Leopoldina e a Independência

Publicado em 1 de setembro de 2014 por - Independência do Brasil

Existe a crença de que D. Leopoldina teria influenciado diretamente D. Pedro na proclamação da Independência. Mas, não há comprovação disso nas cartas e documentos da época. O futuro imperador não respeitava nem José Bonifácio, o grande mentor da emancipação! Acabaram se chocando em outubro de 1822. Na correspondência de Leopoldina não há indicativos de que redigisse discursos ou fosse conselheira política. Ao contrário. Na época da independência, ela via pouco o marido. Ele estava sempre no teatro, que era palco de todas as manifestações ou no Arsenal da Marinha. Ative-me aos documentos históricos e neles não vi indícios de nada disso.

Depois da emancipação, restabeleceram-se as relações diplomáticas com as cortes europeias embora as repúblicas sul-americanas vissem o Brasil como um aliado do absolutismo e um instrumento da Espanha para reconquistar suas ex-colônias. Francisco I, pai de Leopoldina, escreveu muito a D. Pedro neta época incentivando-o a manter as melhores relações com Portugal, embora a antiga metrópole obrigasse o Brasil a pagar uma compensação pelas propriedades governamentais e privadas confiscadas durante a guerra da Independência e a assumir pagamentos de um vultoso empréstimo assumido com os britânicos. Endereçava as cartas ao “Senhor meu irmão e caro genro”. Quanto a Leopoldina, ele escreveu algumas cartas ao pai pedindo-lhe que aceitasse a emancipação.

Bonifácio caiu em julho de 1823 e não me parece ter privado da intimidade de Leopoldina em São Cristóvão. Quando ela chegou ao Brasil trouxe consigo damas vindas de Viena: as condessas de Künburg, Sarthhein e Von Lodron. Elas ridicularizavam os hábitos locais e até mesmo D. Pedro, desagradando à família real. Foram mandadas embora, de volta, pois não era hábito das casas monárquicas manterem laços com o país de origem. Embora tais amizades servissem para a inserção de uma princesa no país estrangeiro, eles eram rapidamente cortados. Já com Maria Graham a relação foi de afeto e admiração mútua. A imperatriz queria que ela ficasse como preceptora da jovem princesa Maria da Glória. Maria Graham já era escritora conhecida e tinha publicado dois livros. A amizade das duas estrangeiras suscitou inveja e mesquinharia entre as portuguesas. A saída de Bonifácio alimentou uma onda de antilusitanismo e a retaliação, dentro do palácio caiu na cabeça da inglesa. Espionadas, perseguidas, as estrangeiras se uniam contra a mentalidade mesquinha da Corte. Graham foi vítima das mesquinharias e fofocas que corriam no palácio, tendo sido grosseiramente despedida por D. Pedro. Leopoldina perdeu a única amiga que teve no Brasil.

A jovem imperatriz sofreu horrivelmente com a exibição pública da favorita e as várias humilhações que lhe impôs o marido e a própria Domitila. Por exemplo, foi um choque para a sociedade baiana quando os três desembarcaram juntos em Salvador. D. Pedro exibia-se com a amante e a filha, Dona Maria da Glória, pelas ruas da cidade. Os muros cobriram-se de panfletos insultando a favorita e caricaturizando o imperador. A opinião pública estava do lado de Leopoldina que respondia a tudo com calma e frieza.

D. Pedro dizia que fazia amor de matrimônio com Leopoldina e amor de devoção com Domitila. Ou seja, do sangue, cuidava em casa fazendo filhos na esposa. E com a outra, cuidava da carne e de seus prazeres.

Houve boatos sobre o diagnóstico de morte de Leopoldina e pesquisas mais atuais debitam-na ao tifo. Mas os maus tratos colaboraram, sem dúvida nenhuma. Não os que D. Pedro executa no final da vida da esposa, arrastando-a pelo braço já doente para cumprimentar Domitila. Mas os que perpetrou durante todos os anos em que viveu ao seu lado. Durante nove anos, ele teve poucos momentos de ternura com Leopoldina. Ignorava-a. As cartas que a princesa troca com a irmã revelam sua assustadora solidão. Ele a visitava exclusivamente para engravidá-la: “nove anos fui casado e nove filhos tive”, gabava-se D. Pedro.

A imperatriz cumpria seu papel social. Era obediente, recatada, dócil como se recomendava que fossem todas as esposas, na época. Além disso, deu muitos herdeiros ao trono brasileiro e enfrentou todas as gravidezes com coragem. Digo isso, pois as técnicas de obstetrícia então, eram muito primitivas, sendo necessário desprendimento para enfrentar um parto a cada ano. Como princesa desapontou. As monarquias eram feitas de espetáculos, também. Nessas aparições, Leopoldina vai se descuidando. Fosse porque ficara sem tostão – D. Pedro não lhe deixava tocar no próprio dinheiro – fosse porque o marido nada lhe dava, ela andava mal vestida, mal penteada, mal cuidada. Isso causava mal estar nos membros da Corte que queriam uma bela imperatriz. Os estrangeiros de passagem pelo Brasil também registraram seu desapontamento diante da soberana precocemente envelhecida e gorda. Ela tampouco se misturou com as cortesãs portuguesas, a quem de certa forma desprezava. A antipatia mútua acabou por isolá-la mais ainda: não tinha amigos e vivia exclusivamente para os filhos.

– Mary del Priore.

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