História, o fim? Não. Só o crepúsculo.

Publicado em 4 de fevereiro de 2016 por - História

No momento em que se debate o conteúdo dos programas de história, um livro com ideias e título provocador convida à reflexão: O crepúsculo da História. Com ironia, muitíssima competência e seriedade idem, seu autor, Shlomo Sand, se pergunta, se os dias de Clio (a musa grega da História) não estariam contados.  Nascido num campo de refugiados em 1946 e criado em Israel a partir de dois anos, Sand que é professor da Universidade de Tel-Aviv, também escreveu o polêmico “Como o povo judeu foi inventado”.

O crepúsculo…” é notável pela pertinência das questões e, sobretudo, das respostas: toda a narrativa histórica não é marcada pela ideologia? As sensibilidades e tendências políticas não interferem no tema das pesquisas e no ensino de história? E nessas condições, é possível existir uma verdade histórica moralmente neutra e dita científica?

Apoiado num vasto painel que cobre da Antiguidade aos nossos dias, ele denuncia os métodos com os quais os historiadores europeus construíram os mitos nacionais modernos ou, ainda, a tendência atual de fazer do historiador um sacerdote da memória oficial ou um forjador da identidade nacional. De fato, não há novidade em dizer que a história tem por tarefa fornecer modelos para as elites políticas. Afinal, ela é um tipo de gênero literário que alimenta suas visões de mundo, e é sempre escrita do lado do poder.

Com o nascimento dos Estados-Nação no século XIX, e a institucionalização da profissão de historiador nas universidades, a disciplina História se tornou nevrálgica para a pedagogia do Estado. Coube-lhe falar de suas origens, alimentar suas glórias, mas, também se perguntar de que forma o historiador sobreviveria sem o Estado. Com talento sob medida para a polêmica Sand resume: “os historiadores […] são para a memória nacional o que os cultivadores de ópio […] são para os consumidores de droga: eles fornecem o essencial da mercadoria”.

Para construir uma nação, são necessários vários parâmetros: uma língua comum, um inimigo comum e, mais importante, uma memória coletiva. Ou seja, é preciso acreditar que não somos um coletivo de gente, apenas, hoje. Somos um coletivo desde sempre. Teria sido sempre assim. Para provar tal afirmativa, entram o papel e a função da História.

Para começar, é preciso analisar todos os ângulos de qualquer questão, de preferência, escapando, das interpretações míticas. Fácil? Não. Vejamos um exemplo de história do tempo presente: se compararmos as informações das mídias acadêmicas americanas, russas, inglesas, francesas, sírias, turcas, iranianas, líbias, israelenses ou libanesas, veremos como é quase impossível se ter uma ideia clara sobre o conflito no Oriente Médio.  Além da diversidade contraditória das informações, é preciso acumular os testemunhos dos que vivem ou fogem desta realidade. E ainda, levar em conta, “quem fala”. A qual classe social, credo ou cor pertence o historiador que nos comunica tais informações? Na Idade Média, esse papel seria da Igreja. E mais recentemente, da burguesia. Frente as perguntas de Shlomo Sand, ficamos nos perguntando se ainda é possível ensinar históri a, e até duvidamos do que aprendemos nos livros escolares. A quem interessaria o sentimento nativista? Afinal, existiria uma verdade histórica ou ela é apenas uma fantástica narrativa de ficção servindo ora aqui ora ali?

O estudo cada vez mais aprofundado de textos, um olhar incansável sobre as fontes documentais, uma interrogação pluridisciplinar nos permitiria uma aproximação não somente dos fatos, mas também de sua manipulação sistemática. Ao final do livro, Sand faz uma confissão desoladora: depois de quarenta anos de ensino de história, « para que ainda estudar história? Não por devoção à memória coletiva, mas para melhor se libertar de um passado fabricado e se virar na direção do futuro ».

Bom para pensar…

Texto de Mary del Priore.

O livro pode ser comprado através das livrarias XXX. Crepuscule de L´Histoire é publicado pela Editora Flamarion e custa 23,90 Euros.

Clio-Mignard

Clio, de Pierre Mignard (século XVII).

 

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