Marcha das Mulheres Negras: vamos mudar a História?

Publicado em 18 de novembro de 2015 por - temas atuais

Os colonizadores portugueses tinham em mente um modelo de sociedade a ser implantada nas terras da América: patriarcal, baseada na posse da terra, na religião católica, no conceito de cor e de pureza de sangue. Transplantava-se assim, um ideal de sociedade europeia, que obviamente passou por uma série de adaptações para se consolidar no Brasil. Ser mulher, em uma sociedade patriarcal, era ser inferior. A mulher tinha como função servir o homem: as brancas como parideiras e donas de casa; as negras para trabalhar e para os apetites sexuais. “Branca para casar, negra para trabalhar, mulata para f…”, era o ditado da época.

Temperadas por violência real ou simbólica, as relações eram vincadas por maus-tratos de todo tipo, como se veem nos processos de divórcio, nos conta Mary del Priore. “Acrescente-se à rudeza atribuída aos homens o tradicional racismo, que campeou por toda parte: estudos comprovam que os gestos mais diretos e a linguagem mais chula eram reservados a negras escravas e forras ou mulatas; às brancas se direcionavam galanteios e palavras amorosas. Os convites diretos para fornicação eram feitos predominantemente às negras e pardas, fossem escravas ou forras. Afinal, a misoginia – ódio das mulheres – racista da sociedade colonial as classificava como fáceis, alvos naturais de investidas sexuais, com quem se podia ir direto ao assunto sem causar melindres”.

Hoje, passados mais de 120 anos da abolição da escravidão ainda pagamos um preço alto pelo nosso passado. Somos racistas, mas negamos veementemente (conheço poucos brasileiros que admitem abertamente o racismo). Queremos crer que vivemos na tal “democracia racial”. Mas a realidade é bem diferente. Misoginia e racismo fazem uma combinação perigosa.

O Brasil ocupa a incomoda quinta posição em ranking global de homicídios de mulheres, entre 83 países elencados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2013, a taxa de mortes por assassinato de mulheres para cada 100 mil habitantes foi de 4,8 casos. A média mundial foi de dois casos. Foram 4.762 mulheres mortas violentamente no País naquele ano: 13 vítimas fatais por dia. O quadro foi ainda mais alarmante em relação às mulheres negras. A década 2003-2013 teve aumento de 54,2% no total de assassinatos desse grupo étnico, saltando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Aproximadamente mil mortes a mais em 10 anos. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos.

Nesse contexto, é de inegável importância o protesto pacífico, com o objetivo alertar sobre o preconceito e violência no Brasil, que reuniu de dez a 15 mil pessoas, em frente ao Congresso Nacional nesta quarta-feira, em Brasília.

Está na hora de mudar esse quadro… – Texto de Márcia Pinna Raspanti.

antonioferrigno

marcha

Acima: “Preta quitandeira”, de Antônio Ferrigno (1900); abaixo a marchas das mulheres negras, hoje.

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1 Comentário

  1. Lúcia de Barral disse:

    As mulheres negras são cada vez mais apreciadas e consideradas:por estrangeiros que a sumindo um relacionamento familiar tem a oportunidade de sair fora desta realidade cruel e maxixta. Transformando suas vidas mmmostrando outra realidade miscigenando melhorando ainda mais sua raça forte que sempre enfrentou a vida com garra vi vendo do que pode.

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