Mulheres contra a misoginia nas HQs

Publicado em 22 de agosto de 2015 por - Educação

Trina Robbins, uma importante pesquisadora norte-americana sobre mulheres e quadrinhos, veio ao Brasil para participar das 3ª Jornadas Internacionais de História em Quadrinhos, que foi realizada na USP. Na última terça-feira, dia 19, ela se reuniu com jovens quadrinistas brasileiras e uma plateia de pessoas apaixonadas pelo tema, na Gibiteca Henfil. Tive o privilégio de participar do evento, a convite da nossa colaboradora Natania Nogueira. E foi uma experiência incrível.

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 Trina (com a filha no colo) e seu grupo, nos anos 70.

Trina Robbins, além de ser pesquisadora e quadrinista, é uma excelente contadora de histórias e tem uma trajetória de vida fascinante. Um exemplo para as mulheres, principalmente para aquelas que atuam em áreas tradicionalmente masculinas, como HQs. Nos anos 60, quando se tornou uma das principais artistas do quadrinho underground nos EUA, ela produzia tiras para o jornal The East Village Other. Mesmo assim, enfrentou um ambiente hostil. “Muitos quadrinistas criavam histórias abertamente misóginas. E eu comecei a criticá-los de forma firme. Eles se defendiam, alegando que eu queria censurar o trabalho deles. E que eu não tinha senso de humor”, conta com uma boa gargalhada.

Essa tensão com os “rapazes” acabou isolando a jovem Trina, que, entretanto, logo encontrou a companhia de outras mulheres que atuavam na área e tinham as mesmas dificuldades. “Não me tornei amiga deles e eles não me chamavam para os eventos e grupos. Obviamente, eu não era muito popular entre os colegas homens pela minha postura crítica”. Em 1970, Trina produziu a primeira publicação em quadrinhos feita exclusivamente por mulheres (It Ain’t Me, Babe). Criou também a antologia Wimmen’s Comix (1972-1992), em que tratou de temas como aborto e homossexualismo.

Apesar do seu trabalho ter se originado nos quadrinhos undergrounds, Trina trabalhou para o mercado quadrinhos de super-heróis. Em 1980, ela criou uma minissérie com cinco edições chamada Misty, da linha infantojuvenil da Marvel que tinha como protagonista uma jovem que queria trabalhar no ramo da moda.Trina também lançou a primeira HQ sobre homossexualidade feminina, Sandy Comes Out, baseada na história de uma amiga, segundo ela.

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Em 1986, ela desenhou a Mulher Maravilha para uma série limitada chamada The Legend of Wonder Woman, escrita por Kurt Busiek. Trabalhou na hq Go,Girl (1986) com a artista Anne Timmons para Image Comics, em que a personagem principal é filha de uma ex-heroína que descobre que herdou os poderes da mãe. Trina também ajudou a projetar o traje de Vampirella para Forrest Ackerman e Warren Jim.

Mesmo com o sucesso, o machismo que impregnava o mercado de HQs incomodava muito Trina. “Diziam que mulheres não se interessavam por quadrinhos: não os liam e não os criavam. Então, para mostrar que havia público feminino e, sobretudo, grandes quadrinistas mulheres, comecei a pesquisar e escrever sobre o assunto. As mulheres quadrinistas eram deixadas de lado, pois, ninguém se preocupava em escrever sobre elas ou em resgatar seus trabalhos”, explica.

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Entre seus livros, estão: “Miss Fury”, um de seus mais importantes projetos, e Pretty in Ink”, o mais recente. Ainda nesse ano, Trina lança “Babe in Arms”, sobre as mulheres na 2ª Guerra Mundial. Já está à venda a coletânea “The Complete Wimmen’s Comixs”, em dois volumes. Trina foi também uma das fundadoras do Friends of Lulu, uma organização sem fins lucrativos, criada para promover a leitura de quadrinhos e a participação das mulheres.

Infelizmente, as jovens quadrinistas brasileiras – ainda hoje – enfrentam o preconceito e lidam com a resistência de alguns machões que atuam na área. Esse é um dos muitos motivos que tornam o trabalho de Trina é tão significativo.

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 Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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