Joana D’Arc: verdades, lendas e polêmicas

Publicado em 17 de maio de 2014 por - História

Por Victor Villon

O sol estava em seu ápice, era por volta do meio-dia, e, provavelmente, fazia muito calor em Domrémy, um vilarejo perdido nos confins do Reino da França, próximo da fronteira do Ducado da Borgonha e do Sacro Império Romano Germânico. Uma menina de aproximadamente treze anos passeava pelo jardim de casa. De repente, fez-se um clarão do seu lado direito, e a criança, muito assustada, escutou uma voz misteriosa.

 Esse cenário, que ocorreu em data que não podemos precisar com segurança, entre 1423 e 1425, poderia ter caído no esquecimento para todo o sempre, como o simples fruto do fantasioso mundo imaginário de uma criança. Mas o que podemos dizer é que, depois disso, a história da França nunca mais foi a mesma…A criança era Joana D’Arc. A mensagem das vozes é que ela deveria ir ao encontro do delfim (título do herdeiro do trono da França) fazer com que ele fosse coroado na cidade Reims e salvar o reino dos invasores ingleses e de seus aliados borguinhões. Mas de quem eram realmente as vozes?

Segundo a própria Joana D’Arc: do arcanjo são Miguel, fiel protetor do Reino de Bourges (a parte da França que resistia à dominação inglesa); de santa Catarina de Alexandria, princesa que se recusara a se casar, fora presa e julgada; e de Margarida de Antioquia, santa virgem que vela pelas mulheres que estão prestes a dar a luz. Cada época deu uma resposta diferente a tal pergunta. Para os homens e mulheres contemporâneos de Joana o que mais importava era saber se as vozes provinham realmente de enviados de Deus ou era mais uma das artimanhas do demônio. Para os franceses seguramente eram divinas; já para os ingleses e borguinhões, sem dúvida, demoníacas. Mais tarde, no século XIX, quando a ciência e a ordem médica reinavam soberanas, diagnosticaram Joana como um caso psiquiátrico por excelência.

Mas ao historiador só cabe afirmar que para a sociedade do século XV a existência de profetizas, que iam ao encontro do rei apresentar suas revelações e conselhos iluminados, era algo totalmente possível. O diferencial de Joana foi que não se limitou ao papel de mensageira iluminada, mas fez sim de tudo para concretizar o que vinha prenunciar, tanto que convenceu Carlos VII a ser coroado em Reims e foi aprisionado pelos borguinhões às portas de Compiègne em plena batalha. Joana era dos domínios da palavra, mas também dos da ação.

Seja como for, o fato é que, indiretamente, os ecos dessas vozes até hoje ressoam e causam muita polêmica. Mas não só sobre as vozes muito se tem escrito, todos os aspectos que se relacionam a Joana D’Arc foram esmiuçados ao logo dos séculos com extraordinária atenção.

Foi justamente por estar cansada de escutar falsas “verdades” históricas, que a historiadora francesa Colette Beaune, escreveu o livro: Joana D’Arc: verdades e lendas (Cassará Editora, 2013). A autora é especialista no tema e suas pesquisas são dedicadas, sobretudo, à história política e a das mulheres no fim da Idade-Média. Em 2007, o canal francês Arte filmou várias entrevistas com renomados historiadores para um documentário sobre aquela que é conhecida como a Pucelle d’Orléans (a Virgem de Orléans).

Tempos depois, mais precisamente um ano após as gravações, os historiadores que haviam sido entrevistados descobriram que: — nas próprias palavras de Colette Beaune — “o documentário tonou-se uma ‘docu-ficção’ mas não sabíamos de nada descobrimos somente oito dias antes da transmissão e muito tarde […]”.

Na verdade, o documentário que seria transmitido em 29 de maio de 2008, intitulado Vraie Jeanne, Fausse Jeanne, com base no livro L’affaire Jeanne d’Arc, de Marcel Gay e do paleógrafo Roger Senzig, de 2007. O documentário defende uma série de teses sem fundamento histórico que afirmam que Joana D’Arc teria sobrevivido à fogueira, tendo se transformado em Claude des Armoises. E que, por sua vez, Claude des Armoises seria filha bastarda da rainha Isabeau da Baviera.

Em 9 de abril, os historiadores publicaram um artigo de protesto no jornal Le Figaro. Colette Beaune nos conta: “No fim da sessão um jornalista da France 3 entrevistou-nos. Para atingir o grande público seria preciso, sugeriu, aceitar alguns arranjos com a verdade. Foi nesse momento que compreendi, graças a ele, que havia um problema científico real. Na sociedade atual, pode-se aceitar que haja em paralelo uma história para as elites e outra para as massas ?”

Foi assim que a autora teve a ideia de escrever um livro que refutasse as falsas considerações e trouxesse Joana D’Arc para o seu lugar, mas que fosse também direto e acessível. Assim nasceu Joana D’Arc: Verdades e Lendas. Joana D’Arc faz parte do imaginário não só da França, mas do próprio Ocidente e sobre ela muito foi escrito, por isso mesmo, pode-se fazer uma história da sua história.

Nos textos produzidos no âmbito dos Armagnac, dos partidários do rei Carlos VII da França, Joana seria uma pastora enviada por Deus; já para os textos borguinhões seria uma prostituta impostora. O século das luzes, que buscava a razão, não teve grandes simpatias pela filha de Domrémy. Voltaire com a sua habitual verve, um tanto ferina, disse: “O mais difícil de seus trabalhos foi conservar sua virgindade”.

Já Michelet, célebre historiador francês do século XIX, viu Jona D’Arc como a encarnação de uma nação e afirmou, com o arrebatamento dos melhores escritores do Romantismo: ”Lembremos sempre, franceses, que a pátria em nós nasceu do coração de uma mulher da sua ternura e de suas lágrimas, do sangue que ela nos deu”. A Terceira República Francesa seguiu essa linha de pensamento e em seus manuais mostrou-a como heroína, emergida das bases camponesas da nação.

A esquerda a viu como a filha do povo que fora traída pela nobreza e pelo clero. A direita viu nela o símbolo cristão sob o qual França se formara nos seus alvores enquanto nação. Entre o sagrado e o profano: virgem santa, impostora, heroína mística de um povo, esquizofrênica, arquétipo do feminino em luta contra a opressão, personagem manipulada por forças maiores, figura providencial da História. Enfim, muitas são as formas como Joana D’Arc foi vista no correr dos séculos.

Ao logo de seu livro, Colette Beaune mostra esses avatares assumidos por aquela menina que, em um certo e já longínquo meio-dia, espantou-se com as misteriosas vozes no jardim. Somos convidados a conhecê-la inserida em seu próprio tempo, Beaune revela o que realmente a história pode noz dizer através de seus vestígios. A autora restitui a personagem à sua dimensão histórica, libertando sua saga, já tão fascinante, das criações tendenciosas que teimam ao logo dos séculos.

Em Joana D’Arc Verdade e Lendas lemos que ela “foi um mito em vida. Desde seu aparecimento, na primavera de 1429, sua história aconteceu em dois planos paralelos, aquele da realidade […] e aquele do mito”. Tornar-se um mito é algo para poucos, pois só aqueles que nos intrigam, nos questionam e nos desconcertam possuem tal capacidade; e isso, sem sobra de dúvida, a Pucelle d’Orléans continua a fazer até os dias de hoje.

E, como já nos dizia o poeta português, Fernando Pessoa: “o Mito é o nada que é tudo […], assim a lenda se escorre/ a entrar na realidade. E a fecunda-la decorre”.

Joana d'Arc Verdades e Lendas Cassará Victor Villon 2

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