Índios, papagaios e café: o Brasil na França

Publicado em 19 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Imaginemos a cena, leitor: sexta feira, 12 de abril de 1613, uma pequena multidão se acotovela na entrada do faubourg Saint-Honoré a espera de uma centena de padres capuchinhos do convento da Paris. Ai aguarda um grupo de nobres desejoso de manifestar seu entusiasmo pelo que era considerada uma “santa e feliz conquista”. Mas não só. Estavam todos igualmente curiosos de conhecer “esses pobres selvagens revestidos de suas mais belas plumagens, maracás à mão”. A aglomeração, nessas alturas, era tão volumosa que o cortejo teve dificuldade em penetrar na igreja. Uma fila de padres tentava isolar o grupo de estrangeiros seminus dos aristocratas, sobretudo, “princesas, damas e outras pessoas de mérito” que se espremiam, na ponta dos pés, tentando enxergar melhor os embaixadores do Novo Mundo. Foi o assunto social da semana.

Três dias depois, os tupinambás, já vestidos à francesa, foram se encontrar com a rainha, Maria de Médicis, no palácio do Louvre. Em frente a sua alteza, executaram uma dança sem grandes movimentos, ritmada apenas por instrumentos, provavelmente chocalhos, contendo, no entender de um observador, “pregos”. Enquanto os companheiros exibiam seus dotes musicais, o índio Itapucu fez um discurso em sua língua natal, pedindo ao rei para enviar ao Maranhão mais profetas – referia-se aos padres capuchinhos – e outros tantos grandes guerreiros, prometendo fidelidade aos seus amigos “papagaios amarelos” – como eram chamados os franceses. A uma senhora desejosa de saber o que mais lhe agradara na França, um dos índios respondeu sem hesitar: “as mulheres”. E outra que, em tom zombeteiro, perguntou-lhe se achava as de sua terra mais bonitas que as francesas, recebeu logo o troco: “Ainda não podemos julgar, respondeu o índio, só diremos a verdade quando pudermos ver as daqui inteiramente nuas, assim como costumamos ver as de nossa terra”. O rei Luís XIII, um menino de temperamento secreto e tímido, visivelmente emocionado, prometeu tratá-los como aos seus próprios súditos enquanto a rainha lhes garantia ajuda e defesa. Não tinham ideia que a imagem da França, bem como aquela das louras francesas, teria impacto de tão longa duração no longínquo Brésil.

Fim do século XIX: Chateaubriand recupera o folclore em torno de índios canibais, cujo grito não é mais um inculto desafio – como significou para Montaigne – mas um canto de amor e morte, bem ao gosto do Romantismo. Na outra ponta, o historiador, economista e geógrafo Émile Levasseur termina o extenso ensaio que publicaria na Grande Encyclopédie sobre o império brasileiro, enquanto o país participa, em Paris, da Exposição Universal de 1889. Seu pavilhão é todo decorado com ramos de café, vitórias-régias e frutas. Enquanto isso, nos trópicos, brota uma visão otimista do presente e do futuro e o final do século XIX e início do XX, foi caracterizado – no melhor sentido europeizante dos meios culturais brasileiros de então – como sendo uma belle époque. A expressão francesa bem dizia da francofilia que, então se enraíza, em hábitos, representações e práticas, fazendo da capital do país, seu palco por excelência. Novidade? Não.

Desde a primeira metade do século, a francofilia – admiração pela França e os franceses – se instala entre nós. Viajantes, naturalistas e artistas trazidos por D. João VI, quando da transmigração da família real, se encarregam de consolidar a mania. O pão francês substituiu a broa de milho e em 1828, os franceses montavam a 3.000 pessoas. O açougue francês era o melhor e, dez anos mais tarde, já existia um guia para estrangeiros sobre a cidade; escrito, “bien sür”, em … francês! A Restauração dos Bourbon recolocou o país como competidor da Inglaterra e o prestígio cultural da França se exporta, junto com as linhas de “paquebot”, mundo afora. – Mary del Priore.

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 “Índia”, na visão de Debret.

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2 Comentários

  1. Ivan Dias disse:

    A francofilia, vivenciada em seu auge através da Belle Époque, se exauriu de todo seu ideal admirador das “coisas da França” em que período? Após a 1ª Grande Guerra?
    Parabéns pelo texto.

    • marcia disse:

      Muitos exemplos de influência francesa (literatura, arte, moda, decoração, etc) se multiplicaram até a Segunda Guerra Mundial, quando a influência francesa cedeu lugar à americana.

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