Isabel: o fim da escravidão

Publicado em 13 de maio de 2014 por - História do Brasil

Isabel veio de Petrópolis num domingo, 13 de maio, a fim de transformar, com sua assinatura, o projeto em lei. Exultava: seria aquele um dos mais belos dias de sua vida, se não fosse saber estar o pai doente. Mas Deus permitiria que D. Pedro voltasse “para tornar-se, como sempre, tão útil à nossa pátria”. A ele, escreveu dizendo-lhe da alegria de “ter trabalhado para ideia tão humanitária e grandiosa”, apesar das noites curtas e excitações de todo gênero. Estava cansada, rezingava.

Na corte, mais de dez mil pessoas esperavam o casal de príncipes. Delírio na praça em frente ao Paço Imperial. Uma explosão de alegria sacudiu a multidão quando a princesa recebeu a legação para a assinatura. Vestida de branco-pérola e rendas valencianas, ela assinou a lei com uma caneta cravejada de brilhantes. José do Patrocínio, ajoelhado, beijou-lhe as mãos e foi seguido por outros membros da Confederação Abolicionista. Nabuco discursou, enquanto parte do público dançava. “Tão bom como tão bom” era o grito de guerra dos emancipados, embriagados de liberdade. Isabel ganhou um buquê de camélias e violetas. Depois, foi para o balcão apoiada pelo antigo ministro Cotegipe. Ao perguntar-lhe o que achava do gesto, o velho político respondeu: “Redimiste, sim, Alteza, uma raça; mas perdeste vosso trono…” Eram cerca de 15 horas.

O troco foi uma ovação. Eram as vozes dos zungus, dos quilombos, das senzalas, dos cafés e redações de jornais da rua do Ouvidor, da boemia literária. De velhos e jovens, homens e mulheres de todas as classes e condições. A popularidade da família imperial bateu todas as expectativas. Anos mais tarde, o escritor Lima Barreto, que tinha sete anos, lembraria as palmas, os acenos com lenços e vivas. Em todo o Império,comoção. “Aclamações populares” no Maranhão. “Delírio” no Recife. “Estrondosas manifestações de regozijo popular” em Fortaleza.

Poetas declamavam em público versos que exaltavam o momento. Panfletos eram distribuídos entre a população: “Arcanjo da liberdade. Da pátria loura esperança. Mimosa flor de Bragança. Celeste núncio de amor […] vê que os corações humanos têm todos a mesma cor”, cantava Artur Azevedo. Nos versos de um, Isabel era “uma grande e santa mulher”. Outro celebrava “a era luminosa”. Outro ainda: “Rasgou-se a folha negra.” E não faltava quem comemorasse, pedindo em rimas: “Deem-me aí um copo de cerveja”, bebida na moda que substituiu a cachaça. Vez por outra, ouviam-se gritos de “Viva a República”!

Sobre a data, Gastão diria que “o momento psicológico tinha chegado”. Que “a natureza impressionável das raças deste país dava lugar a um entusiasmo sem limites e tocante”. Segundo ele, o sucesso para a Monarquia era colossal. Nela se reconhecia “o agente principal de transformação tão ardentemente reclamado”. Voltaram para casa por ruas atapetadas de flores. Em Petrópolis, foram recebidos com lanternas chinesas, música, foguetes, um séquito de trinta ex-escravos e chuva. Todos direto para a igreja “rezar o Mês de Maria”. Segundo um poético Rebouças, Deus teria visto tudo, “iluminando a cena com relâmpagos e derramando lágrimas de infinito júbilo”. No dia seguinte, “um dia tranquilo”, receberam apenas mais “visitas do que de costume”. Para Gastão, tudo ia bem, “salvo as espoliações tão inevitavelmente impostas aos proprietários retardatários”.

Nos dias subsequentes, houve missa na igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos e o secretário da irmandade, um maçom, expressou sua vontade: “Que, ao lado de santa Isabel de Portugal, figurasse santa Isabel, a brasileira.” Menos ingênuo, Gastão lembrava que, apesar da “impossibilidade de manter um estado de coisas intermediário”, “medidas complementares” para “amolecer a transição” não tinham sido aplicadas. Como previu Cotegipe, haveria sequelas.

A 20 de maio, Rebouças anotou no diário: “Último dia de delírio pela Abolição.” Só faltou um Te Deum, reclamou Gastão. Meses mais tarde, Isabel resolveu deixar para os filhos seu testemunho dos fatos:

“Meus filhos, se mais tarde lerdes este papel, lembrai-vos de que, se vossa mãe assim procedeu nesta grande questão da abolição, foi na convicção de que seria melhor à pátria, por quem tinha obrigação de velar, e a vocês, a quem deixaria o nome de sua mãe e o trono limpos de qualquer piche de egoísmo ou de fraqueza. Deus me ajudou, meus filhos, procedendo inteiramente como minha consciência me mandava, muito, muito pensei, mas tudo fiz facilmente a ponto de, mais tarde, quando tudo ficou terminado, espantar-me dos elogios que me faziam, da minha coragem, do sábio que mostrava, da grandeza do cometimento… Procedei sempre como Deus vos ordenar, vossa consciência e espírito tranquilos, tudo vos será fácil e, se assim não for, é que Deus vos julga capazes de lutar e tornar-vos ainda mais dignos de ganhar a vida eterna.”

