Leopoldina e Bonifácio: há limites para a ficção?

Publicado em 13 de julho de 2017 por - artigos

        A novela “Novo Mundo” da rede Globo é baseada em um período crucial da História do Brasil: o período que antecede a proclamação da independência e o Primeiro Reinado. A trama – ficcional – tem centrado suas forças no casamento de D. Pedro e D. Leopoldina, e no romance do futuro imperador com Domitila, que se tornaria a marquesa de Santos. Como era esperado, muitas licenças “poéticas” e imprecisões históricas têm sido cometidas. Uma novela tem por objetivo entreter e não ensinar História, argumentam os defensores da trama. E eles têm certa razão. Porém, acredito que alguns limites devem ser respeitados.

     Recentemente, insinuou-se um possível romance entre Leopoldina e José Bonifácio, homem de confiança de D. Pedro e figura importante no processo de independência. Um (quase) beijo entre os dois personagens para “apimentar” a trama causou desconforto entre muitos espectadores. Muita gente está se perguntando se seria possível haver algo de verdadeiro nesse affair. A resposta é não, nunca houve indício desse envolvimento. Leopoldina era apaixonada pelo marido, era uma mulher extremamente religiosa, e apesar das infidelidades de D. Pedro, não se envolveria com outro homem. Teve uma gravidez atrás da outra. E Bonifácio era um homem consciente de suas responsabilidades e de seu lugar a corte. Foram próximos, amigos até, mas acredito que a novela passou dos limites ao insinuar o romance.

       Mary del Priore, em “A Carne e o Sangue”, destaca que entre Bonifácio e Leopoldina havia uma simpatia mútua. “Ele a tratava de boa e incomparável ama que o céu nos quis dar como presente seu”. Havia admiração entre os dois, e confiança. Ambos tinham muito em comum. A princesa vivia isolada, tratada com desconfiança pelas damas portuguesas e com distância pelo marido. Provavelmente encontrava em Bonifácio alguém com quem conversar, principalmente sobre a paixão sobre história natural.

Quando perdeu o filho, solicitou a Bonifácio que dispusesse sobre o caixão do “querido filho” um epitáfio de seu próprio punho: “emende-o se não estiver bem”, pediu. Conta Mary:

“Mal enterrou o filho, Leopoldina ficou só. No final de fevereiro, a conselho de José Bonifácio, D. Pedro foi a Minas apaziguar os ânimos e garantir a adesão daquela rica porção do território brasileiro. Só regressaria em fins de abril.

No mês de março, nasceu Januária Maria Joana Carlota Leopoldina
Cândida Francisca Xavier de Paula Micaela Gabriela Rafaela, que receberia
nome escolhido pelo pai em homenagem à cidade em que moravam. ‘Deus
tirou-me João e deu-me outra filha’, abriu-se com José Bonifácio. Leopoldina
deu à luz de pé, agarrada ao pescoço do marido”.

D. Pedro também depositava grande confiança em Bonifácio, que o levou para a Maçonaria. Em uma das viagens do futuro imperador, para apaziguar as agitações políticas:

“Nos corredores do Palácio de São Cristóvão, alguns cortesãos, fidalgos e funcionários seguiram os últimos momentos e viram os abraços que o príncipe deu em José Bonifácio e na princesa”.

A política também os aproximava: “Além de terem plena confiança um no outro, Bonifácio e Leopoldina tinham liberdade para “tomar todas as medidas necessárias e urgentes ao bem e salvação do Estado”. O clima político se complicava. Via-se o colonialismo desaparecer da América Latina por meio de revoluções sangrentas, dando lugar a repúblicas instáveis e adversárias mas quase todos temiam a anarquia”.

E quando o príncipe se ausentava por muito tempo, sem dar notícias, Leopoldina se desesperava. Em agosto de 1822, ele partia em direção a São Paulo e a deixava como regente:

“Meu querido e prezado esposo, mesmo sendo privada
de notícias suas, que é muito custoso a meu coração, acho meu dever e único
meio de aliviar as minhas saudades escrever-lhe.” 

