Moda e elegância nos tempos imperiais

Publicado em 4 de novembro de 2013 por - História do Brasil

            No século XIX, as terras coloniais passam por diversas mudanças políticas e sociais, a começar pela vinda da Família Real Portuguesa em 1808, deslocando a corte e administração da Coroa Portuguesa para o Brasil. Em termos de modas, houve certo rebuliço com chegada da realeza portuguesa, ainda que falida e pouco dada a luxos. O príncipe regente era um gordo e baixo senhor, vestido de casaca comprida, camisa branca e colete, meias de seda, calções de cetim na altura do joelho, sapatinhos delicados com fivelas de ouro – pelo menos ele foi assim retratado pelos pintores da época. Segundo alguns cronistas, seus trajes eram engordurados e puídos, sem qualquer traço de elegância.

            Mesmo com as limitações financeiras da corte portuguesa e sua falta de refinamento, a vida social tornou-se um pouco mais movimentada no Rio de Janeiro. As famílias fidalgas tiveram mais oportunidades de frequentar bailes, espetáculos de teatro, comemorações do calendário oficial da Coroa e as famosas cerimônias do “beija-mão” – já arcaicas no restante da Europa, mas preservadas pelos portugueses. Nestas ocasiões, os senhores mais abastados podiam exibir em público seus fraques, cartolas, bengalas e camisas de seda.

            O primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I, apesar de ser considerado um homem atraente, também não ficou particularmente conhecido pela elegância no vestir e nas maneiras. A francesa Rose Freycinet, em visita ao país em 1817, não faz um retrato muito favorável do então príncipe de Portugal e nem de seu pai, D. João VI:

            “O príncipe real é alto e bastante bonito, mas suas maneiras são péssimas e a sua pessoa vulgar. Vestia-se, na ocasião (uma missa na capela real), com um fraque marrom e uma calça de nanquim, traje bastante ridículo para as 8 horas da noite, numa grande festa pública. Ainda que mais simples, o traje do rei era bem melhor; além do mais, ele é um homem de idade, a quem se permite mais”.

            A moda masculina no Segundo Império foi marcada pela austeridade: sobrecasaca comprida e cartola preta, bengala, relógio de bolso e colete. A figura de D. Pedro II ilustra bem o modelo de elegância dos homens da elite da época. Com um estilo pessoal pouco dado à pompa e à ostentação, o imperador aparece quase sempre retratado nestes trajes. Em ocasiões muito especiais, como a coroação (1841), o monarca aparece com todo o aparato de gala, envergando capa, cetro e coroa. Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), D. Pedro fez questão de usar o uniforme militar.

            A corte imperial seguia o estilo de D. Pedro II com poucos bailes, saraus e jantares de pompa. Apenas nos primeiros anos de governo, o jovem imperador empenhou-se em fazer parte dos bailes e festas. O casamento com a imperatriz Teresa Cristina, que era reservada e discreta como o marido, contribuiu para que a corte brasileira fosse conhecida pela sua vida social quase que inexistente. As relações do imperador com a Condessa de Barral, mulher acostumada aos melhores salões de Paris que foi preceptora das suas filhas e sua amante por décadas, trouxe algum refinamento à corte e as maneiras da família imperial. 

            O cotidiano no palácio era considerado deprimente pelos visitantes, e a falta de sofisticação do imperador era indisfarçável. “A ridícula tradição do beija-mão sobreviveu aos tempos e continuava. A carruagem era do século anterior, velha e feia. Os jantares no palácio eram um suplício. No menu, canja. A comida era ruim, não se tomavam vinhos e o imperador engolia a refeição em segundos. Não se praticava a “arte da conversação” tão prezada no exterior. Não só os serviços – ou seja, a sucessão de pratos – eram praticamente ignorados, mas os empregados estavam sempre malvestidos”.

            Talvez o baile mais famoso do Segundo Reinado, que entrou para a História como o prenúncio melancólico do regime, seja o Baile da Ilha Fiscal que ocorreu seis dias antes do golpe que derrubou D. Pedro II. O motivo oficial da grande festa foi prestar uma homenagem aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane, mas os cronistas dizem que a ideia era tentar melhorar as relações com a aristocracia e o Exército. Foram distribuídos mais de dois mil convites e as lojas que comercializavam roupas finas no Rio de Janeiro logo tiveram seus estoques esgotados. O imperador chegou ao baile acompanhado da família real, trajando uma casaca preta folgada e o visual severo que ele tanto apreciava. Conta-se que durante o baile D. Pedro II o imperador tropeçou no tapete e foi amparado por um jornalista. Espirituoso, teria dito: “a monarquia escorregou, mas não caiu”, porém, o seu governo já estava com os dias contados.

            As grandes cerimônias, como narra o historiador José Murilo de Carvalho, só ocorriam nas datas oficiais e no paço da cidade. O cortejo vinha em carruagens do palácio de São Cristóvão, com escolta da cavalaria. O imperador surgia, a contragosto, em seu uniforme de marechal-de-exército. D. Pedro II considerava tais ocasiões como uma obrigação aborrecida, uma grande maçada, em suma. O monarca sempre preferiu as conversas e reuniões privadas, as atividades intelectuais e a simplicidade. D. Pedro II manteve-se fiel ao seu estilo de vida até sua morte, exilado e triste em Paris, no dia 5 de dezembro de 1891.

