Mulheres ciumentas: paixão, loucura e violência

Publicado em 21 de fevereiro de 2015 por - História do Brasil

Muito se fala sobre a ira dos maridos supostamente traídos – porque houve tempo em que a simples desconfiança já bastava -, que cegos de ciúme assassinavam ou cometiam atos violentos contra suas esposas, noivas e amantes. As mulheres, contudo, também protagonizaram histórias trágicas. A diferença é que a lei era bastante tolerante com a “defesa da honra” masculina. Segundo as Ordenações Filipinas: “Achando o homem casado sua mulher em adultério, licitamente poderá matar assim a ela, como o adúltero, salvo se o marido for peão, e o adúltero, fidalgo, desembargador, ou pessoa de maior qualidade”.

Outro fator importante era a posição social dos envolvidos: enquanto a condição do parceiro do adultério era levada em conta, a da adúltera não tinha a menor importância. Tanto podia ser morta pelo marido a plebeia como a nobre.  Outra punição para as adúlteras podia ser o confinamento em um convento. No Brasil, de acordo com o Código Penal de 1890, só a mulher era penalizada e punida por adultério, com prisão celular de um a três anos. O homem, só era considerado adúltero no caso de possuir concubina teúda e manteúda, e isto era considerado um assunto privado.

Mesmo assim, muitas não hesitavam em pedir ajuda aos poderes públicos nos casos mais graves. Mary del Priore, em “História do Amor no Brasil”, destaca que se acreditava que os amores produzidos no “apetite e na desordem”, feitos de paixão, eram também recheados de ciúme feroz. O amor regrado e contido, pregado pela Igreja e pelas convenções, era seguro, mas aquele nascido dos “desejos da carne” só poderia trazer consequências perigosas, sendo a mais a extrema a morte.

Vejamos exemplos de mulheres que desafiaram as regras sociais por causa do ciúme. O primeiro caso é de duas mulheres que brigavam pelo mesmo homem. Certa Rita Maria Alves Pimenta, em meados do século XVIII em Minas Gerais, queixava-se a um delegado que:

“…no dia 11 de julho as 7 horas da noite pouco mais ou menos, estando em sua casa pacificamente entrara sem seu consentimento Geralda Crioula com cipó na mão descompondo a suplicante com palavras injuriosas dando-lhe varias cipoadas e pegando-lhe nos cabelos chegando agarrar-se a suplicante arranhando-lhe toda e fazendo-lhe contusões, como visivelmente se vê, e como tal procedimento seja irregular e muito atrevido quer a suplicante sua justiça …” .

A ré, Geralda Crioula, filha de Ana Crioula, 30 anos, casada, justificou a sua ação dizendo que:

“… indo a procura de certo sujeito o qual é cativo, o encontrara saindo da casa da autora, a qual o acompanhando no chegar da porta da rua, lançava se ela apaixonada por já estar com seu sujeito a muito tempo sabe a autora, e ai tiveram lugar agarrando-lhe pelos cabelos, mas que não lhe dera com o cipó como ela autora diz em sua queixa, antes ela autora, fora que lhe ficara com o vestido nas mãos, indo ela ré só com o pano do mesmo de volta para sua casa, o que teve lugar em a noite de Domingo passado, e que d’este modo tem ela alegado a sua razão …”.

Outra cena pública de ciúme, desta vez envolvendo duas mulheres amantes, teve como personagem principal Isabel Antônia, apelidada “a do veludo”, referência ao falo que usava nas relações. Ela tinha conturbada relação com Francisca Luiz, causando grande escândalo na cidade de Salvador, pela violência e excessivo zelo que tinha com a amante.  Em certa ocasião, ao saber que a amiga tinha saído com um homem, dirigiu-se a ela, aos brados de: “Velhaca! Quantos beijos dás ao seu coxo (amante) e abraços não dás a mim! Não sabes que quero mais a um cono que a quantos caralhos aqui há”. Disse isso tudo aos berros, pegando-a pelos cabelos, trazendo-a à porta de casa com bofetões à vista dos vizinhos. (1580, Salvador).

No século XIX, os boatos maliciosos cercavam Carlota Joaquina. De temperamento irascível, ambiciosa e atrevida – traços que contrastavam demasiadamente com o comportamento bonachão de seu marido D. João VI -, a espanhola tinha fama de adúltera. Dizia-se, à boca pequena, que a rainha tivera um envolvimento com o comandante das tropas navais britânicas, Sydney Smith. A este, Carlota teria dado de presente uma espada e um anel de brilhantes. Mas o britânico parece não ter sido o único. Ciumenta, comentava-se também que teria ordenado o assassinato com um tiro de bacamarte da mulher de um funcionário do Banco do Brasil, sua rival. Mas, como entre a nobreza tudo era permitido, ficou o dito pelo não dito…(“A Carne e o Sangue”, de Mary del Priore).

