Guerra ao feminismo: o ator pornô, o Oscar e a mídia

Publicado em 3 de março de 2015 por - temas atuais

Tenho acompanhado com preocupação o noticiário relativo à condição feminina, principalmente em nosso país.Segundo o jornal britânico Daily Mail, o Brasil é o segundo destino mais perigoso para mulheres viajarem, ficando atrás somente da Índia. O jornal cita o inacreditável número de estupros cometidos (50 mil por ano) e o machismo da nossa cultura. Um caso terrível ocorrido em Osasco, no Carnaval, quando uma menina de 13 anos foi violentada por nove homens, é mais um triste exemplo da realidade nacional.

Infelizmente, estupro é algo divertido na opinião de parte dos brasileiros. Um “ator” causou polêmica ao descrever na TV como forçou uma mulher a manter relações sexuais com ele e depois a largou, desmaiada, no chão. Como um objeto usado e descartado, um lixo, um refugo. O apresentador do programa (o mesmo que disse que mulher “feia” deveria agradecer ao estuprador) deu gargalhadas e a plateia também. Depois, ele disse que era ficção, apenas brincadeira. Desde quando aquela história horrível é engraçada??!! Ninguém se sentiu incomodado com tanto machismo e desrespeito a um ser humano??

Mas não para por aí. Foi bastante divulgado um recente estudo do BID que demonstrou que o Brasil apresenta um dos maiores níveis de disparidade salarial entre os sexos, sendo que os homens ganham aproximadamente 30% a mais que as mulheres de mesma idade e nível de instrução. Isso ocorre no mundo todo, em diferentes graus. Pois bem, isso não é “mimimi”, é um dado concreto e injusto. A revista de maior circulação nacional (Veja), entretanto, ridicularizou as atrizes que, na festa do Oscar, reivindicaram salários iguais para as mulheres e pediram aos jornalistas que lhes fizessem perguntas mais inteligentes do que a marca de seus vestidos e joias.

O conservadorismo da nossa mídia se sentiu incomodado com as estrelas que resolveram quebrar um pouco do protocolo e falar de temas que são importantes para as mulheres no mundo todo. Foi estratégia de marketing? Provavelmente, mas ninguém pode negar que elas tocaram em dois pontos fundamentais da atualidade: desvalorização da mulher no mercado de trabalho e a obsessão pela aparência feminina. Em vez de fomentar a discussão sobre esses assuntos, que são muito sérios, a revista preferiu fazer ironias bobas, desqualificando as atrizes. E quanto às nossas celebridades? Não está na hora de usar sua visibilidade para discutir a condição feminina em nosso país?

Mesmo com todos esses problemas concretos – violência, abuso sexual, disparidade salarial, desqualificação da capacidade intelectual da mulher – ainda existe muita gente que acredita que o feminismo é bobagem, que é coisa de mulher mal amada, desocupada. Quantos artigos são publicados reforçando esses estereótipos – e não estou falando de reacionários obscuros da internet, mas de filósofos, jornalistas e intelectuais que têm seu espaço garantido nos maiores veículos de comunicação do país.

A mulher ainda é retratada pela mídia como um objeto sexual. Quem foge dos padrões vigentes é ridicularizada. Sabemos que questões culturais são modificadas muito lentamente, mas podem ser mudadas. Cabe a nós, mulheres (e homens que acreditam em uma sociedade mais justa, igualitária e menos violenta), reagir e fazer pressão para que sejamos respeitadas. Um bom exemplo de como somos ouvidas quando nos mobilizamos foi a recente campanha da Skol, que foi retirada do ar e das ruas pela péssima repercussão junto ao público feminino.

No mês das mulheres, é bom não nos enganarmos com homenagens e flores (não tenho nada contra esse tipo de gentileza): a sociedade e a mídia ainda estão em guerra contra o feminismo e irão nos atacar sempre que reivindicarmos nossos direitos. Ao invés de deixar o “não” em casa, vamos dizer NÃO ao machismo, ao estupro, à violência, ao desrespeito.

– Márcia Pinna Raspanti.

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“Arrufos”, de Belmiro de Almeida.

 

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5 Comentários

  1. Evandro disse:

    O caso da Skol foi mais censura, que é um aspecto negativo de certas alas do feminismo, do que propriamente um ganho.

    • marcia disse:

      Oi, Evandro. Discordo de você. Censura é uma forma de impedir que certo conteúdos ou informações cheguem a público. No caso, a campanha foi veiculada, mas causou constrangimento e até revolta em parte da população feminina. A empresa achou melhor retirá-la de circulação. A sociedade tem direito de se manifestar com relação ao que é veiculado pela mídia, pode criticar, boicotar e até pedir que conteúdos sejam retirados – se isso vai ocorrer ou não, é outra história. Liberdade de expressão não é somente ter direito a publicar o que quiser, mas arcar com as reações – positivas e negativas – e com as consequências. Obrigada.

  2. Gabi disse:

    Quanto à campanha da Skol, devo dizer que aqui em Florianópolis, ela ainda está nos principais pontos da cidade. Por que aqui não houve mobilização para retirar o anúncio?

  3. lilian disse:

    A revista veja é um lixo, é um disfarce de revista séria e para pessoas intelectuais, é apenas um lixo tendencioso e parcial

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