Infidelidade feminina: morte e vergonha

Publicado em 14 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

Os amores adúlteros custavam caro, para as mulheres de elite. Em 1809, certo João Galvão Freire achou-se preso, no Rio de Janeiro, por ter confessadamente matado sua mulher, D. Maria Eufrásia de Loiola. Alegando legítima “defesa da honra”, encaminhou ao Desembargo do Paço uma petição solicitando seu “livramento”, o que realmente ocorreria. Cometido por “paixão e arrebatamento”, o crime era desculpável! Não havia castigo maior do que a pecha de corno, pecha que pairava sobre homens públicos casados quando se queria atingi-los na sua probidade.

Já entre mulheres de camadas desfavorecidas, a solução era a separação. Cada qual seguia para seu lado. Algumas mais corajosas ou tementes a Deus declararam, em testamento, que “por fragilidade humana” tiveram cópula ilícita durante o matrimônio. Comportamentos arrojados não faltavam. Nos registros de certo memorialista, não escapou a lembrança de algumas senhoras, “mulheres de altos personagens”, marcadas por certa desenvoltura; e ele explicava: “não se querendo dar nunca por velhas”, tomavam por “afilhados, distintos mancebos provincianos a quem faziam a fortuna”. Houve, conta-nos Afonso d’Albuquerque Melo, sinhás famosas por esta espécie de prestígio: o de namorar jovens.

Coches e cocheiros assim como alcoviteiros passaram a ter seu papel na vida amorosa das cidades. Sinhás de sobrado não furtavam-se a aventuras galantes dentro de vitórias ou carruagens com lanternas douradas, forros em damasco de seda e caixilhos das rodas em prata. Escravos cocheiros encarregavam-se de alcovitar amores proibidos, mas, não eram os únicos. Vendedores de flores e doceiras, com entrada franca nos sobrados imponentes das cidades, levavam e traziam mensagens.

Barrigas de amores ilícitos eram resolvidas, desde sempre, por conhecidas comadres. Métodos para interromper a gravidez eram, todavia, bem divulgados, conforme reconheciam os doutores da Academia Imperial de Medicina, em 1885: chá de alfazema adoçado com mel, ou quando necessária coisa mais forte: feijão preto com sal, tomado com o estômago vazio. Se nada funcionasse, as Santas Casas de Misericórdia atraíam os bebês indesejados. A do Rio de Janeiro – para ficar num exemplo – recebeu 17 mil crianças entre 1859 e 1908.

O adultério opunha-se às noções de fidelidade, de vida comum e de ajuda mútua, princípios reguladores do casamento e do equilíbrio familiar interno. O homem ou a mulher, quando adúlteros, violavam a honra conjugal, praticando a “injúria grave”. Essa era razão, nas leis religiosas para anulação do matrimônio. A quebra da fidelidade era considerada falta grave para ambos os sexos, porém colocava a mulher numa situação inferior do ponto de vista jurídico. Segundo o jurista Clóvis Bevilácqua, o antigo direito português punia o adultério, com a pena de morte, tanto para a mulher casada quanto para seu cúmplice, mas as infidelidades masculinas, descontínuas e transitórias não eram considerados atos puníveis. Só os concubinários com suas amantes eram passíveis de degredo, pena raramente aplicada.

“A dissolução dos costumes parece ter sido uma das notas predominantes do Primeiro reinado”, assinala o autor do “Estudo Histórico sobre a Polícia da Capital Federal de 1808 a 1831”, que acrescenta terem os “desregramentos de vida do primeiro imperador, seu proceder altamente censurável com a Marquesa de Santos, os fatos escandalosos sucedidos na Corte, na alta sociedade e no próprio clero”, invadido todas as classes sociais, levando “a desmoralização ao lar doméstico com o afrouxamento dos laços de mútuo respeito e estima, que esposos, pais e filhos deviam entre si”. Eram os grandes dando o mau exemplo aos pequenos. Os sobrados promíscuos contagiando os mocambos.

O adultério feminino explícito ou disfarçado somado aos concubinatos masculinos generalizou-se. A imprensa, que multiplicou-se a partir da segunda metade do século, costumava trazer uma “sessão de boatos” ou crônicas onde as traições eram abertamente comentadas. As denúncias nos jornais visavam punir a moral pública. Muitas delas, anônimas, acabavam por divulgar a intimidade de vários casais.

– Mary del Priore

escravosdebret

Cocheiros e vendedores de diversos produtos faziam o papel de alcoviteiros.

 

 

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