Machado e o absenteísmo eleitoral

Publicado em 19 de setembro de 2016 por - artigos

Em agosto de 1892, meditando sobre a participação nas eleições municipais, Machado de Assis, concluía: o absenteísmo era uma “moléstia”.

Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: “A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n…”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso”.

Desde sempre um problema, o absenteísmo, ou a prática costumeira dos que estão ou costumam estar ausentes, veio se juntar a outro: as “eleições a bico de pena”. Expressão usada para designar as eleições fraudulentas comumente realizadas na Primeira República, nelas o voto era a descoberto, as mesas eleitorais tinham função de junta apuradora e os resultados lavrados em ata eram na verdade determinados pela pena dos mesários indicados pelo poder local. Praticadas desde 1890, quando eleito o primeiro Congresso Constituinte Republicano, vigiram até março de 1930.

No interior, trabalhadores agrícolas, estreitamente vinculados ao coronel da região, eram vítimas fáceis do sistema eleitoral, não só pela dependência econômica, mas também pela subordinação às relações pessoais de obrigações e favores representadas pelo compadrio. As eleições eram controladas pelos chefes políticos regionais, geralmente fazendeiros ou comerciantes chamados de “coronéis” em alusão à patente da Guarda Nacional que compravam ou recebiam do governo central. No dia da eleição, os coronéis traziam os eleitores para os locais de votação e os deixavam nos “currais eleitorais”, vigiados por jagunços. Os eleitores raramente sabiam o nome do candidato em que votariam, o que deu origem à expressão “voto de cabresto”. Como se não bastasse, eleições fraudulentas, eram legitimadas através de conflitos armados, nos quais se envolviam jagunços contratados pelo coronel, cabos eleitorais e os próprios eleitores.

Apenas depois da Revolução de outubro de 1930, foi criada a Justiça Eleitoral, e o voto passou a ser secreto. Embora acontecessem eleições no Brasil desde o Império, só uma parcela ínfima da população votava. Na República Velha, analfabetos e mulheres continuaram excluídos. E com cabresto ou a bico de pena, houve muitos que, como contou Machado, simplesmente preferiam… Abster-se! Em 2014, o absenteísmo foi gigante: cerca de 20% dos eleitores não foram às urnas e nulos e brancos, somaram 30 milhões de votos. O profundo divórcio entre o eleitor e os candidatos expressa muita coisa: desencanto, políticos despreparados, nepotismo, enfim, longa lista. Resta concluir que Machado, além de imenso escritor foi também profeta.

 

  • Texto de Mary del Priore. 

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Machado de Assis: o desencanto dos eleitores.

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