Mulheres e Nazismo: carrascos e vítimas

Publicado em 3 de junho de 2014 por - História

Violência & mulheres: assunto sombrio. Como pensar a transformação da bela em fera, quando a violência contra as mulheres é permanente? Historiadores sabem, porém, que elas não são e nunca foram, apenas, vítimas. E para estudá-las no papel de carrascos, Wendy Lower, professora de história da universidade de Towson, Maryland, se debruçou sobre sua ação nos campos de extermínio. Segundo ela, meio milhão de mulheres assistiram e participaram ao terror da Shoa. E treze milhões eram membros do partido. Sem o macivo voto feminino, Hitler não teria chegado ao poder. Aliás, ele sempre perseguiu quem ousasse atacar seu fã clube de saias. As reuniões públicas eletrizavam suas seguidoras dentre as quais muitas pertenciam a organizações satélites como a Liga das Meninas Alemãs cuja doutrinação começava aos dez anos. O treinamento físico associado a uma cultura de “guerra total” preparava “combatentes patrióticas”.

O assunto não é novo, nem a responsabilidade de mulheres na ascensão do regime, contestada. A propaganda em torno da valorização da mãe obrigada a dar soldados para a pátria criou o mito de um espaço feliz num universo de ódio e sangue. Fazer bebês arianos saudáveis foi tarefa de milhares. Além disso, muitas delas viram no nazismo a oportunidade de uma maior independência: a cineasta Leni Riefenstahl que o diga. Afinal, a máquina de terror do Reich instituiu inúmeras opções de carreira, inclusive nos campos de concentração.

Para Lowel, mulheres acreditavam que ao aderir ao regime, deixariam para trás a insegurança política, a disparada da inflação, as desordens da modernidade encontrando seu lugar na luta “contra o comunismo” e na restauração da ordem e da tradição, cada vez mais atrativas frente ao caos em que se transformou a Alemanha, depois da I Guerra. Para muitas, matar judeus ou perseguir o “bolchevismo judaico” significou servir ao novo regime com lealdade.

A autora desenha retratos biográficos de inúmeras mulheres. Algumas, em memórias e relatos procuram passar a idéia de que a guerra foi um capítulo dramático na vida de suas famílias. Não só. Legiões de jovens secretárias, auxiliares de escritório, arquivistas e telefonistas, depois de sofrer testes de aparência física, genealogia e caráter mantiveram a máquina da morte funcionando. Não só autorizando massacres, mas, participando de “caçadas” mortais a prisioneiros. Professoras ministravam aulas de “higiene racial” ensinando como distinguir quem era ariano e quem não era. “O ódio é nobre” – pregavam. Parteiras eliminavam crianças deficientes, deixando-as morrer de fome. Primeiras testemunhas do Holocausto, as enfermeiras assistiram a experimentos médicos e aplicavam injeções letais. Segundo uma delas, o processo da eliminação com gás era assustador, mas, não tão mau assim: “morte com gás não dói”.  Guardas se exibiam com seus chicotes e se destacavam por atirar na cabeça dos presos. Pelo menos 35 mil delas foram treinadas em Ravensbrück de onde partiam para diversos campos, inclusive Auschwitz-Birkenau. O uniforme era imponente, o salário bom e a perspectiva de exercer poder, sedutora. Atitudes humanas? Raríssimas.

Mas foi na frente Leste, ou seja, na Polônia, Ucrânia, Bielorrússia e Báltico, região considerada “ninho imundo de judeus”, que a barbárie feminina deixou seu melhor retrato. Frente a frente com o genocídio, mulheres assistiram a execuções em massa, pisotearam corpos recém-enterrados, participaram de “orgias de tiros”, executaram pessoalmente crianças e enfermos, massacraram bebês. Munidas de pistolas, não hesitavam em oferecer doces para depois atirar na boca de pequenos famintos. Senhoras da vida e da morte, podiam matar a costureira que não terminara seu serviço ou salvar a cabelereira que as atendesse bem. Sentimentos de desamparo, medo e frustração? Sim. Mas o que se havia de fazer? “Mamãe, o mundo é um enorme matadouro” – escreveu uma delas.

Lowell não lista apenas atrozes testemunhos. Ela revela uma Alemanha cada vez mais encarniçada na qual as mulheres matavam porque queriam. A atração do regime nazista, a mentalidade brutal, o antissemitismo sem limites tornavam-nas monstros. A Frente Leste se tornou a diabólica fogueira, cuja lenha elas forneceram sem dó nem piedade. Finda a guerra, as feras voltaram a ser belas. Não foram perseguidas, nem sequer julgadas. Ninguém acreditava que mulheres pudessem ter participado a tais monstruosidades. Afinal, esse não seria um comportamento feminino normal!

Longe das abordagens feministas que, por décadas, descreveram as mulheres apenas como vítimas, Lowell encarna a nova historiografia que as vê como atoras e agentes. Convicção e oportunismo explicaram a barbárie de saias. Ela sublinha a complexidade e a ambivalência de muitas delas. Mulheres que oscilaram entre anjo e demônio, entre vítima e cúmplice e que, para se justificar, alegaram obediência aos maridos e ao sistema. Lowell conclui que jamais saberemos tudo sobre o Holocausto ou o nazismo. Mas o que conhecemos é suficiente para ver do quê mulheres são capazes.

-Mary del Priore.

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Hitler foi eleito com massivo voto feminino.

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4 Comentários

  1. Rafael medvedchikoff disse:

    Nunca ouvi falar disso na revolução Russa foi minha família sai de lá por causa de assassinados da minha família procura os kzar Russos em nome de Nikolaevich que tu acha ruim

  2. José Maria disse:

    Falou sobre do que as mulheres eram capazes… Esqueceu da barbárie feita pelos porcos Russos e Ameri
    canos. Estuprando jovens e senhoras casadas. Mais de 500000 mulheres Alemãs estuprada e a história nada
    fala sobre essa barbárie feita pelos aliados.

  3. Eugenio Malta disse:

    procuro informacoes, qualquer que seja, sobre Fraulein Rautgundis Gaffran, tida como proxima e aprendiz direta com Hitler.

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