Lula, Vargas, cidadania e anacronismo

Publicado em 10 de maio de 2017 por - artigos

         A eleição de Lula não foi a ascensão de um indivíduo, mas a de uma geração que se queria revolucionária nos anos 60. Quando isso se deu, o mundo tinha mudado e, com ele, as perspectivas políticas dos partidos de esquerda. Ao final dos anos 80, a mundialização ou globalização que se impôs na década seguinte designou novas realidades. A constituição de um planeta geofinanceiro talvez seja seu aspecto mais espetacular. Operações de fusão e concentração nos setores de eletrônica, automotivo, comunicação e bancos aceleraram o crescimento mundial, fazendo desabrochar os mercados emergentes. A revolução desapareceu do foco dos partidos de esquerda, dando lugar a propostas reformistas. Procurou-se diminuir os efeitos negativos da globalização, protegendo o sistema econômico nacional e por meio de programas sociais. Atualizado em 2004, o próprio estatuto do PT inseriu essas questões.

       Encarnação de Vargas ou de Jango? Não. Os líderes mencionados avançaram na aprovação dos direitos sociais, mas, ficaram marcados por atitudes autoritárias ou crises políticas. Lula negociou: manteve o programa econômico do governo anterior, reconheceu os contratos de vendas das empresas estatais ao capital internacional e concedeu tímido aumento no salário-mínimo, não incluindo perdas registradas nos anos anteriores.

      Houve um enorme conjunto de fatores que propiciaram a ascensão e mobilidade de classes no Brasil durante o seu governo. O principal sendo o equilíbrio da economia brasileira, conquistado apos quase 15 anos de muito trabalho e políticas econômicas acertadas. O resultado foi a possibilidade de trabalhadores acederem a uma renda mais garantida, mas, também, de poder trabalhá-la de forma mais produtiva. Através do credito, a renda multiplicou-se e promoveu uma mobilidade social importante, onde classes anteriormente marginalizadas passaram a obter o acesso a bens. Alem disso existem gastos com políticas sociais, muito limitadas no longo prazo, mas que ajudaram a subir da linha da miséria uma significativa parcela da população. O Programa Bolsa Família, iniciativa que procurou tirar da miséria entre 40 e 50 milhões de pessoas, atingiu em parte os objetivos de mobilidade social. Só que o beneficiário da bolsa precisa cadastrar-se como “pobre”, perpetuando sua condição de “cidadão de segunda classe”. Temos um resultado peculiar: mobilidade sem cidadania. A palavra cidadania nasceu no século XII e significava, apenas, “ser morador de uma cidade”. Hoje, significa “ser membro de um Estado e achar-se no gozo de que lhe permitam participar da vida política”. Enquanto continuarmos a eleger “fichas-sujas”, apoiarmos a ilegalidade e Tiriricas, penso que estaremos entre uma definição e outra.

     No Brasil Império, o conceito de “brasileiro” não existia. Quando da Abdicação de D. Pedro I, em 1831, o poder transferiu-se para as elites regionais. No império, cuja Independência era recente, a descentralização acentuou as tendências separatistas. A partir de 1835, os levantes radicalizaram. No Pará, a guerra civil durou cinco anos. Os “Cabanos” chegaram a declarar a independência, mas foram esmagados, num saldo de 30.000 mortos: 20% da população provincial. No RGS, a República de Piratini manteve-se separada do Brasil de 1835 a 1845. Sucederam-se a Abrilada, a Novembrada e a Sabinada. E tais movimentos por vezes escapavam das mãos da elite, tornando-se populares. Por exemplo, a Balaiada, no Maranhão, em 1838, chegou a reunir um exército de revoltosos, entre pobres e escravos. A ausência de uma identidade nacional era e vidente e o desafio era construí-la.

       O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado, nesta época, na tentativa de dar uma “origem comum” às várias partes do Brasil. Vale lembrar que a construção de uma identidade nacional não foi exclusividade nossa. Boa parte dos países europeus também estava em processo de “unificação”. O Romantismo ajudou. Misturando arqueologia com poesia, linguística com romances de folhetim, pintura com ópera, o movimento buscava explicar como o Brasil se tornou brasileiro. Há quem diga que o objetivo só foi alcançado nos anos 1970, graças à televisão, as novelas e ao Jornal Nacional, formas contemporâneas de integração da brasilidade.

– Texto de Mary del Priore; edição: Márcia Pinna Raspanti.

 

Foto oficial do ex-presidente.

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