Mudanças à mesa

Publicado em 11 de abril de 2014 por - História do Brasil

A mudança de hábitos que surgiu no século XIX atingiu as cozinhas também. Tradicionalmente, a alimentação era alvo de preocupações femininas e mulheres, por vezes a senhora junto com as escravas, – como pude verificar em recente leitura dos diários de uma conhecida dama do II Reinado – ou só as cozinheiras, preparavam um cardápio sem muitas variações, o que incomodava os estrangeiros de passagem. Peixes, frutas e vegetais eram à base das refeições. Nas regiões do atual Botafogo e Gávea, expandiam-se pequenas chácaras e aí, medravam as hortas. A couve, a ervilha, a fava, o feijão e o nabos  – legumes de qualidade inferior aos europeus, segundo alguns viajantes – cresciam em abundância, assim como melancias, abacaxis, melões doces, laranjas, limões, bananas, mangas, cajus, nozes, jambos de duas espécies, cocos, nozes de palmeira. A estação de colheita era o verão. “Os inhames e a mandioca, conhecida nas ilhas da América como cassava, crescem abundantemente nos jardins locais. A farinha dessa última é denominada farinha de pau”, explicava um inglês. A carne bovina era pouca, pois segundo a maior parte dos relatos, as pastagens eram ruins. “Esta última é preparada pelos habitantes locais que, após retirar os ossos e cortar a carne verde em fatias largas e finas, a salgam e colocam para secar na sombra. Quando seca, ela conserva suas qualidades por muito mais tempo. É raro nessas plagas encontrar carne de carneiro; os porcos e as aves domésticas são muito caros”

Fazendo jus à tese de Luis da Câmara Cascudo, no seu “História da Alimentação no Brasil”, o Rio de Janeiro faria parte do que denomina complexo peixe-farinha, uma vez que as águas da baía eram extremamente piscosas. “Nós nunca tínhamos visto um lugar com tamanha quantidade de peixes como a baía e a costa do Rio de Janeiro. Praticamente não havia um dia nem que não fosse trazido a bordo um exemplar de uma espécie completamente desconhecida do Senhor Banks. A baía é muito apropriada para a pesca pois é cheia de pequenas ilhas e de pontas de terra com pouca profundidade onde se pode facilmente manusear um arrastão. Do lado de fora da baía, o mar abunda de golfinhos e de grandes sororocas. Esses peixes mordem a isca com tanta facilidade que os habitantes locais têm por hábito andar com um anzol atado na parte traseira do barco”, explicava o mesmo viajante Banks.

Os peixes mais apreciados eram o cherne, a cavala e a anchova, espécies grandes que os viajantes julgavam de qualidade superior. “Nas peixarias, situadas no lado noroeste da cidade, passam de 60 as espécies de pescados à venda. Costumávamos percorrer essas bancas simplesmente para apreciar a abundância da mercadoria exposta. Há poucos peixes no interior da baía, o que obriga os pescadores a irem capturá-los no mar. Os melhores locais para a pesca são a Ilha Grande, Ubatuba, São Sebastião e, sobretudo, Cabo Frio. Os navegantes têm por hábito salgar as tainhas, os chernes e os namorados e utilizá-los nos seus ranchos; outro peixe que é salgado e consumido nessas ocasiões é o peixe de Angola, cujo gosto é sofrível. A farinha de pau fez as vezes de pão nessas plagas. Estranhamente os habitantes ficam muito desgostosos quando um estrangeiro menciona o gosto que tem por tal produto, Impressionou-me muito a agilidade com que o consomem; tomam um punhado entre os dedos e, à distância de um palmo atiram para a boca sem perder um único farelo. O uso do pão porém está cada vez mais generalizado, sobretudo depois que o Rio Grande passou a enviar trigo para a cidade. Um pão grande de boa qualidade, custa um vintém. A carne de porco, o arroz e os doces, abundantemente consumidos, constituem os alimentos preferidos dos habitantes”, diz um viajante espanhol. Enquanto ás vésperas da chegada da família real portuguesa, Lord Macarteney, irá colaborar para se ter melhor ideia da ração diária:

“A alimentação dos habitantes do Rio de Janeiro é à base de peixes, frutas e vegetais, sem falar da tradicional farinha de mandioca. Os pratos que apreciam são, em geral, cobertos com essa farinha, mergulhados em gordura quente transformados em pequenos bolos. Raramente eles bebem leite ou comem manteiga e queijos. Foi com muito custo que conseguimos um pouco de leite para o nosso chá e o que encontramos era de péssima qualidade. A carne bovina é magra e detestável; quanto à carne de carneiro, nem a peso de ouro é possível encontrá-la na cidade. Os frangos e os perus, por outro lado, são bastante comuns e de qualidade razoável. O mercado é provido de uma grande variedade de peixes, todos excelentes. O pão, feito com a farinha de trigo que cresce na região meridional é muito bom e as frutas, mais do que em qualquer outra parte do mundo, são deliciosas”.  – Mary del Priore

vendedoresmilhodebret

 

Vendedores de milho, de Debret.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!