No início do século XX, psicólogos e juristas se preocupavam em mostrar que o chamado crime passional era uma mera expansão brutal do instinto sexual que cabia à civilização controlar, sendo este instinto ativo no homem, enquanto na mulher ele se manifestava pela passividade. E a convicção da inércia feminina era tão forte, que pouco a pouco, ela vai sendo excluída dos crimes passionais, conta-nos Mary del Priore. Mesmo nessas ocasiões, a mulher era vítima de seus desejos e paixões, sendo vista mais como “doente” que como criminosa.

O exemplo é o caso da prostituta Anita Rodrigues que atingiu seu amante, com vitríolo, em 1915. Tida por mulher ordeira, que tinha pelo “ofendido grande afeição”, Anita se vê explorada e, sob ameaça de abandono, por não conseguir dinheiro suficiente para o seu cafetão, César Virtulli. Segundo o advogado de defesa, isso lhe teria despertado “a ferocidade do ciúme pela tirania da paixão”, causando loucura momentânea. É interessante percorrer, nas linhas do processo, a forma como o amor podia tornar-se uma arma, nas mãos de “uma pobre artista atirada ao comércio do amor”.

Paixões contrariadas podiam obscurecer a razão e eis como Anita, “abandonada por seu amante, insensível a todas as tentativas de reconciliação, ferida em seu amor próprio, impelida pelo ciúme, concebeu uma reação. A dor e o desespero teriam lhe lançado em seu espírito fraco e doentio, a idéia fixa da vingança que transmigrou do cenário fisiológico para o patológico, que transformando-se em ideia delirante explodiu na noite de 30 de maio, impelindo seu braço hesitante ao vitriolamento do amante”. Depois de longos debates, a prostituta foi punida com prisão por dois anos. Foi considerada vítima de uma paixão erótico-patológica. Como ela, outras tantas mulheres atiraram, esfaquearam e mataram seus amantes, companheiros, concubinos, lembra a autora.

Nessa época, entendia-se que a mulher deveria ser tolerante com as “escapadelas” do marido. Afinal, era “coisa de homem”, enquanto a fidelidade era um dever da esposa. As revistas femininas, na virada do século XIX para o XX, alardeavam a importância do amor para o sucesso do casamento, porém, o ideal era aquele amor tranquilo, regrado e baseado no companheirismo. A paixão continuava a ser temida. Nas páginas das publicações voltadas para mulheres, multiplicavam as fórmulas impressas sobre “como garantir a felicidade para sempre”. A novidade era o conceito de “lar” associado ao casamento: casa limpa, bem cuidada, sem luxo nem muitas despesas. A Revista Feminina publicava uma coluna intitulada “o cardápio do meu marido”. Em certo artigo o articulista alertava: “E se quiserdes completar a vossa felicidade, o ciúme, varrei-o para sempre das vossas casas, dando de quando em vez, ao vosso marido, um dedinho de liberdade”.

O adultério, contudo, continuava a acabar em tragédia, das mais variadas formas. Em 1960, a terrível história da “Fera da Penha” dominou a imprensa.  Neide Maria Maia Lopes foi presa e condenada pelo de sequestro e assassinato de uma criança de 4 anos. O motivo: ciúme. A moça mantinha um romance com Antônio, que um dia lhe contou ser casado e pai de duas filhas. Neide elaborou uma vingança cruel. Após aproximar-se da mulher e das filhas do amante, sem que este soubesse, deu um jeito de pegar a menina Tânia na escola para depois matá-la friamente. Os detalhes são sórdidos: em um galpão desativado do Matadouro da Penha, Neide atirou na garota e então incendiou o corpo.

Bom, como vimos, para muitas não adiantaram os conselhos e admoestações: corroídas pelo ciúme e pelo abandono, fizeram uso da violência para se vingar de seus maridos e companheiros. Outras, após anos de maus tratos e abusos, chegaram ao extremo de matar para se libertar de seus algozes. A paixão realmente é um sentimento muito perigoso…

– Márcia Pinna Raspanti.

Medéia - Delacroix

O mito de Medeia: ela mata os filhos para se vingar de Jasão. (quadro de Delacroix).

 

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1 Comentário

  1. Orlando disse:

    O tempo passa mas hábitos e sentimentos remanescem. Importantes pontos do comportamento que a legalidade vem acompanhando quanto à semelhança do sentimento, qualquer que seja o parceiro atingido pela ocorrência, do dito comportamento adúltero. Deixar a alma escorrer pelo proibido, velado, o intolerado, por troca do prazer embriagante, até , talvez, por algo que não valha a pena….mas apenas pela aventura….um mergulhar no desconhecido, insólito e embriagante.

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