Grandes navegações: a vida dura dos marujos

Publicado em 10 de março de 2015 por - História do Brasil

Lisboa, final do século XV. Na praia ribeirinha, estendia-se a Ribeira das
Naus, com suas oficinas e seus barcos prestes a ser lançados ao Tejo.
Ao longo dela, instalavam-se os malcozinhados, pequenas tabernas fumacentas nas quais se reuniam marinheiros, prostitutas, escravos e trabalhadores braçais pobres para consumir sardinhas fritas e vinho barato. Nas águas turvas e calmas do rio desfilavam tanto embarcações transportando alimentos dos arredores, quanto barcos enfeitados, nos quais músicos embalavam a conversa dos bem-vestidos membros da Corte de d. Manuel I.

No porto, tremulavam naus mercantes vindas de Gênova, Veneza, Normandia, Bristol ou de Flandres. Em terra, prontos para embarcar nas caravelas que fariam a Carreira das Índias,aglomeravam-se marujos acostumados àquele tipo de vida, além de “vadios e desobrigados” recrutados pelas ruas de outras cidades.
Quem era essa gente que mudaria o mundo? As tripulações apresentavam, desde o século XV, um leque de marinheiros de idiomas e origens diferentes. Entre os portugueses, era comum a presença de escravos negros. Quando estenderam suas campanhas ao Norte da África, os lusos procuravam quem falasse árabe ou recrutavam intérpretes capazes de se comunicar com os mouros. No imaginário da
época, esses marinheiros eram vistos como “criminosos da pior espécie”,
cujas penas por decapitação ou enforcamento podiam ser comutadas
pelo serviço marítimo. Os testemunhos eram de que quase todos os
tripulantes dos navios eram “adúlteros, malsins, alcoviteiros, ladrões,
homens que acutilam e matam por dinheiro e outros de semelhante raça”.
Muitas prostitutas subiam a bordo de forma clandestina, enganadas pela
marujada, embarcadas por magistrados portugueses ou soldados.
Quando uma dessas passageiras era encontrada, deixavam-na no porto
seguinte ou a isolavam da tripulação.

Os pobres embarcados dependiam da generosidade de um capelão para arranjar-lhes roupas com as quais pudessem se cobrir. Outros procuravam um capitão rico, capaz de provê-los de “vestidos e camisas bastantes” para os meses que ficavam longe da terra natal. Esses marinheiros, geralmente, portavam calções
compridos e volumosos a fim de não atrapalhar os movimentos exigidos
pelas manobras de navegação. Os calções eram amarrados à cintura por
cordões e complementavam-se com o schaube, um sobretudo em forma
de batina, sem mangas.
Pequenas – cerca de vinte metros de comprimento –, ágeis, capazes
de avançar em zigue-zague contra o vento e dotadas de artilharia pesada, as caravelas eram consideradas os melhores veleiros a navegar em alto-mar. Mas, apesar de a embarcação ser boa, o cotidiano das viagens ultramarinas não era fácil. A precária higiene a bordo começava pelo espaço restrito que era utilizado pelos passageiros. Inicialmente de apenas um convés, as caravelas tendem a crescer. Em uma nau de três conveses ou pavimentos, dois eram utilizados para a carga da Coroa, dos mercadores e dos passageiros. O terceiro era ocupado em sua maior parte pelo armazenamento de água, vinho, madeira e outros objetos úteis. Nos “castelos” das embarcações encontravam-se as câmaras dos oficiais – capitão, mestre, piloto, feitor, escrivão – e dos marinheiros, armazenando-se, no mesmo local, pólvora, biscoitos, velas, panos, etc.

O banho a bordo era impossível. Além de não existir este hábito de
higiene, a água potável era destinada ao consumo e ao preparo de
alimentos. Nas pessoas e na comida, proliferavam todos os tipos de
parasitas: piolhos, pulgas e percevejos. Confinados em cubículos,
passageiros satisfaziam as necessidades fisiológicas, vomitavam ou
escarravam próximos de quem comia. Por isso mesmo, costumava-se
embarcar alguns litros de água-de-flor, destinada a disfarçar os odores
nauseantes, além de ervas aromáticas, queimadas com a mesma
finalidade. Em meio ao constante mau cheiro e associado ao balanço
natural, o enjoamento era constante. A má higiene a bordo costumava
contaminar os alimentos e a água embarcada. Os fluxos de ventre, para
os quais não havia cura, ceifavam rapidamente indivíduos já desidratados
e desnutridos.
A alimentação durante as longas viagens sempre foi um problema para a Coroa. A falta habitual de víveres em Portugal impedia que os navios fossem abastecidos com a quantidade suficiente de alimentos. O Armazém Real, encarregado do fornecimento, com certa frequência simplesmente deixava de fazê-lo. A fome crônica e a debilidade física colaboravam para a morte de uma parcela importante dos marinheiros. Em Memórias de um soldado na Índia, Francisco Rodrigues Silveira relatava, queixoso, que eram raros os “soldados que escapam das
corrupções das gengivas [o temido escorbuto, doença causada pela falta
de vitamina C], febres, fluxos do ventre e outra grande cópia de
enfermidades…”.
Além de escassos, os alimentos muitas vezes estragavam antes
mesmo de começar a viagem. Armazenados em porões úmidos, se
sobreviviam ao embarque, apodreciam rapidamente ao longo da jornada.
O rol dos mantimentos costumava incluir biscoitos, carne salgada, peixe
seco (principalmente bacalhau salgado), banha, lentilhas, arroz, favas,
cebolas, alho, sal, azeite, vinagre, mel, passas, trigo, vinho e água. Nem
todos os presentes tinham acesso aos víveres, controlados
rigorosamente por um despenseiro ou pelo próprio capitão. Oficiais mais
graduados ficavam com os produtos que estivessem em melhores
condições, muitas vezes vendendo-os numa espécie de mercado negro a
outros viajantes famintos. Grumetes e marinheiros pobres eram
obrigados a consumir “biscoito todo podre de baratas, e com bolor mui
fedorento e fétido”, entre outros alimentos em adiantado estado de
decomposição. Mel e passas eram oferecidos aos doentes da tripulação
nobre. Febres altas e delírios, que costumavam atingir muitos dos
tripulantes, decorriam da ingestão de carnes excessivamente salgadas e
podres regadas a vinho avinagrado. Nas calmarias, quando a nau poderia
ficar horas ou dias sem se mover, sob o calor tórrido dos trópicos, os
marinheiros famintos ingeriam de tudo: sola de sapatos, couro dos baús,
papéis, biscoitos repletos de larvas de insetos, ratos, animais mortos e
mesmo carne humana. Muitos matavam a sede com a própria urina.
Outros preferiam o suicídio a morrer de sede.
Na realidade, a dramática situação dos navegadores não diferia
muito da enfrentada pelos camponeses em terra firme. Um trabalhador
que cavasse de sol a sol, sete dias por semana, não ganhava mais do
que dois tostões por dia. A quantia mal lhe permitia comprar alguns
pedaços de pão. O que dizer do sustento de famílias inteiras, sem
alimentos ou vestimentas? Um grande número de camponeses pobres
preferia fugir da fome enfrentando os riscos do mar, mesmo conhecendo
as privações a que seriam submetidos na Carreira das Índias.

– Mary del Priore.

santamaria1

Caravela Santa Maria.

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