No mesmo momento em que a cidade explodia em alegria, D. Pedro agonizava. “Terríveis inquietudes” abateram-se sobre os príncipes. Falava-se em “paralisia bulbar”. Viveria ou não o imperador? Só soube da abolição uma semana depois. Assim que melhorou, a condessa de Barral foi das primeiras a vê-lo: cabelos brancos empapados, barba comprida, olhos fundos, falando diferente, pois estava sem dentadura. Mas “muito bonito”, comentou com Isabel.

Sempre alerta, Gastão escrevia ao pai: “Em certas províncias, todos os prejudicados pela supressão abrupta da escravidão estavam de muito mau humor, e isso deu lugar a um bom número de manifestações republicanas às quais se juntaram inúmeros membros do Partido Conservador. Espero que esta explosão não seja mais do que um fluxo que terá seu refluxo com o tempo.” Apesar das centenas de cartas e telegramas de congratulações que receberam, ele sabia: crescia a pressão republicana.Aumentavam as propostas para um plebiscito sobre nova forma de governo. A abolição não diminuiu a antipatia à Monarquia. E em São Paulo, sob uma saraivada de críticas, João Alfredo tentava defender a situação: “Senhores, esta República é um desabafo dos desgostosos, a explosão dos espíritos impacientes e aterrados que veem na mudança da forma de governo um remédio a males, cujas proporções exageram. Mas, se a revolução vier, invencível e triunfante, o que há de fazer o governo? […] É melhor dizer que cresça e apareça.”

O desafio estava lançado, e o slogan “cresça e apareça” passou a ser o dos antirrepublicanos. Joaquim Nabuco engrossava o caldo de tensões com uma tese curiosa: a de que a princesa não estivera propriamente na regência, mas no exercício de uma ditadura: “A princesa imperial, no 13 de maio de 1888, abdicou a Monarquia ditatorial, abdicou a Monarquia tradicional e investiu-se precisamente na ditadura popular, que há de durar enquanto ela for leal ao povo.” E o que seria ser desleal?

O verdadeiro debate girava em torno da indenização aos proprietários de cativos. Até Gastão considerava que abolição sem ela era “passo precipitado”. Os republicanos moderados a reclamavam para não perder apoio dos fazendeiros. Isabel, que não influiu na questão, tinha opinião: a medida não era conveniente nem justa, pois recairia, em forma de impostos, sobre quem não tinha nada a ver. E o país não possuía recursos. Seria uma solução ilusória. Críticos da situação embutiam no debate a questão da imigração. Como atrair estrangeiros a um país onde “os sentimentos ultracatólicos de Sua Alteza” criavam obstáculos à secularização dos cemitérios e ao registro civil obrigatório? As demandas republicanas rondavam o rápido sucesso da princesa. Mal ela punha o rosto na janela, novas cobranças acenavam. Agora, seria a vez da “reforma democrática da propriedade territorial”. Na defesa da Coroa, Nabuco e Rebouças se uniram na ideia de propor uma Monarquia democrática popular. Mistura de “caridade de Jesus”, “força dinástica e democrática”. Não teve maiores consequências.

A correspondência diária de Gastão ignorou o assunto. Não só porque era uma mistura de ideias que não podiam ser pensadas em conjunto, mas porque se tratava da espinhosa passagem da Monarquia à República. Também não mereceu atenção o projeto de Rebouças, entregue nas mãos do conde d’Eu, sobre a inserção dos ex- escravos: educação, ocupação de terras, direitos. Sem resposta.

(…)A abolição foi a pá de cal sobre a Monarquia. A libertação dos escravos trouxe à República o apoio da “aristocracia territorial”, como então se chamavam os conservadores, ex-proprietários de escravos. O movimento republicano, por seu lado, já tinha o apoio da mocidade das escolas, de parte da intelectualidade e da maioria das Forças Armadas devido à Questão Militar.

– Mary del Priore. “O Castelo de Papel”.

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Isabel: sempre devotada à família.

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1 Comentário

  1. victoria disse:

    maravilhoso mais falto um pouquinho mais de alegria mais nesta parteSempre alerta, Gastão escrevia ao pai: “Em certas províncias, todos os prejudicados pela supressão abrupta da escravidão estavam de muito mau humor, e isso deu lugar a um bom número de manifestações republicanas às quais se juntaram inúmeros membros do Partido Conservador. Espero que esta explosão não seja mais do que um fluxo que terá seu refluxo com o tempo.” Apesar das centenas de cartas e telegramas de congratulações que receberam, ele sabia: crescia a pressão republicana.Aumentavam as propostas para um plebiscito sobre nova forma de governo. A abolição não diminuiu a antipatia à Monarquia. E em São Paulo, sob uma saraivada de críticas, João Alfredo tentava defender a situação: “Senhores, esta República é um desabafo dos desgostosos, a explosão dos espíritos impacientes e aterrados que veem na mudança da forma de governo um remédio a males, cujas proporções exageram. Mas, se a revolução vier, invencível e triunfante, o que há de fazer o governo? […] É melhor dizer que cresça e apareça.”

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