Dias depois, voltava a escrever, sublinhando o abandono em que se
encontrava: “Meu querido e amado esposo! Confesso-lhe que tenho já muito
pouca vontade de escrever-lhe, não sendo merecedor de tantas finezas. […]
Ordinariamente quando se ama com ternura uma pessoa, sempre se acham
momentos e ocasiões de provar-lhe a sua amizade e amor. Todos estamos bons e tudo muito sossegado, graças a Deus. Receba mil abraços e saudades minhas
com a certeza de ser a última carta.” Antes de assinar-se “a amante esposa” insistia na necessidade urgente de saber notícias. Afinal, ele partira havia oito dias.

“E procurava consolo com Bonifácio, a quem confessava seu temor de que
em pouco tempo tudo andaria “em inquietação”, instava sobre a necessidade de “ensinar marotos” e afastar o perigo de “sujeitinhos” ou transmitia cartas de D. Pedro trazidas pelas mãos de escravos: “Todos estavam em perfeita saúde, viajando ao vagar tendo as bestas muito cansadas.”Enquanto isso, D. Pedro apaziguava os ânimos e tranquilizava os exaltados. E, em meio à rotina de trabalho e de alianças políticas, ainda achou tempo para outras coisas.

Foi quando D. Pedro se aproximou de Domitila, que logo se tornaria sua amante. Enquanto isso, a princesa reclamava com Bonifácio: só tinha notícias do marido por um tropeiro recém-chegado de São Paulo.

 Apesar das tensões políticas, D. Pedro frequentava os saraus que animavam a noite na casa da bela paulista. Ali fugia do bulício do paço, dos mexericos familiares e dos problemas políticos. Ali ria e, como todo apaixonado, era feliz. As idas e vindas ao Engenho Velho tomavam conta do noticiário especulativo da corte. O concubinato imperial começou a despertar comentários. O embaixador austríaco chegou a escrever ao imperador da Áustria a respeito”, –relata Mary del Priore.

Logo, Bonifácio e Leopoldina teriam algo mais em comum, a antipatia em relação à favorita de D. Pedro. Homem de confiança do agora já imperador, José Bonifácio se desentenderia com o genioso D. Pedro, sendo alvo de intrigas e ataques do grupo ligado à Domitila. “Antes de cair, até José Bonifácio incomodou-se com a presença de Domitila, a quem aprendeu a temer. E depois a odiar. (…) De fato, Bonifácio caiu por querer enfrentar os grandes proprietários contrários à extinção da escravidão, à divisão da propriedade e à rotina predatória da monocultura”, explica Mary.

“Domitila recebeu o título de viscondessa de Santos, com o nome de solteira. Seus irmãos cobriram-se de honrarias. Na França, exilado, José Bonifácio ironizava em versos, chocado com a “michela” – prostituta – que fora elevada a viscondessa da pátria dos Andrada, Santos:

“E das ventas fumando orgulho e sanha
Para fazer alarde as Domitilas
E as fendingas reles.

E quando Leopoldina morreu, em dezembro de 1826, José Bonifácio, iria profetizar:
“A morte da imperatriz me tem penalizado assaz. Pobre criatura. Se
escapou ao veneno, sucumbiu aos desgostos; mas este sucesso deve trazer
consequências poderosas não só para D. Domitila, mas, talvez para grande parte do ministério.”

E ele tinha razão…

  • Texto baseado em “A Carne e o Sangue”, de Mary del Priore. Introdução e edição: Márcia Pinna Raspanti.

Leopoldina: dedicada aos filhos e ao marido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 Comentários

  1. Angela disse:

    Achei um grande absurdo esta insinuação de que haveria um romance entre a Pilrincesa e Bonifácio.
    Licenca poética muito sem graça

    • Márcia disse:

      Sem dúvida. São muitas imprecisões e erros históricos, mas essa insinuação é um desrespeito à figura de Leopoldina e do próprio José Bonifácio. Desnecessário.

    • NINA disse:

      Obviamente foi um recurso para “esquentar” a trama e satisfazer a gana de vingança do público pela princesa humilhada. No entanto, apesar de ser uma grande viagem, não vejo como um desrespeito. As cenas são de bom gosto e os dialogos entre os dois bem bonitos.

Deixe o seu comentário!