem acesso aos textos religiosos, sem as limitações antes impostas. Essas mulheres são revolucionárias de seu tempo, muitas delas vítimas das violências deflagradas aos hunguenotes durante o tempo que durou a reforma religiosa na França.

Se por um lado temos as mulheres que lutam por maior liberdade religiosa, por outro o catolicismo encontra em Catarina de Médicis um defensora implacável. Ela dá início a uma série de acontecimentos que resultam no assassinato de líderes protestantes, no episódio que ficou conhecido com “A Noite de São Bartolomeu”, em 1572.

Já na Inglaterra, nos séculos XVIII e do século XIX, em plena revolução industrial, as mulheres aparecem nos motins de fome, em muitos momentos liderando a turba raivosa, reivindicando preços mais justos para a farinha, protestando contra as autoridades, comerciantes e moleiros. Entre os anos de 1790 e 1810, foram identificados 240 motins de fome, desses 35 foram predominantemente femininos e em 42 deles homens e mulheres caminharam lado a lado. Em 82 casos, os manifestantes foram classificados como de gênero desconhecido.

A presença, e até mesmo liderança das mulheres nos motins de fome, pelo menos inicialmente, demonstra sua importância na economia familiar, e na economia local de uma forma geral. Os eventos nos apresentam uma mulher que não aparece nos livros e nos relatos oficiais: autoconfiante e portadora de autoridade, uma mulher que é seguida pelos homens, e não o contrário.

As mulheres eram frequentemente formadoras de opinião na comunidade onde viviam, com suas famílias, e eram elas que davam início a ações como os protestos. Essas mulheres possuíam um papel ativo nos movimentos, embora isso não signifique que as diferenças de gênero tenham sido esquecidas. No entanto, a sobrevivência da família muitas vezes dependia da ação das mulheres. Elas gerenciavam o lar e, em alguns casos, eram as provedoras. Eram elas que buscavam estratégias e soluções para contornar a penúria e a fome. Não é de admirar que tenham sido elas as primeiras a liderarem manifestações como motins de fome, seguidas pelos homens e por seus filhos.

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Catarina de Médicis: defensora do catolicismo.

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1 Comentário

  1. tenho,lido alguns de seus livros..sou professora aposentada de geografia e estudo psicologia.. gosto dos livos d que li como a história das crianças e das mulheres.

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