            Em contraste ao imperador, austero e avesso ao exibicionismo, é interessante analisar uma figura importante no Segundo Império e na República Velha, que se destacou pela atuação política e pelos dotes pessoais: Joaquim Nabuco. Filho do senador Nabuco de Araújo, proveniente de uma família tradicional de Pernambuco, Nabuco encarnava o modelo de homem admirado e invejado na época. Mesmo sem possuir fortuna, o diplomata, político e homem de letras tinha uma formação intelectual sólida, boas maneiras, beleza e estava sempre elegante, em harmonia com as modas que dominavam os salões mais refinados.

            Amigo de D. Pedro II, Nabuco ficou conhecido pela atuação na campanha abolicionista e seus belos discursos na Câmara dos Deputados. O Correio do Povo, na ocasião de sua morte, em janeiro de 1910, informava que o diplomata ainda era considerado “o moço mais belo do Rio de Janeiro, no período de 1864 a1880, constituindo-se um verdadeiro árbitro da elegância e encantando as mulheres com seus dotes excepcionais da sua formosura física e com o deslumbrante prestígio de seu valor intelectual. A sua entrada num teatro ou salão de baile produzia sensação entre as damas, que todas elas o admiravam e muitas delas o amavam…”.

            Alto, bem proporcionado, pele alva, bigode minuciosamente torcido, rosto escanhoado, assim Joaquim Nabuco é descrito pelos seus contemporâneos. Vaidoso e de maneiras finíssimas, dominava todos os rituais e artifícios necessários para um homem de seu grupo social. Circulava sempre bem vestido, com casaca comprida, colete, calças com vinco, colarinho engomado, bengala, chapéu e sapatos lustrosos. Não se descuidava da aparência nem mesmo para trabalhar em seu escritório de advogado na sua residência no Catete.

            É interessante notar que a graça masculina, na época, não se resumia ao vestuário e aos cuidados com a aparência, mas abrangia uma série de outras habilidades sociais. Joaquim Nabuco dominava os salões que frequentava: a oratória era seu forte. Na “arte da conversação”, Nabuco, ao contrário do imperador, sabia se destacar e demonstrar cultura, inteligência e agudeza de espírito. A educação de um jovem da elite deveria ser planejada minuciosamente, era necessário estudar, aprender línguas estrangeiras (o francês era importantíssimo), boas maneiras, conversar com desembaraço, ter boa postura, ser discreto e, ao mesmo tempo, marcante. Fazer um casamento, com uma noiva rica e bem vista pela sociedade, era outra tarefa que os homens daquele tempo deveriam cumprir com eficiência.

            O neto preferido de D. Pedro II, príncipe Pedro Augusto de Saxe e Coburgo (1866-1934), filho de D. Leopoldina, é um exemplo da formação que um jovem da elite recebia. Com a esperança de herdar o trono e tornar-se Pedro III, o rapaz forjou-se em meio à sofisticação, erudição e elegância, mas era parecido com o avô na timidez, principalmente com as moças. Uma boa educação, contudo, transformava mesmo os mais inibidos em homens simpáticos e socialmente adequados. Era bonito, alto, tinha porte, olhos azuis, enfim, era imagem dos príncipes de contos de fadas.

            As atividades esportivas e viris eram muito importantes: caça, boxe, duelos com facas e espadas. O rapaz da aristocracia deveria provar a todos que não era efeminado e tinha a agressividade necessária a um homem de verdade. Pedro Augusto era obrigado a fazer exercícios, muitos deles considerados violentos. Era preciso combater algumas características do menino que lembravam o avô imperador, como a lentidão dos gestos, o caráter mais reservado e melancólico. 

            Pedro ficou conhecido por sua distinção, tanto na Europa quanto no Brasil. Circulava pelos melhores salões, teatros, saraus e festas. Vestia-se de maneira discreta, porém, impecável. Foi educado na Europa, mas passava muito tempo no Brasil e estabeleceu-se aqui na juventude. Não se descuidava da aparência e gastava muito dinheiro para manter uma casa luxuosa, onde recebia as pessoas importantes para seus projetos políticos. Frustrados seus planos para se tornar o terceiro imperador do País, Pedro entrou em um processo de depressão profunda e acabou se suicidando em um sanatório na Áustria, após décadas de sofrimento, em 1934.

            Pode-se concluir que não era tão simples se encaixar dos padrões de masculinidade naqueles tempos. Mais do que tudo, cabia aos homens representar a sua classe social e a sua família perante o restante da sociedade. Era preciso ainda afirmar sua virilidade, sem deixar a vaidade de lado. Os tímidos, os desajeitados, os feios e os desleixados não tinham espaço neste jogo complexo, sutil e perigoso. – Márcia Pinna Raspanti

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D. João VI: em trajes luxuosos, apesar ser descrito como desleixado; Joaquim Nabuco: beleza, elegância, virilidade e a arte da oratória, uma combinação quase perfeita para a época.

 

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3 Comentários

  1. camila disse:

    legal,mas faltou algumas coisas

    • marcia disse:

      Sim , com certeza, apenas um artigo não cobre todo o período, já que apresentamos somente um panorama geral da época. Um dos objetivos do blog é exatamente levar o leitor a se aprofundar nos assuntos que lhe interessem. Caso você queira indicações bibliográficas sobre questões mais específicas, teremos todo o prazer em ajudá-la. Obrigada.

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