Magia, ervas e exorcismo: a cura das doenças no Brasil Colônia

Publicado em 5 de junho de 2016 por - artigos

          A farmácia doméstica contava com um uma rica variedade de espécies cultivadas nos quintais. O alecrim era considerado poderoso contra raios e usado para afastar feitiços. Folhas de figueira tinham que ser respeitadas: não podiam ser queimadas em casa onde tivesse criança em fase de aleitamento. O rosmaninho, o sabugueiro e o alecrim colhidos na manhã de São João livravam a casa de enfermidades. O chá da arruda colhido em noite de Natal era usado em todas as doenças. Picão e erva-de-santamaria combatiam vermes e parasitas intestinais. A manjerona enxugava corrimentos, a erva-de-urubu afastava cobras e a ipecacuanha incentivou mesmo capítulos em obras europeias: remédio milagroso para tudo!

        Vários regulamentos vetavam aos leigos o exercício da medicina tornando os curandeiros, homens e mulheres, personagens perseguidas. Mas, diante da realidade cotidiana, as próprias autoridades abdicavam e davam certidões para que mulheres seguissem substituindo médicos que não existiam. Em Mato Grosso, Maria Fernandes Maciel que praticava curas com sucesso, em 1798, recebeu a certidão passada de punho pela Junta do Protomedicato:

       “Antônio Rodrigues da Rocha, cirurgião, aprovado por Sua Majestade Fidelíssima, Delegado Real da Real Junta do Protomedicato, certifico que Maria Fernandes Maciel me enviou a dizer por sua petição que ela se tinha aplicado curiosamente a curar tumores cirrosos e como não o podia fazer sem licença me pedia que a admitisse a exame para curar as ditas enfermidades, e saindo aprovada mandar-lhe passar a certidão o que assim o fiz em minha presença pelos examinadores Serafim Pinto de Araújo, o qual me certificou que a suplicante tinha feito várias curas e que fora nelas feliz”.

        Vale lembrar que um regimento geral dos delegados e juízes comissários do cirurgião-mor e físico-mor no Estado do Brasil, foi promulgado em 16 de maio de 1744, intensificando a fiscalização do exercício das artes de curar na colônia. A dita Junta do Protomedicato passou a exercer suas atribuições por meio de seus delegados, que passaram a fiscalizar a prática médica dos cirurgiões, cirurgiões-barbeiros, barbeiros, sangradores, veterinários, enfermeiros, dentistas e parteiras e o ensino médico cirúrgico no Brasil, além da concessão de cartas de examinação, licenças dos diversos curadores e vistos em diplomas de faculdades médicas estrangeiras, e do controle de hospitais civis e militares.

      Adiantou? Para inúmeras partes da Colônia, não. Ao chegar ao Grão-Pará, em 1763, a Terceira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil encontrou várias mulheres índias, mestiças e pobres que praticavam curas mágicas mesclando elementos católicos aos ritos mágicos. A índia Domingas Gomes da Ressurreição, por exemplo, aprendera a curar “quebranto”, com sua senhora, uma portuguesa, usando as seguintes frases: “Dois olhos maus te deram, com três hei de curar. Jesus Cristo te livrou, Jesus Cristo te diz quem de mal te olhou”. Era exímia no tratamento de erisipela, quando cruzes com as mãos sobre o enfermo, rezando Ave-Marias e Pais-Nossos. Certa Ludovina Ferreira se destacava por desenterrar feitiços, retirar bichos de corpos enfeitiçados e descobrir a causa das doenças. Muito diferentes dos médicos? Não, pois as fronteiras entre ciência e magia eram tênues. Basta lembrar que Luis Gomes Ferreira indicava, ele, também, antídotos contrafeitiços, sobretudo o pó de coxa de sapo para quem estivesse magro e se julgasse enfeitiçado.

        Até mesmo no Rio de Janeiro, no início do século XIX, Jean-Baptiste Debret representou, numa gravura, o “cirurgião negro”, capaz de tanto aplicar tratamentos tradicionais como as ventosas, quanto de vender amuletos e talismãs curativos como o cone feito de chifre de boi “que se pendura ao pescoço para preservar das hemorróidas ou das afecções espasmódicas”.

       A difusão dos livros de medicina ficava restrita as esparsas classes letradas ou às bibliotecas de conventos. O dos jesuítas no Colégio do Pará, segundo inventário de 1760, continha 20 tomos de medicina. Sua botica era invejável: recipientes diversos com mais de 400 remédios, fornalhas, alambiques, almofarizes de mármore, ferro e marfim, armários, frascos e potes de várias cores e tamanhos, balanças, pesos, medidas, tachos de cobres, bacias, prensas e tenazes, todo um aparato para a fabricação de remédios.

        Remédios, aliás, que podiam se materializar em exorcismos, quando se tratava de malefícios. Afinal, a Igreja acreditava que o demônio se inseria nos corpos humanos causando-lhes mal. E para extirpá-los, não faltaram exorcistas cujos métodos não muito ortodoxos, foram perseguidos pela Inquisição. Certo frei Luiz de Nazaré, por exemplo, atuante na Bahia na década de 30 do século XVIII, justificava atitudes lascivas que tinham com mulheres doentes escudando-se nas leituras que fazia. Sempre que procurado, o padre dizia que para recobrar a saúde era essencial ter relações sexuais com ele. E, sério, acrescentava: que elas não tivessem escrúpulos de tais atos, pois “tudo aquilo que fazia era coisa da Igreja e que o fazia pelo livro que tinha nas mãos”.

       Alguns dos remédios receitados por padres exorcistas não se diferenciavam dos que se encontravam publicados: pombos e frangões abertos pelas costas, encostados no umbigo ou nos pés dos pacientes, misturas de água com vinho e açúcar ou clisteres de água benta. Outros conseguiam ir além da imaginação. Ao atender uma mulher supostamente enfeitiçada, Frei Luiz de Nazaré, mandou-a comprar um porco e depois de enviar os quartos e a banha para sua despensa, que ela cozesse os “miúdos” e “os deitassem numa encruzilhada às dez horas da noite”. A velhacaria do padre ficou conhecido como “a cura do porco”!

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Colônia (vol. 1)”, Editora LeYa, 2016.

 

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“O cirurgião negro”, de Jean-Baptiste Debret.

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