Homem, pai e senhor

Publicado em 19 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

No início do século passado, ser feliz no casamento significava dividir afeto com o cônjuge, ter estabilidade familiar, dando carinho aos filhos e vivendo com segurança financeira. Era comum que a correspondência de época desvendasse os sentimentos entre casais separados por motivos de trabalho. Mulheres revelavam as saudades de maridos que trabalhavam em outra cidade, e eles, por sua vez, sentiam remorsos por afastar-se de suas companheiras. Amor conjugal e amor familiar se davam as mãos.

Naqueles tempos, o cumprimento dos papéis — ser bom marido e devotada esposa — não podia ser ignorado sob pena de severas sanções sociais. Responsabilidades eram exigidas de parte a parte pela sociedade: conduta dominadora e virtuosa do homem. E castidade e submissão da mulher. Qualquer ameaça ao poder masculino tornava-se fator de desentendimento. Se os valores tradicionais fossem ameaçados, o marido reagia. E devia fazê-lo sob pecha de ser considerado “corno manso”. Por outro lado, o abandono do lar, as ausências prolongadas ou desmandos eram considerados motivos de desonra. Sua primeira obrigação: ser provedor e exercer a maior vigilância sobre a mulher. Ai da má esposa ou mãe! As “honestas” não saíam nunca à rua sem companhia. Eram vistas como seres frágeis e recatados. Suas faculdades afetivas tinham que predominar sobre as intelectuais. O mais alto valor feminino? A reputação.

Em casa, um homem era tudo. O direito, a filosofia, a política contribuíam, então, para assentar sua autoridade. Ele é quem dava o sobrenome e a luz, pois, segundo alguns juristas, “o nascimento jurídico era o único verdadeiro”. O Código Civil estabelecia a superioridade absoluta do marido no lar, e do pai na família. Esta onipotência se estendia aos filhos: mesmo maiores de idade tinham que ter “respeito sagrado pelo autor dos seus dias”. O pai podia mandar prender os filhos e recorrer às prisões do Estado para puni-los. Só ele dominava o espaço público, pois era o único a gozar de direitos políticos e domésticos: senhor do dinheiro, vigia dos passeios e da correspondência feminina, provedor de decisões fundamentais ou pedagógicas, cabia-lhe até escolher os estudos para os filhos.

Mas ele se impunha no cotidiano também. Tinha seu espaço, o escritório ou a biblioteca, onde os filhos entravam tremendo. Qualquer decisão do pai ou marido se fundava nos argumentos da ciência e da razão. Contra a mulher, considerada na época um ser devoto e tacanho, influenciável pelos sentimentos, tentado pela paixão, espreitado pela loucura, o pai — o homem — devia defender os direitos da inteligência. As questões domésticas eram importantes demais para ficar só nas mãos das mulheres. O poder ameaçado de um pai ou marido podia levá-lo a cometer crimes, sem manifestar por isso qualquer culpa. – Mary del Priore

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“Arrufos”, de Belmiro de Almeida.

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