Meninas-mulheres: polêmica ou exploração?

Publicado em 13 de setembro de 2014 por - temas atuais

Confesso que fiquei um tanto chocada com as fotos de meninas em poses sensuais nas páginas da revista Vogue Kids. Parece também que não fui a única: a justiça decidiu recolher a publicação por entender que o conteúdo era inadequado. Muita gente pode achar exagero, mas não é. A questão da pedofilia é séria, e a sensualização precoce – e quase explícita neste caso – deve ser combatida.

Será que ninguém viu “nada de mais” em publicar imagens de crianças de lingerie e biquínis, pernas abertas, blusas e saias levantadas? A editora alega que não teve a intenção de expor as jovens modelos, mas a verdade é que o ensaio passou dos limites. A obsessão dos dias atuais por “gerar polêmica”, muitas vezes, traz resultados desastrosos.

Mary del Priore lembra que a nossa sociedade está impregnada de comportamentos que sensualizam  nossas meninas: as gestações de adolescentes, a supervalorização do corpo, o hedonismo crescente gerando “paquitas”, “funkeiras” e outras aberrações.

A história do Brasil contem exemplos chocantes de sexualização da infância. Ontem mesmo citei um fato terrível: Gilberto Freyre, baseado em documentos do século XVIII, comprovou que era costume jovens senhores de engenho estuprarem meninas escravas com a finalidade de transmitir-lhes sífilis e curarem-se. “Os Inquisidores do Santo Ofício passavam batido por casos em que homens maduros sodomizavam meninotas de 7 anos. Perseguiam-se os adultos “per desperdício de semem” — pecado gravíssimo, associado ao nanismo — e não por pedofilia”, conta Mary.

Outro acontecimento corriqueiro, pelo menos até fins do século XIX, era a união de meninas de oito, dez ou doze anos, com homens muito mais velhos, senhores de 50, 60 anos. Segundo a historiadora Tânia Quintaneiro, não era raro, a menina branca das famílias de posses, entrar como objeto de barganha entre seu pai e algum senhor, possivelmente bem estabelecido, idoso ou mesmo seu parente próximo, que desejava casar-se e ter filhos. Tais comportamentos não escandalizavam os brasileiros, afinal as mulheres serviam basicamente para procriar, então, quanto mais cedo casassem, melhor.

Em 1735, um ouvidor português em viagem pelos sertões mineiros encontrou uma jovem mãe de dez anos. Leocádia era seu nome, tinha três filhos e vivia amancebada desde os oito. “Viajantes estrangeiros que cruzaram o Brasil, durante o século XIX, não deixaram de perceber, escandalizados, a forma pela qual a criança entrava precocemente no mundo dos adultos. Vestiam-se como eles, fumavam, davam ordens aos gritos, distribuíam chutes e pontapés reproduzindo a violência da sociedade escravista”, conta Mary del Priore.

É triste para o historiador perceber que, apesar de tantas mudanças ao longo dos séculos, existem ainda permanências com relação a sexualidade na infância. “A menina que, no passado, servia de vacina para a sífilis do sinhozinho está, hoje, nas páginas da internet, nos sites de pornografia infantil. A reação hoje, diferentemente daquela do Inquisidor do século XVIII, não é o silêncio. Mas o grito de horror”, diz Mary.

Portanto, acho que é importante a sociedade se manifestar quando ocorre este tipo de coisa: não podemos achar “normal” imagens de crianças em poses sensuais, sendo vendidas “inocentemente” em uma revista de moda. Não somos mais os inquisidores do passado, que preferiam se calar. – Márcia Pinna Raspanti.

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“As meninas”, de Velásquez.

*optamos por não reproduzir as fotos do ensaio, para não propagar ainda mais as imagens.

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2 Comentários

  1. Suzana disse:

    Muito lúcidas suas colocações e relevantes as informações históricas. Não dá para achar normal uma violência dessas.

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