Juca Rosa: o poderoso senhor dos terreiros e dos corações

Publicado em 2 de abril de 2015 por - História do Brasil

Houve pais e mães de santo tão renomados, que sua popularidade ultrapassou a fronteira das províncias. Foi o caso de Juca Rosa que passou alguns meses na Bahia se instruindo nos mistérios da religião africana. Ao voltar à capital, fundou um terreiro bem-sucedido em bairro conhecido como Pequena África, onde os negros descidos das províncias do Norte e Nordeste se concentravam.

O fato de haver mais homens nas lideranças religiosas não significava que eles tivessem mais oportunidade do que as mulheres para se estabelecer como adivinhos e curandeiros. Mostrava apenas que o costume africano segundo o qual a adivinhação ou a arte do Fa, era prerrogativa de babalaôs, havia sido quebrada.

Mas vamos conhecer João Sebastião da Rosa ou Juca Rosa, “senhor de forças sobrenaturais” e uma das maiores lideranças religiosas na década de 70. Ex-praça do exército, descreviam-no como um “crioulo entre 36 e 40 anos”, “de olhos vivos e penetrantes”, alfaiate de profissão, sempre elegante no trajar, alfabetizado, cuja mãe africana lhe legou “um arcano de dar fortuna”.  Aborreceu-se no trabalho e abraçou a “nefanda procissão” de feiticeiro.

O processo foi deflagrado por uma denúncia anônima enviada à Justiça, e publicada no jornal Diário de Notícias que ai viu a possibilidade de monopolizar o tema e multiplicar vendas. Seguiram-se notícias sobre sua prisão, sempre sob o título de “Importante diligência policial”.  A seguir, em letras maiúsculas vinha a lista de “crimes” por ele cometidos: “sortilégios, evocações, estelionatos, roubos, defloramentos, remédios para que adúlteras encobrissem suas faltas, mortes, propinações de veneno, abusos de confiança, ataques à religião, seitas proibidas, reuniões secretas, feitiçaria”. E durante meses, a venda de jornais incentivou uma sucessão de artigos escandalizados.

Segundo o mesmo jornal, quem o acusava era um jovem de 24 anos que conheceu o Juca, líder de uma “irmandade conhecida até na Europa”, quando buscou tratamento para um braço doente. Adiantou-lhe 30$000 para compra de remédios e participou de uma cerimônia. Assistiu Juca realizar uma “amarração”: cercado de “bugigangas”, descalço e sem paletó. Dando saltos, mudando de voz e em meio às cantorias, segundo seu acusador, ele convertia inimizade em afeição, aconselhando também “os meios de se vencer quaisquer dificuldades na vida”. Segundo a matéria do jornal, “e era nesse momento que todos os assistentes lhe beijavam a mão direita e batiam com a cabeça no chão”.

Na Rua da Carioca 36, novo ritual de amarração entre uma jovem portuguesa e um “opulento negociante que a freqüentava. Ali, Juca estendeu um pedaço de pano, e sobre este, em forma de cruz, outro encarnado e preto, pondo-se sobre tudo, um urubu, um anu, pimenta de Angola, farinha, azeite de dendê, milho e acaçá. Feito isso, comparecia a consultante e Rosa fazia-lhe passar um galo pelo corpo em todas as direções, pronunciando algumas palavras ininteligíveis. Após, cortava-se o pescoço da ave e a consultante esquartejava-a enchendo-a dos ingredientes e mandando-a colocar à porta da igreja de São Francisco de Paula”.

A moça não só lhe entregara um anel de brilhantes em pagamento dos serviços, como lhe dera dinheiro, vendera sua mobília para arcar com despesas e, diziam, prestara-se a serviços sexuais.

A irmandade tinha cerca de 30 pessoas e Juca se auto-proclamava Pai Quibombo. Segundo o jornal, ele extraía ferros e agulhas de ferimentos, preparava medicamentos que levavam à sepultura, se casava com várias mulheres no “gongá”, batizava seus filhos segundo rituais pagãos diante de um ídolo, o Manipanço, promovia danças eróticas em frente à imagens santas, e as “filhas que não cumprissem obrigações” pagavam-lhe multas em dinheiro. Elas trabalhavam e participavam das cerimônias descalças e algumas “nuas” – escandalizava-se o jornal! A maioria das mulheres era fanaticamente dedicada a Juca. Ele era conhecido por “inspirar paixões, tirar o vigor dos indivíduos, fazê-los adoecer e sucumbir a moléstias”. E tudo por dinheiro – rugiam os articulistas!

