Homossexualidade e doença: a “cura gay” no passado

Publicado em 19 de setembro de 2017 por - artigos

            No final do século XIX,  a medicina legal começava a desenhar o perfil do “antifísico”: um tipo humano relacionado a determinadas formas de animalidade, dentre as quais as relações homoeróticas. Imediatamente a seguir, a homossexualidade, associada a uma herança mórbida tornava-se alvo de estudos clínicos. O homossexual não era mais um pecador, mas um doente, a quem era preciso tratar. Tudo podia começar com uma “amigação” num colégio para rapazes. Aí, alguns tipos dengosos, quase sinhazinhas, na descrição de Gilberto Freyre, faziam-se notar pelos trajes de veludo, pelas sobrecasacas a Luis XV com rendas nos punhos, pelas golas de pelúcia dos casacos, muita brilhantina no cabelo, o extrato excessivo no lenço, adereços que os tornavam objeto de escárnio por parte dos colegas

            Em seu livro, Attentados ao pudor: estudos sobre as aberrações do instincto sexual, de 1894, José Viveiros de Castro, professor de criminologia na faculdade de Direito do Rio de Janeiro empregou, pela primeira vez, um termo pejorativo; fresco. No capítulo intitulado “Pederastia”, ele descreveu os frescos cariocas, referindo-se a homens que, em 1880, nos últimos bailes do Império, invadiram o baile de máscaras do carnaval no Teatro São Pedro, localizado no Largo do Rossio. Tal como outros intelectuais da época – físicos, políticos, advogados, intelectuais e artistas – ele retratava os sodomitas modernos como homens efeminados que praticavam sexo anal como elementos passivos e ganhavam a vida com a prostituição das ruas. “Um destes frescos – diz Viveiros de Castro – como eram eles conhecidos na gíria popular, tornou-se célebre pelo nome Panela de bronze. Vestia-se admiravelmente de mulher, a ponto de enganar os mais perspicazes. Dizem que chegou a adquirir alguma fortuna por meio de sua torpe indústria e que era tão grande o número de seus frequentadores, pessoas de posição social, que era necessário pedir com antecedência a entrevista”.

Membros da classe médica, como Ferraz de Macedo, ocasionalmente escreveram sobre o tema, combinando a tradicional aversão moral e religiosa ao homoerotismo, com teorias do tipo: a homossexualidade se devia a distúrbios psicológicos; originava-se graças à falta de “escapes normais”; atribuía-se à “criação moral imprópria”. Listavam-se as diferentes características dos “penetradores” e dos “penetrados”. Era a moralidade e não a medicina, o remédio para lutar contra esta “aberração da natureza”.

Segundo Ferraz de `Macedo, estes homens possuíam vocabulário próprio e sinais para efetuar suas “cantadas”. Identificavam-se por conversas, gestos das mãos e “pouca serenidade e circunspeção”. Gostavam de ficar à toa em lugares públicos, especialmente nas ruas mais movimentadas, em procissões religiosas – eles, tanto quanto os casais heterossexuais – em frente de teatros e durante romarias. Possuíam elegância, faziam questão de estar bem vestidos, portando camisas bordadas, lenços vermelhos ou azuis e gravatas de seda. Perfumavam os cabelos, usavam ruge e maquilagem pérola, portavam berloques e correntes de ouro. Enfim, signos “de um mundo depravado”. A malícia da época e o anti-lusitanismo, atribuíam aos comerciantes portugueses fazer dos seus caixeiros, suas mulheres e não faltavam notícias de jornais, como a publicada no O Periquito, de Recife, sobre os “tarugos”, como eram chamados lá: “um moço de 16 anos, pardo”, com uma cabeleira que se desprendia em grande trança. “Vestia camisa de mulher, meias compridas e sandálias bordadas. Em seu baú foram encontrados retratos de alguns empregados do comércio, cartas amorosas e etc.” . Foi a época, também de um famoso Herotides, que dançava em pastoril ou de Atanásio, que a à rua dos Ciganos, na capital, recebia desde o caixeiro ao senador do Império.

