Homossexualidade e doença

Publicado em 17 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

Em meados do século XIX,  a medicina legal começava a desenhar o perfil do “antifísico”: um tipo humano relacionado a determinadas formas de animalidade, dentre as quais as relações homoeróticas. Imediatamente a seguir, a homossexualidade, associada a uma herança mórbida tornava-se alvo de estudos clínicos. O homossexual não era mais um pecador, mas um doente, a quem era preciso tratar. Tudo podia começar com uma “amigação” num colégio para rapazes. Aí, alguns tipos dengosos, quase sinhazinhas, na descrição de Gilberto Freyre, faziam-se notar pelos trajes de veludo, pelas sobrecasacas a Luis XV com rendas nos punhos, pelas golas de pelúcia dos casacos, muita brilhantina no cabelo, o extrato excessivo no lenço, adereços que os tornavam objeto de escárnio por parte dos colegas

Em seu livro, Attentados ao pudor: estudos sobre as aberrações do instincto sexual, de 1894, José Viveiros de Castro, professor de criminologia na faculdade de Direito do Rio de Janeiro empregou, pela primeira vez, um termo pejorativo: fresco. No capítulo intitulado “Pederastia”, ele descreveu os frescos cariocas, referindo-se a homens que, em 1880, nos últimos bailes do Império, invadiram o baile de máscaras do carnaval no Teatro São Pedro, localizado no Largo do Rossio. Tal como outros intelectuais da época – físicos, políticos, advogados, intelectuais e artistas – ele retratava os sodomitas modernos como homens efeminados que ganhavam a vida com a prostituição das ruas.

Membros da classe médica ocasionalmente escreveram sobre o tema, combinando a tradicional aversão moral e religiosa ao homoerotismo, com teorias do tipo: a homossexualidade se devia a distúrbios psicológicos; originava-se graças à falta de “escapes normais”; atribuía-se à “criação moral imprópria”. Listavam-se as diferentes características dos “penetradores” e dos “penetrados”. Era a moralidade e não a medicina, o remédio para lutar contra esta “aberração da natureza”.

Segundo Ferraz de Macedo, estes homens possuíam vocabulário próprio e sinais para efetuar suas “cantadas”. Identificavam-se por conversas, gestos das mãos e “pouca serenidade e circunspeção”. Gostavam de ficar à toa em lugares públicos, especialmente nas ruas mais movimentadas, em procissões religiosas – eles, tanto quanto os casais heterossexuais – em frente de teatros e durante romarias. Possuíam elegância, faziam questão de estar bem vestidos, portando camisas bordadas, lenços vermelhos ou azuis e gravatas de seda. Perfumavam os cabelos, usavam ruge e maquilagem pérola, portavam berloques e correntes de ouro. Enfim, signos “de um mundo depravado”. A malícia da época e o anti-lusitanismo, atribuíam aos comerciantes portugueses fazer dos seus caixeiros, suas mulheres e não faltavam notícias de jornais, como a publicada no “O Periquito”, de Recife, sobre os “tarugos”, como eram chamados lá: “um moço de 16 anos, pardo”, com uma cabeleira que se desprendia em grande trança. “Vestia camisa de mulher, meias compridas e sandálias bordadas. Em seu baú foram encontrados retratos de alguns empregados do comércio, cartas amorosas e etc.” . Foi a época, também de um famoso Herotides, que dançava em pastoril ou de Atanásio, que a à rua dos Ciganos, na capital, recebia desde o caixeiro ao senador do Império.

Mas os “frescos” também amavam. E é Adolfo Caminha quem, em 1895, publica seu segundo romance, O Bom Crioulo, com a história de um fanchono e seu amor por um garoto pubescente. Amaro, um escravo fugitivo busca refúgio trabalhando num navio da marinha brasileira. Aí encontra Aleixo: jovem e delicado grumete, de pele clara e olhos azuis, por quem se apaixona. Quando em terra, Amaro monta casa – um quarto alugado – com Aleixo, onde vivem um relacionamento livre. Em viagem, Amaro não deixava de levar uma fotografia de Aleixo – o daguerreótipo ficara conhecido no Brasil, desde 1840 – imagem que, ao deitar, enchia de beijos úmidos e voluptuosos. Mas não poderia haver, nesta época, história assim sem final trágico. Pois Aleixo se deixa seduzir pela senhoria – Carolina, uma ex-prostituta – e roído de ciúmes, Amaro o mata.  Ambos são vítimas, na tradição da época do amor trágico, amor traído, amor impossível, amor de novela. – Mary del Priore

caravaggio

Baco Ébrio, de Caravaggio.

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6 Comentários

  1. Edir Gomes disse:

    Muito boa a matéria, muito me encanta os estudos históricos à respeito da sexualidade e Mary Del Priore é uma referência, acabei de ler Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre logo após Histórias Íntimas da Mary, cada vez mais fascinado por história, muito obrigado e parabéns…

  2. Italo Soares disse:

    Diante tantos casos de homofobia já se faz necessario encarar a situação como caso de saúde pública sem preconceitos e tabus já prestabeleicidos.

  3. Eber Oliveira disse:

    É interessante ver que a homossexualidade foi vista por diversas vertentes ao longo do tempo, durante a leitura, me peguei fazendo projeções de como será vista no futuro. Lady Gaga acha lindo, Feliciano abomina, também não pode se esperar que 100% das pessoas aceitem um dia.

  4. Maravilhoso artigo, como sempre Mary, com sua característica competência ao relatar com precisão e emoção ensinando magistralmente, desculpe-me o pleonasmo…A nossa História cotidiana e a evolução dos costumes e visões de mundo.
    Tudo de bom querida, q adoro ler diariamente.

  5. Maria Jose Duarte disse:

    Sou formada em Historia e acho muito interessante e enriquecedoras as publicacoes e cometarios deste site. Sempre estou ligada no que aparece aqui. Parabens aos responsaveis!!!

  6. Infelizmente, a homofobia ainda existe. Apesar das leis e do avanço da ciência, há os que creem que o homossexualismo seja uma doença ou falta de vergonha.
    Uma das coisas que admiro neste blog é a importância que as historiadoras dão à história dos costumes e do comportamento. Um jeito leve e inteligente de conhecer o povo brasileiro ao longo do tempo.

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