Mulheres de açúcar: revirando os baús…

Publicado em 7 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Sabemos que existiam senhoras de engenho, temos alguns nomes, conhecemos alguns de seus problemas, mas como elas eram? Vasculhar seus baús pode ajudar a imaginá-las. Como se vestiam, por exemplo? Numa época em que o dimorfismo sexual era lei, a figura feminina era marcada, nas partes baixas do corpo, pelas curvas, e no rosto pelos signos da feminilidade. A cabeleira em tranças e birotes era alvo de todas as preocupações. Monumento de afetação, ela se equilibrava graças às camadas de farinha empoadas pelas escravas. Embranquecer e perfumar os cabelos graças à utilização do amido, de ossos secos e transformados em pó depois de bem pilados, de madeiras raspadas e reduzidas a pó, era ofício dessas cúmplices da intimidade senhorial. Depois, os cabelos eram frisados, eriçados, encrespados e banhados em pomadas.

A má coloração da pele a as afecções cutâneas eram consideradas preocupantes. Para combatê-las, se usava certa farmacopeia doméstica à base de produtos que, ainda hoje vigoram: cera de abelha, mel, amêndoas doces, gordura de carneiro, água de rosas, leite de pepinos, glicerina, benjoim. A partir do século XVIII, o crescimento das trocas econômicas e comerciais incrementou o aparecimento de especiarias que vinham da Europa no fundo das naus: limão, arroz, manteiga de cacau que foram acrescidos ao receituário tradicional. Havia, contudo, produtos mais prosaicos. O “leite de mulher parida”, por exemplo, era considerado eficiente para a queda de cabelo, sinais e cicatrizes, erisipela, icterícia e “cancro”.

Normalmente se passava o tempo fazendo rendas. Se o trabalho de fiar algodão, reservado às escravas, era considerado cansativo, adornar panos caseiros, roupas, xales e redes era tarefa generalizada entre as mulheres das mais variadas condições sociais. Sentadas com as pernas cruzadas ao chão, frente a certa quantidade de bilros e uma almofada, seu trabalho funcionava ao mesmo tempo como fonte de lucro e diversão. O crivo, trabalho de agulha feito sobre desenho, com fios de linha e cerzido num padrão, complementava os adornos em qualquer vestimenta.

Sabe-se, também, que uma quantidade enorme de rendas era importada de Espanha e Portugal. Aqui, como lá, nenhuma mulher andava sem véus ou uma profusão de rendas nas roupas. A seda prestava-se bem para realçar tais trabalhos. De seda negra eram as mantilhas guarnecidas com rendas largas que serviam para tapar a cabeça, como um capuz, talvez para “embuçar” a dama nas ruas, em sua caminhada para a igreja. Há informações de que algumas eram tão grandes que só deixavam expostos os olhos, cobrindo toda a pessoa até os pés. Mulheres negras, de origem muçulmana ou não, cobriam-se com finos véus de algodão branco, tido por “o das mulheres do oriente” e longos mantos que lhes caíam até os pés, envolvendo todo o corpo. Em 1828, Debret pinta uma delas, enrolada em xale sobre vestido negro e com o rosto coberto por fina renda . Usavam-se também capas ou mantas em cores vivas, sobre vestidos de chita de tundá .

O anil, cuja plantação se desenvolvera no Rio, assim como o pau-brasil, era costumeiramente utilizados para tornar os tecidos mais atraentes. Urina era o produto mais utilizado na fixação das cores. Tal como na Europa moderna, onde tecidos caros serviam para a realização de modelos da moda, entre nós, as mulheres não pareciam ter dificuldade para escolher. Os percalços, contudo chegavam na hora do pagamento. Isso, pois mesmo sendo o ambiente da terra de grande precariedade e pobreza, vestir-se com apuro fazia parte das mentalidades e não se mediam esforços para aparecer bem.

Confirmando a hegemonia da aparência, a maior parte das mulheres só se vestia para ir às ruas. Era a confirmação do velho ditado; “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento!”. Em casa, cobertas com um “timão”, espécie de confortável camisolão branco em tecido leve, ocupavam-se nas atividades domésticas. Os cabelos, mal penteados ou “en papilottes”, segundo a inglesa Maria Graham, dava uma péssima impressão de desmazelo.  Pior, a tal camisola, deixava expostos os seios.

A simplicidade ou pobreza da indumentária contrastava com as joias. Sem elas, as mulheres não saiam às ruas. As escravas portavam figas, crucifixos e pencas de ouro. As senhoras, anéis, colares, brincos e braceletes ricamente trabalhados, tesouro que tanto podia ser presente do marido, quanto parte do dote de casamento. No início do século XIX, além de saírem aos domingos para confessar-se e ir à igreja nas proximidades dos engenhos, as mulheres vinham, de tempos em tempos ao Rio de Janeiro, exibir-se nas reuniões da Corte. Era aí que tiravam as joias do cofre. Pedras preciosas como esmeraldas, grisólitas, topázios brancos ou amarelos, diamantes rosas, águas marinhas, pérolas, além de vestidos bordados a ouro e prata, ousadamente decotados, à moda francesa da segunda década do Oitocentos, enchiam a platéia. Na cabeça colocavam quatro ou cinco plumas, importadas da França, inclinadas para frente, e na fronte, diademas incrustados de diamantes e pérolas.

Entre o mundo rural e o urbano, estabeleciam-se clivagens. No primeiro, os valores de estabilidade, identificado ao clima, à duração das peças e ao uso reiterado do vestuário, permaneciam regra. No segundo, se aguardava sofregamente as modas ditadas pelos membros da Corte ou trazidas pelas costureiras e cabeleireiros franceses estabelecidos na capital. – Mary del Priore

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Momentos na vida das mulheres da elite: Debret.

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