Mas os “frescos” também amavam. E é Adolfo Caminha quem, em 1895, publica seu segundo romance, O Bom Crioulo, com a história de um fanchono e seu amor por um garoto pubescente. Amaro, um escravo fugitivo busca refúgio trabalhando num navio da marinha brasileira. Aí encontra Aleixo: jovem e delicado grumete, de pele clara e olhos azuis, por quem se apaixona. Quando em terra, Amaro monta casa – um quarto alugado – com Aleixo, onde vivem um relacionamento livre. Em viagem, Amaro não deixava de levar uma fotografia de Aleixo – o daguerreótipo ficara conhecido no Brasil, desde 1840 – imagem que, ao deitar, enchia de beijos úmidos e voluptuosos. Mas, como já viu o leitor, não há, nesta época, história assim sem final trágico. Pois Aleixo se deixa seduzir pela senhoria – Carolina, uma ex-prostituta e roído de ciúmes, Amaro o mata.  Ambos são vítimas, na tradição da época do amor trágico, amor traído, amor impossível, amor de novela.

          Numa obra publicada em 1947, Homossexualismo Masculino, texto apresentado num seminário sobre Medicina legal, o autor Jorge Jaime, apesar do caráter preconceituoso – “Coitados! Infelizes, só adoram machos e por eles se apaixonam”. – propõe algo inédito: os homossexuais deveriam ter o direito de se casar. “Existem milhares de invertidos que vivem maritalmente com indivíduos do seu próprio sexo. Se fosse concedido o casamento entre homens não se criaria nenhuma monstruosidade: apenas, se reconheceria por um estado de direito, um estado de fato […] A união legal entre doentes é um direito que só os países ditatoriais negam. Se os leprosos podem casar entre si, porque devemos negar esse direito aos pederastas? Só porque aos normais repugna um ato de tal natureza?”.

        Tinha uma lógica curiosa, Jorge Jaime. O casamento entre homossexuais teria outras vantagens além de sinalizar a anormalidade do casal: evitaria a prostituição masculina, impedindo, ao mesmo tempo, que jovens inocentes se casassem com “invertidos”. Em tom liberal, Jaime defende: “Um uranista só é feliz na convivência dos homens que lhes saciam os instintos. E muitos homens sentem-se felizes quando têm relações com uranistas do que com mulheres. Então, porque não os proteger legalmente? O Direito foi posto na Terra para regular interesses recíprocos. Hoje mais do que em época alguma, tem evoluído muito o conceito de família e já se acha mais importante  a felicidade que a moral”. Mas a pá de cal, não tarda. Jaime prossegue implacável, “Mas haverá realmente felicidade onde existem fissuras anais e líquidos contendo gonococos ?”. Seus argumentos são os mesmos de seus colegas, da geração anterior. Homossexualismo é doença.

        Pouco se sabe sobre o universo amoroso das homossexuais femininas e mesmo Luís Mott, autor do único livro específico sobre o assunto, reconhece a falta de informações para estes Anos Dourados. O preconceito contra a mulher homossexual era brutal: perda dos filhos, no caso das casadas; insegurança econômica, no caso das remediadas, brutal pressão familiar para que arranjassem namorados, noivos e maridos. Mulheres brilhantes como Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop tiveram que viver sua relação às escondidas. Muitas burguesas fugiram para o interior. No Rio de Janeiro, Petrópolis acolheu alguns casais. Não foram poucas as espancadas por pais, maridos ou filhos revoltados com a situação. Não foram pouco os suicídios em que um bilhete deixado aos parentes, revela o desespero de jovens, massacradas com a intransigência familiar. É preciso esperar o final dos anos 70, para as “enrustidas” começarem a atuar politicamente e a falar de seus amores.

  • Texto de Mary del Priore. Adaptado de “História do Amor no Brasil”, editora Contexto, 2ª edição.

Afresco do norte de Pesto (Paestum) na Itália.

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