Modas e modos nos tempos do Império

Publicado em 12 de agosto de 2017 por - artigos

      A aparência tinha muito a dizer sobre a sociedade nos tempos do Império. O homem tentava fazer da mulher uma criatura tão diferente dele, quanto possível. Ele, o sexo forte, ela o fraco; ele o sexo nobre, ela, o belo.  O culto pela mulher frágil, que se reflete nesta etiqueta e na literatura e também no erotismo de músicas açucaradas, de pinturas românticas; esse culto pela mulher é, segundo Gilberto Freyre, um culto narcisista de homem patriarcal, de sexo   dominante que se serve do oprimido – dos pés, das mãos, das tranças, do pescoço, das ancas, das coxas, dos seios como de alguma coisa quente e doce que lhe amacie, excite e aumente a voluptuosidade e o gozo. Nesse culto, o homem aprecia a fragilidade feminina para sentir-se mais forte, mais dominador.

        Todo o jogo de aparências colaborava para acentuar a diferença: a mulher tinha que ser dona de pés minúsculos. Seu cabelo tinha que ser longo e abundante, preso em penteados elaboradíssimos para fazer frente a bigodes e barbas igualmente hirsutos. Homem sem barba era maricas! A cintura feminina era esmagada ou triturada por poderosos espartilhos, acentuando os seios aprisionados nos decotes – o peito de pomba – e o traseiro, aumentado graças às anquinhas. Tal armadura era responsável, segundo os médicos mais esclarecidos por problemas respiratórios e hemoptises, ajudando a desenhar a figura da heroína romântica, “a pálida virgem dos sonhos do poeta”, doente do pulmão. A complicação das roupas tinha um efeito perverso: ela suscitava um erotismo difuso que se fixava no couro das botinas, no vislumbre de uma panturrilha, num colo disfarçado sob rendas.

       Elegância masculina? Só à inglesa. Afinal, os comerciantes da Velha Álbion dominavam a venda de tecidos masculinos nas principais praças. Dificilmente se tornavam alfaiates, como os franceses. Com a Revolução Industrial, os trajes masculinos se tornaram mais despojados e austeros, deixando de lado os ornamentos e bordados, as joias e as cores vivas, típicas da vida nas Cortes europeias – explica a historiadora Márcia Pinna Raspanti. O campo era a inspiração para os trajes masculinos, já que a aristocracia inglesa tinha grande apreço pelos esportes e hábitos campestres. Os hábitos burgueses impactaram a moda e os homens passaram a associar a elegância a uma postura mais séria e discreta, deixando o mundo da futilidade e da ostentação para as mulheres.

            O uso de joias era moderado, restringindo-se aos alfinetes de gravata, anéis, apetrechos de fumo em prata e relógio de bolso. O terno com paletó mais curto só chegaria ao Brasil no final do século, substituindo as casacas compridas. Os senhores de engenho do Nordeste exibiam casaca e colete escuros, de alpaca ou lã, calças claras ou escuras com vincos laterais, de flanela, feltro ou linho. Gravatas e chapéu preto de copa dura eram obrigatórios. As barbas tinham que estar aparadas e os cabelos, em geral, tratados com brilhantina. No rosto usavam-se “felpas de pera”, ou pequeno cavanhaque no queixo. A julgar pelo exemplo de Félix de Cavalcanti de Albuquerque, homens de certo nível não saíam a rua sem o croisé ou a sobrecasaca preta. As roupas de maior luxo eram feitas em alfaiate. No Recife, o da “Casa Imperial”, ou o Pavão, na Rua da Imperatriz. Gravatas de seda e camisas de linho podiam ser compradas em armazéns de fazendas inglesas. Nos pés, botinas pretas. Ninguém sem guarda-chuva, nem o Imperador D. Pedro II, símbolo de autoridade mais burguesa do que aristocrática. Ele, aliás, sempre vestido de sobrecasaca e cartola pretas, representava a gravidade e a solenidade que caracterizavam o Segundo Reinado.

          Segundo a mesma autora, os artistas, principalmente fotógrafos e pintores, suavam gravatas de seda largas com nó desleixado, casaco de transpasse alto e gola curta. Já os professores de Direito eram reconhecidos por suas sobrecasacas negras e capas sem mangas – as opas -, típicas das várias confrarias. Havia também os trajes regionais. Os sertanejos costumavam trajar chapéu de couro, gibão, guarda-peitos, perneiras, luvas e peia-boi; o gaúcho tinha visual semelhante com o acréscimo do poncho. Nas áreas rurais, em casas-grandes ou fazendas de café era costume oferecer aos convidados um casaco leve de linho, seda ou alpaca, para substituir os casacos de cores escuras e tecidos mais pesados durante as refeições. O que os deixava mais confortáveis. O transporte por via férrea trouxe uma contribuição interessante para o vestuário masculino: os ingleses introduziram o guarda-pó branco, de algodão ou linho, usado nas viagens de trem. Na segunda metade do século XIX, o artigo se tornou moda entre os abastados que circulavam nos vagões. O robe de chambre, de veludo colorido e brocados, também tiveram alguma penetração no Brasil entre os mais ricos.

        Durante o século XIX, diz Márcia Raspanti, o costume de demonstrar a posição social por meio do vestuário e pequenas ostentações fazia parte da sociedade. Aluísio de Azevedo, em O Cortiço, descreve com deliciosa ironia o esforço necessário para que um homem de origem mais humilde fosse aceito entre a elite. A transformação de João Romão, dono de um cortiço e de rudes maneiras, em um distinto burguês, demonstra que apenas amealhar fortuna não era suficiente para obter ascensão social:

“Mandou fazer boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco e de meias, assentado defronte da venda, a ler jornais. Depois deu para sair a passeio, vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabelo á escovinha; pôs a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que ele agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Não era mais o mesmo lambuzão! E não parou por aí; fez-se sócio de um club de dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a usar relógio e cadeia de ouro”.

       Já o tipógrafo Porfiro, outro personagem da cidade, esse um mulato mais velho e dono de cabeleira encarapinhada, “não dispensava sua gravata de cor, saltando em laço frouxo sobre o peito da camisa; fazia questão de sua bengalinha com cabeça de prata e de sua piteira de âmbar e espuma, em que ele equilibrava um cigarro de palha”.

 – Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2). Editora LeYa, 2016.

 

“A family going to mass”, de Frederico Guilherme Briggs (1845).

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