O “nigromante” recebia numa vila situada à Rua do Núncio, depois de um “banho de ervas cheirosas”, diante de um altar com imagens, castiçais e salva de prata para receber dinheiro. Nesse ambiente de luz mortiça e sepulcral, tocavam-se as “macumbas”. Distribuíam-se breves para usar junto ao pescoço, cantava-se em língua africana e com “o espírito na cabeça”, Juca caia como morto. Era aí que dava consultas como “Pai Quibombo”. A região era infestada de cortiços, casas de fortuna e prostíbulos. Mas em seu candomblé eram recebidas muitas senhoras elegantes com quem Juca teve ligações mais do que espirituais. Sedutor e carismático acabava por enfeitiçar as próprias clientes a quem fazia segundo algumas, “propostas indecorosas”. Era adorado pelas belas e jovens que lhe prestavam serviços sexuais.

As notícias sobre seu julgamento faziam vender jornais, afinal, consideravam-no “capaz de enganar o próprio Deus” e “salteador da honra, do pudor e da fortuna”! As diversas testemunhas que se apresentaram ao júri relataram uma “coleção de cenas dignas de pena do mais extravagante romancista”. O que impressionava era o número de amantes e de acolitas adúlteras capazes de tudo pelo Juca, inclusive, dar-lhe dinheiro. E muito.

A curiosidade pública transformou Juca num “herói de horrores”, segundo uma dessas folhas. Não faltava quem acusasse: curandeiros como ele infestavam a cidade e “tudo isso vive à sombra de inqualificável proteção” e nas barbas das autoridades. Era fanatismo. Pois nenhuma queixa para “por cobro nos atos de selvageria”, chegara jamais aos ouvidos da polícia. Juca era protegido por “políticos e capitalistas”.

Nas fórmulas mágicas que vendia, não faltava a presença do catolicismo. Sincretismo, aculturação, mestiçagem? Pouco importava. O respeitável era funcionar como se vê nessa “Receita para os homens se verem obrigados a casar com suas amantes”:

“Tomem-se 26 folhas de erva de santa Luzia e depois de cozidas em seis decilitros de água, meta-se numa garrafinha branca bem arrolhada, até que tenha no fundo alguns farrapos, e sobre o gargalo dessa garrafa reza-se a seguinte oração:

‘Ó santa Luzia, que sarais os olhos, livra-nos de escolhos, de noite e de dia; ó santa Luzia, bendita sejais por serdes bendita, no céu descansais’.

Aqui tira-se um 7 de um baralho de carta e põe-se-lhe em cima a garrafa, dizendo: ‘Em nome do Padre, do Filho e do Espírito santo, te imploro, Senhora, que assim como esta carta está segura, assim eu tenha seguro por toda a vida a (fulano) a quem amo de todo o coração e peço-vos Senhora, que façais com que me leve à Igreja, nossa mãe em Cristo Senhor Nosso’. Rezar, em seguido uma coroa à Nossa Senhora. É preciso manter a carta debaixo da garrafa até o dia do casamento”.

O julgamento teve início no dia 5 de janeiro de 1871. A sala lotada de autoridades, gente elegante, “madamas” e seguidores, mais parecia uma festa. Um “hábil advogado”, certo Dr. Felipe Jansen de Castro Albuquerque, foi escolhido para defender Juca. Segundo o Diário de Notícias, os advogados de acusação tiveram que conduzir uma “luta heróica para arrancar a verdade” de testemunhas aterrorizadas pelo olhar que o bruxo lhes lançava. O Diário prosseguiu sua campanha enumerando feitiços e mortes promovidos por Juca Rosa e alertando as autoridades para prosseguir seu julgamento com “louvável energia”. Que a lei e a ordem não se deixassem embaraçar com “solicitações de potentados ou ameaças insolentes em nome da religião e da moral”.

Seis meses depois, ao final do julgamento, 45 edições de 50 mil exemplares de uma brochura sobre o processo do “famigerado Juca Rosa” eram vendidas nas boas casas do ramo. O feiticeiro foi, então, condenado. Não por bruxarias, pois o Código Criminal do Império não validava tal crime, mas, sim por estelionato.  Embora fosse mais um personagem no mundo do sobrenatural e das mandingas, Rosa chocou por avançar num território proibido na sociedade escravista: o do sexo. Ele era o negro que possuía sexualmente brancas, mulatas e negras. Despertava paixões e alisava canelas, pernas e braços femininos, ambicionados lugares de desejo masculino, para “curá-los”.

Em plena campanha abolicionista, Juca Rosa era o ex-escravo que enfeitiçava iaiás com carícias. Sua magia, mas, sobretudo seu poder sexual, não podia ficar sem castigo exemplar. Foi libertado após seis anos de prisão a 26 de julho de 1877. Voltaria a atuar o poder do Pai Quibambo?! – Mary del Priore.

afro

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